Os tons da intimidade

Muitos há que, recusando o nudismo e apreciando a pele brozeada, passam grande parte do seu tempo estival numa estranha coreografia para evitar as marcas do bikini/calções. Como se isso fosse uma coisa deplorável. As razões desse comportamento causam-me estranheza. Na vida de todos os dia vestimos uma multitude de cores e matizes que nos são oferecidos pela pujante indústria do vestuário. Estas cores estampadas numa parafernália de tecidos assumem um lugar naquilo que é a apresentação pública de um eu corpóreo e estético. No entanto, as possibilidades cromáticas também surgem ao nível das "partilhas nobres", as partilhas eleitas, singulares, ou seja, surgem também no seio de uma visibilidade reservada ao aconchego da intimidade e ao erotismo vivido com um "outro significativo". Sendo assim, poderemos definir duas expressões fundamentais do intimismo cromático. Primeiro, a insondável cor dos mamilos. Este segredo revela-se como um dos elementos cromáticos mais sensíveis na moda da intimidade. Diria mesmo mais: em qualquer apreciação da beleza dos seios a cor dos mamilos assume-se como um elemento decisivo que, no entanto, só pode ser pensado por contraponto à tonalidade da pele envolvente. O outro elemento tem a ver com o demarcação cromática que decorre do facto de algumas zonas – normalmente as desenhadas belo bikini - serem diferentemente banhadas pelo sol. Como as áreas que se velam ao sol são as mesmas que se escondem do olhar público, as diferentes colorações que daqui decorrem colocam-nos perante os tons da intimidade. Nesse sentido as zonas mais claras correspondem aos matizes inconfesssos para a moda enquanto fenómeno público. Correspodem à fashion da intimidade. Na cor dos mamilos, por um lado, e nos desenhos que o sol traz e leva, por outro, muitos desvelam o segredo daquilo que designo por intimidade cromática. A avaliar pelos vestígios dos calções na minha própia pele este é um fenómeno de pertinência marcadamente sazonal: Verão-Outono.



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