Ethos político

A propósito do debate Louçã-Portas, escreve CAA no Blasfémias:

"Desdenho os puritanismos cuja pretensão é eleger e avaliar os comportamentos privados dos outros. (...)dou tanta relevância ao facto de um cidadão ser homossexual como a uma estranha predilecção em comer caracóis (misteriosa inclinação que nunca consegui entender). Mas os comentários oriundos do espaço dito de direita parecem-me repugnantes na sua hipocrisia. Não sei se é apenas por causa da iminência das eleições que se dá esta febre de aggiornamento clubístico, mas vejo os resultados e não gosto nada desta mascarada. Porque o que está em causa é uma impostura política. Não se pode encher a boca com a "família tradicional e normal" e ser-se precisamente o contrário. Não é leal apregoar os valores da tradição católica mais ortodoxa e viver a vida numa mentira. Não é lícito ter um discurso público moralista que acusa e julga impiedosamente os outros, não seguir privadamente a sua própria doutrina e presumir-se acima de qualquer veredicto."

Concordo com tudo o que aqui diz o CAA. Na vida social e política não há de nada mais revoltante do que a hipocrisia de quem defende valores adversos aos que segue. Agora, e isto é o cerne, apenas não sei com que fundamentos é que a questão se levanta. Como aqui escrevi, os boatos e os outings forçados pela uma ausência de uma celebração pública da própria heterossexualidade não podem ser base para nada. Em Paulo Portas a hipocrisia que cabe denunciar é aquela que decorre do seu descarado populismo. Só. E não é coisa pouca.



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