Desconstrução de um silêncio

Tenho andado calado em relação à morte do Papa. Sendo cristão na fé estou muito longe do catolicismo. Apesar de ter sido baptizado aos 8 anos para poder vestir a farda dos escuteiros e assim impressionar as miúdas (desisti breve), nem sequer sou ex-católico, ou sê-lo-ei talvez do ponto de vista da história longa. A minha fé viria a germinar no seio de uma comunidade protestante. Apesar dos pesares, ligados ao conservadorismo eclesiástico que ali também milita, um desconforto não resolvido ─ promotor de uma inevitável distanciamento ─, o legado deste contexto teve para mim uma enormíssima virtude sobre as lógicas que vigoram na formação de um católico. Essa virtude diz respeito, fundamentalmente, a uma maior imunidade para o fenómeno de "deitar fora o bebé (mensagem dos evangelhos) com a água do banho (instituição eclesiástica)".

A questão é que, ao contrário das práticas e saberes que sustentam a fé católica, vivi na apologia de uma relação pouco mediada com o divino. Ou seja, a igreja-instituição que conheci arroga-se a um peso muito menor, quer porque cada crente é convidado a um profundo conhecimento do texto bíblico e a uma relação pessoal com Deus, desconfiando sempre das figuras no púlpito, quer porque a própria lógica dessa comunidade de fé é pouco atreita às hierarquias e figuras humanas de autoridade (algo como a confissão seria ali impensável). Servirá de ilustração o facto de eu próprio ter sido convidado por várias vezes para "entregar mensagens" ─ polémicas q.b. ─ no momento que entre os católicos corresponde à homília.

Feito o preâmbulo biográfico e pessoal, passo a explicar as razões do meu silêncio em relação à morte do Papa:
1- Uma compreensão respeitosa pela fé dos católicos. Não banalizo o fenómeno da fé, percebo-o nas suas singularidades, e isso empresta-me a uma certa sensibilidade. Uma sensibilidade que, no entanto, não elide uma crítica - às vezes eivada de um irresistível proselitismo anticatólico.
2- Longe de defender que na hora da morte devem valer as elegias acríticas, tenho uma dificuldade pessoal em assumir balanços crus no exacto momento em que uma vida finda.
3- Como se deduz dos pontos anteriores, o elemento crucial é que eu pouco teria a dizer de bom sobre o pontificado de João paulo II e, muito menos, sobre o que constitui a instituição por ele representada. Uma instituição que invocando a herança de Pedro vem sendo erigida e mantida sobre o canto do galo. Sobre o silenciamento da relação com Jesus. É o que eu penso.



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