Passagens act.

Um casal de namorados discute alta voz no meio da rua. Lágrimas escorrem entre palavras insultuosas. Constrangido, fingindo impossível alheamento, dobro a esquina e sigo para ir buscar o carro. A última frase que ouvi, já longidia, disse-a ela, sentenciando, creio bem, a impossibilidade de um regresso: "Devias-me ter dito isso quando ainda te amava!". O que me chegou aos ouvidos foi a elaboradíssima coreografia de um "tarde demais".

[Adenda, a partir de diálogos nos comentários]:
Às vezes vagueamos acidentalmente entre dramas plásticos de vidas. Normalmente as "frames" relacionais marcantes tendem a esconder-se do espaço público, mas é nele que a sua realidade se torna mais fatalmente real, exactamente pelo denso resíduo de factualidade partilhada que fica nas testemunhas de passagem. Independentemente do efectivo futuro daquele casal, para mim, testemunha, eles não têm mais volta. E isso não deixa de ser uma forma particular, voyeurística, distanciada, parcialmente informada de assistir a um fim. A questão é que essa evidência da passagem não deixa de contaminar a "realidade objectiva" dos agentes centrais, os namorados que viverão o "verdadeiro" desenlace desta história. Assim como o amor celebrado no espaço público é mais real -- uma evidência partilhada e partilhável, a evidência do amor que tantas vezes caminha de mãos dadas na rua --, também o ensaio do fim duma relação se torna mais verosímil e provável quando é partilhado com os olhares da passagem. Por isso me fingi alheado. As verdades partilhadas só a dois são mais precárias. Pelo desvio do olhar quis tomar parte na precariedade daquele fim. Quis "fazê-lo" mais reversível.

A Ariel oferece uma instigante réplica a este post. Antes uma boa discussão na praça pública, diz ela, do que o exílio interior a que tantas vezes se votam casais incomunicantes. A exigência de decoro e de omissão pública dos afectos não deixará de engendrar os seus próprios fins, vagarosamente silentes. A ler: aqui.



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