Educação Sexual

O Luís, o da Lúcia, desafia-me a dizer algo sobre o abaixo-assinado que o Fórum da Família elaborou para protestar com alguns conteúdos e exercícios presentes nos manuais de educação sexual. Ele já disse quase tudo. Mas eu agora já apanhei o balanço. A questão central é que, como o Luís aventa, o abaixo-assinado soa a falso, não porque não possam existir preocupações legítimas, mas por se perceber muito claramente que o que move o Fórum Família é uma incomodidade mais profunda em relação à educação sexual em si. Isto dos manuais é um mero pretexto que cumpre um plano mais amplo, envergonhadamente omisso. Parece-me.
Em relação ao facto de os manuais proporem exercícios desadequados, produtos de progressismo excessivo, devo dizer duas coisas. Primeiro, importa lembrar que a questão da educação sexual em Portugal -- pelo seu atraso, custosa disseminação e pelos agentes que a ministram -- espelha com escândalo poder do conservadorismo militante. Os excessos progressistas estão longe de ser o nosso verdadeiro problema. Segundo, devo concordar as reservas do Luís (não com as do Fórum família que me soam a falso). Acho de facto que esse tipo de exercícios faz pouco sentido para uma sala de aula. Recorro à divisão decisiva que Foucault faz uma entre ars erotica e a scientia sexualis. Ao ocidente, ao contrário dos mundos do Kama Sutra, falta ars erotica. Temos, ao invés, e desde o século XVIII, uma profusa scientia sexualis. A questão é que, desde os tempos em que os cientistas diziam que a masturbação era causa de cegueira, a scientia sexualis tem estado ao serviço de uma cultura moralista burguesa que nega a ars erótica e consagra os escapes libertários como a incandescência pornográfica, promove o sexo inseguro e as gravidezes indesejadas na adolescência (não é por acaso que Portugal é recordista europeu em mais adolescentes). Acho, portanto, que as salas de aula não devem ser o lugar onde a ars erótica se germina, e por isso aqueles exercícios têm pretensões que reputo de equivocadas. Na sala de aula deve ministrar-se, outrossim, uma scientia sexualis não ideológica que forje o caminho para que a exploração da ars erótica se dê, avisada, nos lugares e nos tempos indicados pelos trilhos da descoberta. Mas isto o Luís já tinha dito.



<< Home