Algumas reflexões sobre os vendedores ambulantes de rosas (aka Qué Flô)


As noites da cidade acolherem uma nova personagem. Refiro-me a uns senhores vindos do oriente munidos de prendas quais Reis Magos do capitalismo global. Com flores e brinquedos coloridos, deambulam pelos lugares de animação nocturna. O seu propósito central é vender o mais reconhecido ícone do encantamento amoroso no ocidente: a rosa. Desse modo facilitam aos amantes, efectivos ou em potenciais, algo da logística romântica. No entanto esta "facilitação" recobre-se de complexos matizes relacionais. Deixo aqui algumas linhas de ponderação.
1- Estes vendedores ambulantes, muitos deles aprumados com fato e gravata, são já uma figura incontornável da paisagem nocturna. Os mais sociáveis, inclusive, pela iterativa familiaridade dos seus percursos, facilmente se tornam figuras reconhecidas por muitos como “amizades da noite”.
2- O recurso aos seus serviços pode ser deliciosamente oportuno. De facto, dizer “espera!”, correr atrás de umas luzes que piscam debaixo de um casaco e voltar de lá com uma flor, “é para ti!”, converte-nos às maravilhas de um belo Kitsh. É posível o sortilégio vindo de um gesto estandardizado, exuberantemente mercantilizado, assim ele seja criativamente apropriado para o enleio de duas pessoas. I’ve been there. Confesso sem pudores.
3-No entanto, o encontro mais frequente com os vendedores ambulantes não resulta de um acto deliberado dos potenciais compradores. Resulta outrossim de uma abordagem feita pelo “ocasional detentor de meios de produção do amor” ao rapaz que fala ou dança com a “dama”. Daí vem, óbvia, a célebre linha: “qué flô?” Esta questão é estrategicamente colocada de modo a que o potencial comprador se confronte com dois pares de olhos: os do vendedor e os da mulher que o acompanha.
Quero alegar que esta proposta, assim feita, introduz fortes elementos de constrangimento relacional.
a) Primeiro porque o gesto romântico se funda na ideia de uma espontaneidade passional. Portanto, mesmo que a intenção da oferta existisse, ela perde muito do seu potencial de dádiva apaixonada por ter sido resultado de uma iniciativa do comerciante. Os amantes ficam com duas opções, nenhuma particularmente interessante: comprar a flor juntando intencionalidade ao constrangimento dos olhares; ou recusar, perdida que foi a possibilidade do gesto aparecer como produto de uma intencionalidade pura, como derivação de uma vontade apaixonada.
b) Segundo, porque, muitas vezes, a “amizade sem erotismo declarado” é a “tecnologia criativa” na origem do romance. Ora, se duas pessoas, com agendas secretas ou adiadas, apenas se dizem amigas, a flor à venda vai forçar uma clarificação relacional. "Amizade ou algo mais?" Neste caso a compra da flor tanto pode acelerar processos em curso, como pode introduzir uma precipitação temporal num enleio que seguia docemente vagaroso. A decisão pode ser árdua. A recusa do homem, vigiada pela mulher, ainda que espirituosa, corre o risco de cristalizar a amizade enquanto tal. Por outro lado, a recusa pode fazer emergir uma cumplicidade entre os “amigos”, assim estes aproveitam o balanço para se desenharem no quadro afectivo que o vendedor sugeriu na sua proposta.

4) Chamemos-lhe tradição romântica ou sexismo, o que é certo é que a compra da flor é sempre insinuada ao homem. Sei que a origem masculina da dádiva resulta de uma cultura que elege a mulher como objecto passivo de devoção. No entanto, essa origem nada nos impede de celebrar a tradição da iniciativa masculina fora dos valores do seu nascimento. Adoro dar flores. Acto que celebro intimamente. No entanto, este é um gesto que não trivializo. Entendo que só sentimentos raros, em momentos puros de intencionalidade, merecem tal celebração (ou resgate, quando se trata de fazer pazes). Agora, devo dizer que também me encanta a ideia de receber flores. Não digo com isto que as feministas deviam dar acções de formação aos amáveis paquistaneses. Nada disso. Seja a oferenda masculina ou feminina, o espanto do movimento passional vale quase tudo. Por isso, é bom que as tradições e os rituais estejam lá, para serem cumpridos, como surpresa masculina, ou para serem invertidos, como transgressão feminina.



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