Là dove’l sol tace

A ressurreição de Lázaro seria um milagre frouxo se há muito ele já tivesse morrido. Lentamente, dia após dia. Se assim fora, podemos adivinhar o desconcerto do homem levantado da morte. “Para isto?”, perguntaria, olhando em derredor as suas lavras de sempre, desoladas. Para quem se vai deixando esvair em vida o ressurgimento miraculoso pode prometer muito pouco.

A questão é que a vida, per se, não é necessariamente um milagre – sem mácula para o filme, lindo. - Como Lázaro, quem subitamente morre mais facilmente retorna à vida de um momento para o outro. Ora. É bem mais custoso um milagre quando a desgraça não é um evento, quando não há uma tarde para reclamar à história, quando a perda não é uma exterioridade sofrida num espaço-tempo, mas uma coisa solúvel que connosco se confunde. Que doar a quem se demora a descalçar o sapato nas vésperas de sono? E assim emaece de quereres. Ir morrendo em despedidas caladas é bem mais cruel do que a graça de localizar a morte num adeus. Por isso é bom que nos mandem para lá do sol-posto. Como diria Dante: “mi ripigneva là dove’l sol tace”. Sem mezinhas. É bom padecer esse adeus definitivo como a mármore. É bom nutrir a esperança impossível de ter alguém de volta.

Discernir a hora da desgraça é conceber a ideia de um milagre. Na tradução que tenho as palavras exactas de Jesus foram: “Lázaro, sai para fora.” Mas há sempre outras versões.



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