A reclusa

Lúcia foi uma reclusa precoce. Pouco ou nenhum foi o seu livre arbítrio durante uma vida sempre superiormente comandada a contento dos desígnios da Igreja. Expressão arrepiante da sua opressão -- a opressão opera muitas vezes pela hegemonia: a dominação consentida -- é o relato contido nas suas memórias, onde conta como foi impedida de se despedir da sua mãe, moribunda:
"[...] Sentindo-se no fim da sua carreira sobre a terra, [a Mãe] escreveu-me uma carta a pedir que, já que ela não podia ir ver-me, fosse eu a dar-lhe o último abraço, que não queria morrer sem voltar a ver-me. Mostrei esta carta às minhas superioras que, não obstante encontrar-me num Instituto de vida activa, disseram-me que isso não podia ser, que escrevesse a minha Mãe, animando-a a oferecer esse sacrifício a Deus.
Escrevi ao Sr. Bispo de Leiria, dizendo o que se passava. Sua Ex.cia respondeu-me no mesmo sentido. [...]
sentindo aproximar-se o seu fim, [a mãe] pediu a minha irmã Teresa que pusera uma conferência telefónica, fazendo uma chamada, para despedir-se de mim, sequer ao menos por telefone. Minha irmã levou-a para junto do telefone, para não demorar depois a ir buscá-la. Fez a chamada, disse o que pretendia: que viesse a Irmã Lúcia ao telefone para despedir-se da Mãe que se encontrava tão mal, quase a morrer e pedia para, sequer ao menos por telefone, já que não podia ser de outro modo, se despedir da filha, ouvindo o som da sua voz pela última vez. Qual não foi o desaire da minha pobre irmã, quando no telefone ouve um «não», dizendo-lhe que também isso lhe não podia ser concedido.Minha irmã não pôde ocultar à Mãe mais esta negativa, porque ela já se encontrava ali, esperando o momento de pegar no auscultador para dizer-me o seu último adeus sobre a terra."
A mãe de Lúcia morreria pouco tempo depois, no quarto da filha que nunca mais viu ou ouviu. Estranho amor o que por estas linhas perpassa.



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