Ironias confessionais

Não deixa de me surpreender o número de pessoas próximas, ou nem por isso, que, em momenstos críticos, me confiam os seus problemas e angústias sentimentais. O facto de amigos e afins me elegerem como interlocutor para as suas questões afectivas deconcerta-me. Tipo: olhem para mim! É o mesmo que irem ter com um careca pedir dicas para a queda de cabelo. No entanto, hipótese preocupante, começo a pensar me fazem amiúde repositório de confessionalidade, não por estarem convencidos da felicidade emocional que possa advir dos meus argutos conselhos, mas, ao invés, porque a minha existência deve inspirar possibilidades solidárias em face de um cenário que, no íntimo, sabem iminente.

Ainda assim, nisto dos conselhos sou muito conjugal e profundamente temeroso: "vai lá pedir-lhe desculpa", "tens a certeza que já não gostas dela", "não achas que podes estar a pôr tudo em causa por um fogo de vista?", "vais ver ele não fez por mal", "as relações são assim mesmo". Com a vida dos outros o melhor mesmo é ser conservador; as rupturas, a terem que acontecer, é bom que sejam ostensivamente evidentes e inevitáveis para quem lá está, independentemente dos conselheiros.



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