Dolce Vita

Passeio por espaços acabados de construir. Acabados de estrear com música e fogo de artifício. Vagueio na tal suposta modernidade urbana, espelhada, funcional, acolhedora e bem parecida. Com um mínimo de atenção reparo como, nas mais basilares estruturas da construção, nos sucessivos pormenores, surge absolutamente aviltante a negligência reinante em relação às regras de acessibilidade para as pessoas com deficiência. Portas pesadíssimas, escadas escusadas sem alternativa, balcões altíssimos, informação cifrada para as diferentes relações sensoriais com o mundo, etc, etc. A legislação vigente é tida como uma inventona de que todos têm autorização para se rir. Dos princípio do Design Universal ninguém parece ter ouvido falar. Por certo as licenciaturas que formam e arquitectos e engenheiros terão mais com que se preocupar.

Cada vez que vejo uma nova obra ser construída com tal desrespeito pelas pessoas com deficiência sou assaltado por um sincero nojo. Há pouco tempo fui uma conferência na Casa da Cultura, edifício recente, arejado. Um dos oradores, deficiente motor, chamou-me por favor, alguém teria que lhe levantar a cadeira de rodas seguindo as suas indicações para que pudesse entrar na sala. O facto de vermos tão poucas pessoas com deficiência nas ruas e espaços urbanos não quer dizer que elas não existam. Existem, mas invisíveis, relegadas para os cantos escuros de suas casas. Pulhice. É o que é. Arquitectos, engenheiros, câmaras municipais, grupos económicos, governos. Tudo saboreando a harmonia institucional do crime organizado.



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