A Urna de Maquiavel I

Dizem que a divisão mais fracturante no tecido eleitoral português é aquela que separa a esquerda da direita. Facto. Coisa relativa, afinal há uma larga margem de votantes que, consoante os momentos, tanto pende para o PSD como para o PS. Todavia, há uma outra cisão bem mais subtil que importará lembrar. Não é tanto uma divisão sociológica, embora o seja em certa medida. É uma divisão no mesmo, ou seja, na pessoa que ritualmente dilacera a sua identidade no momento do voto. Falo de um abismo que às vezes separa o que é a convicção política e o que é o voto, a tensão que leva Maquiavel à urna, o caminho que recebe o nome pomposo de voto útil. Voto. Não genuíno, mas útil. Diz-se.

Sabemo-lo, quem vota útil contra aquilo que crê está mais vocacionado para temer o pior do que para esperar o melhor. Há pessoas assim, pessoas que apesar desse sinuoso modus operandi lá dão descanso à consciência desenhando o pior dos cenários, tranquilas porque afinal deram um passinho para o evitar. Não mais, mas um passinho. Encontro, de facto, um abismo entre aqueles que tendo convicções políticas as seguem e que, por isso, procuram quem melhor as reflicta, e os outros, os que se entregam ao voto útil, acautelando o pior dos mundos. Existe convicção e voto útil à esquerda e à direita. Certo. Mas é naqueles que se afirmam de esquerda que mais me perturba determinado pragmatismo do voto, o voto num aparelho cheio de vícios, o voto num poder co-incinerado e reciclado, o voto ansiolítico para dar paz aos boys em pulgas pelos tachos, o voto em quem não é favor da guerra, mas também não se quer mostrar muito contra, o voto nos lobbies, o voto SA, o voto no José Lelo (não resisti). Na minha concepção, ser de esquerda pode significar uma coisa tão simples como acreditar que é possível construir lugares da vida humana em que todos podemos partilhar e democratizar as condições de possibilidade para os diferentes itinerários de realização pessoal. É acreditar que essa partilha não deve conhecer fronteiras ou nacionalidades. É acreditar em direitos humanos que incluam liberdades cívicas, culturais e garantias de bem-estar económico. Desistir disto não é deixar de ser generoso com a utopia. É deixar de ser generoso com um mínimo denominador comum para a construção de lugares onde justiça social seja um máximo referente. Quem, tendo firmes convicções de esquerda, se apresta a votar PS é coerente no seu modo de ser de esquerda. É coerente no seu modo de desistir. Vota em quem há muito desistiu também. O voto útil pode ser, afinal, o mais coerente dos votos. O pior dos cenários, esse, acho que já tivemos 4 meses de cheirinho.



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