Os intérpretes da beleza

A discussão sobre a ninfofilia e as idades da beleza segue escorreita. Talvez lá mais para a frente volte a isto para um post de fundo. Agora que este arguto dedilhador fez a parada subir para o nível do post-ensaio, fiquei com vontade de esmiuçar alguns dos valores que entronizam o fascínio estético-erótico que alguns encontram na beleza adolescente. Quiçá.

Por ora, agarrando na coisa para questões mais gerais, devo dizer que sou viciado nestas desconstruções. Que valores forjam os ícones de beleza e quais as consequências sociais e políticas da sua consagração? No entanto, sempre lembro o grito de Susan Sontag quando ela denunciava a interpretação como a revolta dos intelectuais contra a arte. ─ Tese igualmente defendida por Harold Bloom na crítica literária. -- Será a interpretação sócio-cultural a revolta do intérprete contra a beleza?

Dentro de mim há momentos raros em que o esteta cala um obsessivo interpretador armado em antropólogo. Mas isso só acontece completamente quando o esteta se hiperboliza para deixar de o ser. Ou seja, concretizando, só acontece realmente quando a interpretação e a apreciação estética da beleza se diluem na ambição totalitária da invenção romântica. O totalitarismo próprio do amor, como bem caracterizava o CC num comentário recente, não nos faz esquecer que o amor romântico é uma invenção cultural. Apenas nos lembra que ao nível da longa história cultural tudo se estranhou, enquanto invenção, para depois se entranhar ameaçadoramente, qual "essência", emaranhando-se naquilo que somos, naquilo que buscamos. É certo que seguir o trilho cultural das invenções ─ descobrindo a origem dos sonhos, dos modelos e desejos que em nós se entranham ─ é a marca primeira de um desassossego. O desassossego antropológico de viver na tribo errada, a ansiedade Nietzschiana de não sermos autores de nós próprios. Por outro lado, a consciência que viveremos sempre no seio de alguma invenção prévia (ainda que apropriada criativamente) permite-nos escolher as invenções e experiências a que nos entregamos dispensando o tal intérprete-em-nós. Amíude um cínico altivo. Por isso quando uma pessoa se entrega a alguém por amor está sempre a fazer uma dupla escolha: a escolha de uma pessoa ─ óbvio ─ e a escolha do amor romântico como uma invenção sem a qual não se pode passar.



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