Closer

"- Sou egoísta. Acho que serei mais feliz com ela."

Desconcerto. Angústia. Verdade. Traição. O romantismo, enquanto a busca da felicidade no amor, sustenta a sua mitologia num considerável egoísmo. É um egoísmo culturalmente sancionado a que não escapamos; a outra hipótese remete-nos para a ideia de "viver uma mentira". Por reconhecerem o que há de egoísta no ideário romântico é que muitos se censuram por não conseguirem amar quem acham que, no fundo, deviam. Normalmente, nestes casos, pela nossa cartilha romântica, não há nada a fazer.

Bacoco as it might be, não consigo deixar de pensar que, sendo inevitável um certo egoísmo romântico, ele deve ser eticamente regulado. Uma ética cujos termos se definem contextualmente. Para começar, acautelando-se lógicas relacionais que, por serem assimétricas no investimento emocional, são geneticamente vulneráveis à dissolução e ao sofrimento de uma das partes. Erro clássico.

Depois. Por um lado, pela assunção de uma prática que seja capaz de corresponder aos termos da monogamia estabelecida - quase sempre exclusivista. A pesonagem de Natalie Portman frisa esse imperativo quando diz que, mesmo no limite, ou seja, quando sentimos que nos estamos a apaixonar por outra pessoa, há um momento em que podemos resistir ou ceder. Mas nem sempre as coisas são mesmo assim; e ao desgaste de uma relação junta-se, muitas vezes, a inédita ou renovada promessa de um amor com outra pessoa. Por isso, e por outro lado, a regulação ética do egoísmo romântico deverá fundar-se numa sinceridade em que se partilhe, desde logo, a impossibilidade do cumprimento da relação nos termos monogâmicos acordados, ou a mero fracasso dos sentimentos para se ajustarem às grandezas em jogo. Nos casos em que um sentimento mais forte se atravessa não tem de estar em causa uma traição iminente, ou sequer a perspectiva de um outro futuro, basta muitas vezes modo como esse sentimento pode ser entendido como sintoma da erosão das cordas emocionais que seguravam a pessoa à relação.

Isto escrito é bem mais fácil, bem sei, e a virtude do filme é exactamente o modo como reflecte as complexidades tantas vezes vividas. É um filme desconcertante em que os estragos trazidos pela obsessão da verdade estão, no meu entender, a jusante do novelo solto pela falta dela. Ah, as 4 representações são excelentes, com um destaque, talvez, para Clive Owen.



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