Um aparte

Escreve a Sofia:
Comovo-me com todas as vitórias e entristecem-me todas as quedas. As convicções que sinto não chegam para a política, para a guerra, para o futebol ou para o amor
Adulterando despudoradamente a bela reflexão da Sofia, apetece-me pensar no peso das quedas sobre as convicções. Ou, como dizia Camões, nos "...quantos enganos/Faz o tempo às esperanças". O peso das desilusões nos nossos intentos é arrebatador. Sabemo-lo. Não acredito em ninguém que viva por convicção sem se ter calibrado existencialmente àquilo que chamo desolação iniciática. As convicções são efabulações viajadas. Dependem de memórias de perda. Viver de convicções, políticas ou românticas, implica a custosa arte de deambular sobre as ruínas.
Explico:

Isto de uma vida de difícil re-encanto é perigosamente semelhante a uma vida sem encanto. É este parentesco que importa negar. Tenta-se. Emerge assim a celebração das possibilidades do quotidiano, descobrimos o tanto que a nossa acção pode significar, plantamos uma árvore, fazemos 999 filhos de tanto amor, cantamos e somos poesia nos bons dias de todos os dias, lutamos, se temos força, damo-nos se o egoísmo o consente. E são estas coisas e estas pessoas que prendem o desejo ao amor, que nos convertem em profetas de possibilidades e nos lembram a cada dia tudo o que perdemos por sermos quem somos. Mas também aqui há um perigo (esse campo minado do querer...), o perigo de fazermos dos limites assentidos, o conforto do nosso intento, de fazermos da impossibilidade de ser outro esses tantos outros em nós, enfim... o perigo da celebração dos limites. É por isso que entendo que não poderemos clamar os méritos de termos ajustado o querer ao poder, o desejável ao factível, sem trazer connosco o hábito de evocar a memória da desolação iniciática. Entendo por desolação iniciática esse momento mágico em que percebemos que a verdade não existe e que temos que lutar por ela no eterno fracasso, o momento em que percebemos que amar é consentir a espera pelo amor que vem, o momento algures em que o vislumbre das impossibilidades, ou nos paralisa, ou nos reconverte. É por referência à reiteração desse espaço-tempo pessoal (desolação iniciática), em que tudo acabou para começar outra vez, que as convicções se abatem ou se forjam.



<< Home