Beatriz

"Nada me doía tanto como pensar que paralelamente à minha vida Beatriz ia vivendo a sua, minuto a minuto e noite após noite."
Poderia apostar o pneu sobresselente da minha 4L. Estou sinceramente convencido que Borges escolheu chamar Beatriz à mulher que se lhe foi nesta história por reverência à dor de Dante Alighieri, e, claro está, à amada deste, Beatriz. Essa paixão avassaladora, durável como uma vida, fogo inconsumado para toda uma obra lírica. Há mesmo quem diga que Dante só escreveu a Divina Comédia como artifício para, nums poucos episódios, poder fabular o seu encontro com Beatriz, no lado de lá da morte. Mas o que é eu sei disto?

Dante and Beatrice, 1883, Henry Holiday
Apetece-me indagar outra coisa. Quanta da dor dos amores desfeitos - ou nados-mortos - não deverá ao peso dessa estranha factualidade, que também será consciência não convidada: a consciência de se partilhar o tempo presente com quem se viveu o amor e agora nada mais se partilha. Usando a coevidade, um termo com que um conhecido antropólogo designou e teorizou a partilha do tempo, diria que os ex-amantes estão fatalmente unidos pela coevidade -- e pela consciência dela. Vivendo em paralelo, minuto a minuto, segundo a segundo. Sabendo-o. Partindo da antropologia de Johanes Fabian, acredito que a negação de um presente partilhado é bem mais do que a ficção dominadora com que o "civilizado" prendeu o "primitivo" num passado irremediável, irredimível. Acredito nisto: negar a existência de um tempo que a todos une seria para Borges a ficção desesperada. A ficção derradeira para enganar a dor de seguir vivendo sem Beatriz.



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