De momento não posso atender


Foto de Alain Marc tirada daqui.
Quando sentenciou que era chegado o inevitável fim jurou a Daniel que não mais lhe ligaria. Rogou-lhe que fizesse o mesmo. Por ambos. Quis ser determinada e acabar com a revisitação da angústia.

Mas mentiu. Contou-me. Durante muito tempo, confessou, foi afagando em segredo a saudade. Conhecedora dos rituais do ex, ligava-lhe clandestina depois da hora dele ir dormir. Fazia-o precisamente para encontrar o telemóvel desligado. E assim, pelas noites afora, buscava no Voice Mail a voz gravada do "defunto", como agora o chamava às amigas. "De momento não posso atender...", ouvia. Desligava sempre antes de soar o sinal para deixar mensagem. E então adormecia por entre os ecos da voz que tantas vezes lhe sussurrou boas noites, talvez na esperança daquela repetição deixar de fazer sentido.



<< Home