"E afinal tem alma lá dentro!"*

Jesus sempre resistiu ao desafio dos fariseus para que mostrasse o sinal dramático de que era de facto o enviado de Deus. Provavelmente, para ele, tal seria a mercadorização chantangista da fé. Os corações não se abrem com momentos houdinescos, terá pensado, muito antes de Houdini, mas com a sinceridade de um querer partilhado, uma crença com lagos para se espraiar, uma comunalidade que apetece celebrar. Há pessoas assim, clamam por grandes sinais e esmagam o ardor revelado nas pequenas palavras do quotidiano, sonegam a ensejo divino das grandes obras, aspergindo de ácido banalizante a nobreza dos grandes motores do sentimento:
"Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!/ Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,/ Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma (A.Campos)."
De um lado temos a ansiosa espera dos grandes sinais, do outro, as quotidianas rosas que, tantas vezes, não chegam a sair do bolso dos amantes contundidos.

*A. Campos. Ode Triunfal



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