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Não há vitórias morais. Poucos campos da vida social têm tantas frases batidas como o futebol. Ainda assim, a sentença "não há vitórias morais" consegue ser das mais languidamente reverberadas. O único paralelo que me ocorre para este fenómeno é a centralidade detida no campo dos amores pela deixa "precisamos de dar um tempo". Desde os meus 10 anos, jovem etnógrafo no recreio, sempre pensei que isso de vitórias morais era coisa de benfiquistas. Razão porque, embora anuindo na impossibilidade de vencer moralmente, tendo a hesitar quando a coisa veste de vermelho. Se não houvesse vitórias morais onde estaria hoje essa instituição grandiosa - sem ironia - chamada Sport Lisboa e Benfica? Reconheçamos, desde que o Veloso falhou aquele Penalti, é a capacidade para a efabulação das "vitórias morais" que tem mantido viva a alma benfiquista face à aspereza da realidade. É essa capacidade que tem mantido o Benfica vivo enquanto "o glorioso". Este simples facto histórico talvez dê já uma substância de realidade às assim designadas vitórias morais.

Mas se o conceito de vitória moral apenas pode ser entendido no seio da mitologia benfiquista, já a ideia de derrota moral é bem mais sólida. Derrota moral é o que sentem os viciados em vitórias quando não ganham. O vício pode ser tão grande que chega a extremos como este: o empate com o benfica foi uma derrota para os portistas. Objectivamente. Bem sei que ganhámos na luz e que o balanço anual é positivo. Bem sei que o campeonato está ali à espera de quem consiga fazer dois bons jogos seguidos. Concedamos pois conforme a mitologia de cada um. O Benfica ganhou em termos morais pelo futebol que praticou e pela excelência do seu fair play. O Porto perdeu, porque não ganhou, perdeu, porque, como há muito sabemos, esta á única moralidade que nos serve, a única que nos faz cada vez melhores. É aqui, nas apropriações criativas de um resultado, que se começa a desempatar o porvir.



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