Livros e Ilhas

Respondo enfim ao desafio que me foi endossado pela querida Cris.
1-Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Não sei o que é o Fahrenheit 451 e apetece-me ser honesto assumindo essa ignorância, deixo o google para mais tarde. Não podendo sair de uma estação de combóio -- ai as estações -- quereria ser o Ana Karenina.
2- Já alguma vez ficaste perturbado por uma personagem de ficção?
a) Philip Carey n'A Servidão Humana de Somerset Maugham. O rapaz do pé boto. Todo o seu percurso desde a infância. A desistência da arte e de Paris. O inescapável sorrow que o acompanha. O pathos do seu amor devocional por Mildred. O existencialismo avant la lettre de uma subjectividade marcada pelas mulheres e pelo ideário romântico: "A major part of Philip's maturation is based in making decisions about women and about sensual love."
b) Irineu Funes. A personagem de Borges germinada por acidente no conto "Funes o Memorioso". Irineu Funes é o homem assolado por uma prodigiosa memória, o homem que não consegue esquecer. O homem para quem o passado não desiste nem é ficionável na sua densidade factual. O homem para quem o presente é, por isso, incomportável.
3- O último livro que compraste?
Foram dois. The Passion of Foucault, uma biografia póstuma do filósofo e Remaking a World: Violence, Social Suffering and Recovery, uma colectânea de textos antropológicos sobre a experiência daqueles que aprendem a deambular sobre as ruínas.
4- O último livro que leste?
Flush, uma biografia. As memórias de um cão visitadas por Virginia Woolf. Não gostei muito.
5- Que livros estás a ler?
a) El Fuego e la Palabra. Um livro que conta a história do Exército Zapatista de Libertação Nacional. Escreve-o Gloria Muñoz Ramírez, uma ex-jornalista que a certa altura abandonou tudo para se entregar à causa dos zapatistas e para se ficar ao lado de um homem. Um tal de Sub-Comandante Marcos, consta.
b) O Deus das Pequenas Coisas de Arundhati Roy. Estou a adorar.
6- Seis livros que levarias para uma ilha deserta?
As Mil e Uma Noites em Árabe e mais 5 livros didácticos para aprender a língua. Ia andar entretido e o mais certo é que nunca chegasse à última noite. O que faria sentido. Como dizia Borges, 1001 é o número que representa a infinidade das coisas nunca acabadas.
7 – Três pessoas a quem vais passar este testemunho e porquê?
Ao Francisco, à Claire e ao Nuno Guerreiro. Porque me apeteceu, por curiosidade e porque sei que lhes vai dar trabalho.



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