Boatos, vida pública e homossexualiade

Não duvidemos. Em Portugal há muitas figuras públicas que escondem a sua homosexualidade. Infelizmente ainda vivemos num contexto em que a assunção da homossexualidade implica enfrentar fortíssimos preconceitos e uma pesadíssima desqualificação social. Factor inflaccionado quando a visibilidade pública também é acrescida - excepto, talvez, no mundo artístico em que a "excentricidade" é mais facilmente sancionada. Ademais, nalgumas áreas de acividade, como na política, existe a ideia subliminar que aquele/a cuja homossexualidade é revelada deixa de poder exercer cargos de responsabilidade pública. Uma estupidez sem nome. Ou melhor, chamada homofobia. Se não estou em erro o presidente da câmara municipal de Paris, homossexual assumido, participa em paradas gay, coisa impensável por esta orgulhosa terra. Sob este prisma, a única coisa que haveria a denunciar seria a atitude hipócrita de quem defende ideias acerca da sexualidade incongruentes com a seu discurso público ou político. Quanto ao resto, quem se assume ou não é uma decisão pessoal que cabe respeitar.

Mas se esta dificuldade em sair do armário é produto de um quadro social de valores conservadores, creio que tem emergido em contraposição uma certa violência discursiva, também ela profundamente conservadora e insensível: os boatos. Na vida social portuguesa alguém que tenha mais de 30 anos, não seja casado, nem tenha relações hetero conhecidas, está inevitavelmente sujeito a boatos sobre a sua sexualidade. Isto parece-me igualmente triste, porque, no fundo, o que os boatos denunciam, muitas das vezes, é a não adesão à lógica tradicional de família e a ausência de uma celebração pública das práticas heterossexuais. Por isso me repugnam os boatos acerca da homossexualidade de figuras públicas. Aceito que muitos desses boatos poderão denunciar a hipocrisia de uns quantos actores sociais. Mas a esmagadora maioria mais não faz do que exigir práticas visíveis de heteronormatividade, nuns casos, e parodiar a falta de coragem de quem não se assume, noutros. Nestas situações, além da crueldade que pode estar presente, dá-se corpo a uma outra ideia que eu recuso, acompanhando as lições de Foucault: a ideia que a sexualidade tem que ser parte determinante da identidade pessoal ou pública de uma pessoa.
Na lógica de mútuo consentimento informado entre maiores de idade cada um faz o que lhe aprouver sem ter que prestar contas a ninguém, logo, nessa perspectiva, poderá não haver nada a "assumir". O que temos, isso sim, é que erradicar a homofobia da nossa sociedade para que muitos e muitas não tenham que viver expostos à discriminação, por um lado, nem tenham que estar fadados a guardar segredos que podem ser muito dolorosos. Afinal, a mesma homofobia que constrange a performance social de todos - independentemente da sexualidade. É óbvio que para a homofobia ser extirpada os actos de coragem individual de figuras públicas são fundamentais. Mas nada que se faça a saca-rolhas ou pela difusão de boatos quem falem daquilo que não nos diz respeito.



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