As idades da beleza

O Pedro desafia-me. Eu não resisto.
Tudo começou com a jovem Natalie Portman (é uma bela frase). A partir daí o Pedro disserta sobre a "ninfofilia": a "atracção sexual de um adulto por uma adolescente". Como logo ali se esclarece, a ninfofilia "é uma parafilia muitíssimo comum. E, convém dizer, relativamente inócua".
Este fascínio pelas adolescentes, bem comprovado nos milhares de sites dedicados ao tema -- onde superabundam as trintonas disfarçadas com totós e saias de colegial --, representa, segundo o Pedro, uma mera fantasia que, por permanecer no seu estado sublimado -- lá está, enquanto fantasia --, nada acarreta de perverso ou condenável. Portanto, um adulto não está impedido de reconhecer encanto erótico numa adolescente. Mais, a impossibilidade prévia, longe de se constituir como um "apesar", é estruturante da própria natureza da fantasia. Este encanto adolescente tem como características mais singulares o traço de uma beleza juvenil e o imaginário criado em torno uma certa ideia de pureza e inocência.

Neste quadro de devaneios possíveis, parece-me instigante assinalar que o encanto adolescente não subsiste apenas no seio de certos fascínios sublimados ou virtuais. Quero alegar que ele toma parte nas relações de atracção entre adultos. E par isso basta notar que o quanto a sedução exercida por consideradas musas vai recolher de alguns elementos de beleza que nos remetem para uma certa construção de juvenília, naïf e pureza; elementos marcadamente associados ao encanto adolescente. Depois surgem as complexidades. A mais comum delas resulta do modo como um corpo exuberantemente maduro e sexual se pode conjugar com uma expressividade que parece desconhecer a carga de atracção que transporta. A Laetitia Casta é paradigmática disso mesmo. O seu rosto e o seu corpo dão sinais contrários quanto à idade e à maturação sexual, gerando-se nessa tensão outras tensões criativas, ao nível do estético e do erótico.
Mas atenção. O contrário também pode acontecer acontecer: a conjugação de uma figura juvenil com marcas de maturidade. Só tenho um exemplo, mas é toda uma tese. Sem ser sexual ou erótica -- aqui a beleza é "não libidinalmente informada" -- a personagem pré-adolescente de Jennifer Connely em Once Upon a Time in América incorpora uma estética profundamente rara de maturidade infantil. Ela, estupidamente bonita nos seus 12 anos, precocemente sábia, detém um olhar belo e perfeitamente ciente do seu lugar no mundo. Há ali uma figura infantil cuja beleza compõe uma figura aconchegantemente maternal.



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