Desculpa

Em tempos tirei um curso de orientação e mobilidade para pessoas cegas. Nele se ensinavam as várias técnicas necessárias para que uma pessoa invisual se possa mover autonomamente no espaço. Depois de alguns preliminares interessantíssimos, chegou a fase decisiva; ora pois, vamos lá pôr uma venda e palmear as ruas com uma bengala. É fantástico como o mundo muda, fugindo em desconcerto fenomenológico, para depois reaparecer vagarosamente: sob os nossos pés, nos sons trazidos pelo vento, no ecos mais mais ou menos fundos, no cheiro a panikes da pastelaria da esquina...

Como já decerto terão visto, quando uma pessoa cga anda na rua com uma bengala está sempre num incessante tic-tac, ora para evitar obstáculos, ora para tocar pontos de referência que vão lhe dizendo onde é que está. Mas os objectos mais ou menos imprevistos em que se bate estão sempre a descompassar o tic-tac. E -- foi-nos ensinado -- nessas situações, deve-se sempre pedir desculpa. A justificação é simples: mais vale pedir desculpa a um poste do que deixar de o fazer a uma pessoa que seja tocada com a bengala. Sujeitos a bocas paternalistas e incapacitantes, a ruas mais fadadas para gincanas, a opressões várias ao longo de uma vida, muitas pessoas cegas que conheço seguem essa regra sem transigir. Na humildade de uma pessoa cega que pede desculpa a um poste pela ínfima possibilidade de ali estar uma pessoa, não consigo deixar de ler uma instrutiva parábola para os (des)encontros que todos os dias nos aparecem.



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