Reflectir

O meu momento de reflexão deu-se quando me convidaram a fazer parte das listas do Bloco por Coimbra. Não sendo militante, tenho com bloco e as suas propostas uma identificação silenciosa, razão porque, sem transigir a calculismos, tenho votado BE na calada da urna. No entanto, hesitei; mais facilmente me revejo nos movimentos sociais do que na política partidária. Preconceito, bem sei. Nesse quadro, a empatia pessoal que tenho com o cabeça de lista pelo bloco em Coimbra, José Manuel Pureza, foi decisiva. A generosidade cívica não é um valor em si, há por aí muito voluntarismo inconsequente e contraproducente – veja-se alguma malta que defende a despenalização do aborto a gritar “a barriga é minha!”. Mas quando essa generosidade se articula com um compromisso empenhado para dirimir – palavra deliciosa – os trilhos de exclusão e de subalternização que se vão cavando, sem maniqueísmos panfletários, com uma continua vigilância pela democraticidade das decisões, essa generosidade, dizia, assume-se como um genuíno chamariz de crença. Tenho tido a felicidade de conhecer algumas pessoas assim. Catalisadores de lutas e empenhos. A lista de que fiz parte, com sete independentes, entre os quais este Senhor, foi, devo admitir, uma surpresa insuportável. Tinha mais do que fazer. Mas não, dei por mim resoluto a fazer campanha e a entregar manifestos ao som do mais eficaz dos sundbytes: “feliz dia dos namorados”. Eu, que não gosto de sair do quarto, eu solitário que vilipendia essa criação capitalista e que ainda assim tem algo de uma inveja desses casais irritantemente lamechas. Há algo mais patético do que isto? Ah, ironia, esse campo minado do querer... Gosto de lidar com gentes acossadas por dúvidas, pessoas que nem por isso se paralisam, ou se fazem cínicos. Duvido das certezas. Duvido de um pragmatismo cego de quem acha que o melhor é sempre esperar o pior. Eu espero o melhor. Sócrates a governar fora do bloco central dos interesses instalados. Se a democracia é, como dizia Borges no seu registo mais reaccionário – ainda assim encantador-, esse supremo abuso de estatística, então abusemos das convicções.



<< Home