"can´t take my eyes off you"


Diz Arundati Roy: É curioso como às vezes a memória da morte vive muito mais tempo do que a memória da vida por ela roubada.

É poderosíssimo o elo entre a memória da perda e prefiguração que dela fazemos.
E quando assim é, quando a perda sentida ou pressentida domina a experiência, a desgraça é mais escorreita. Não por trazer o fim, já de si inevitável, mas por molestar vida que com ele findará. Bem vistas as coisas, o fim, o fim do amor -- se neste tema quisermos cingir o bordado --, está na natureza dos começos. Em última instância, lá, nas lonjuras do tempo, valerá o sacramento da morte separadora. Porque não, pois, celebrar a franca lucidez de um sorriso cientemente alheado? Coleridge designou por fé poética a voluntária suspensão da descrença por um momento. Não peçamos tanto. Peçamos mais. Um novelo de "momentos" de crença viajada. Enlaces de almas para quem desespero do fim se une a um consentimento informado com "a ordem das coisas". Eis, pois, o sorriso de Portman que aqui resgato, o sorriso que sabe tudo isto, mas que, ainda assim, não cessa em criar vida, em insuflar de alento "os dias de felizes", em consentir na sofreguidão dos abraços. O fim pesa horrores, a ingenuidade paga-se caro. Mas, no fundo, isto é tudo uma luta entre duas memórias. A memória da vida e a memória da morte. Sábios são os amantes do porvir, os fazedores de um amor viajado. Só um amor vivido merece disputar com o fim e com a sua memória.



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