Eu hoje acordei assim ©


Pensaroso e sonhador. A declamar Pessoa sem mexer os lábios:

Ó naus felizes, que do mar vago
Volveis enfim ao silêncio do porto
Depois de tanto nocturno mal -
Meu coração é um morto lago,
E à margem triste do lago morto
Sonha um castelo medieval

Enfim (act.)

Dados que importam:
Caritas ajuda vítimas do Sudeste asiático:
Caixa Geral de Depósitos – NIB 003506970063091793082
Assistência Médica Internacional:
Banco Espírito Santo – nº 015/40000/0006
Multibanco - entidade 20909 e referência 909 909 909 em Pagamento de Serviços
Tranferência bancária para o BES - NIB 000700150040000000672
"SOS Crianças da Ásia" da UNICEF:
Caixa Geral de Depósitos – NIB 003501270002824123054
Apelo emergência da Cruz Vermelha:
Banco Português de Investimento – NIB 001000001372227000970

P.S Inflexível que não sou, e respondendo a alguns leitores, retiro as declarações e e a imagem da senhora que comentou o maremoto da perspectiva da turista. Acho que nem só as figuras públicas devem assumir a responsabilidade pela opinião pública que expressam. No entanto, devo perceber que há nuances e circunstâncias posteriores que magnificam o mau momento da senhora, não sem alguma injustiça.

RAP

Discordo daqueles que dizem que a visão foi ousada ao convidar o Ricardo Araújo Pereira para assinar uma crónica. A ideia de dar espaço à prosa de um humorista nesse tipo edição não é pioneira entre nós. Apesar da excelência do RAP, e já que aqui estamos, vou ser sincero: Luís Delgado continua a ser aquele que me proporciona as mais fautas gargalhadas.

Des-tempos

─ E porque não me disseste antes, enquanto ainda era tempo?
─ Carlos, começo a acreditar que há coisas que só podem ser ditas com o atraso de um “tarde demais”. Talvez more aqui a natureza do mal. Do nosso.
p.s. Recebo de K. um e-mail sobre desencontros e beijos de olhos abertos. Registo nessa pujante prosa a utilização, intensíssima, da expressão "a minha ex-vida" para referir alguém que se foi. Uma expressão perigosa no modo como magnifica a perda. Acho. Mas, noutra perspectiva, poderá estar ali uma sabedoria mais funda: inevitavelmente são várias as vidas que vivemos. Ainda me lembro quando alguém em meu lugar sonhava com a Bruna Lombardi ao som de Kenny Rogers e Sheena Easton. We've got tonight. Sem comentários.

Noiva de Deus



Como no filme, era noiva de Deus,
confessou-me, ríspida, seu
perseguidor. Os Seios
ainda facilmente me oprimem
o fôlego, anos passados.
Eu tentava a pouca arte, a repetição,
mas ela e Deus promessi
sposi (foi isto em Itália).
Álibi, imaginei, sempre generoso.
Mas não: em Setembro abandonava
a roupa cívil, escondia os cabelos
pretos. Ia entregue. Não sei
como se passou: uma década quase,
nem o seu nome. Apenas
um poema como lápide, como
ironia, o volume ainda laico
do seu peito e a última vez
que concorri com Deus.

Pedro Mexia, Vida Oculta, Relógio D'Água

Segundo alguns autores, este poema de indelével recorte trágico, insere-se numa histórica demanda pela laicização do seio. É também uma prece que aqui lemos, uma prece pelos volumes laicos que Deus levou e o tempo fará descair. Longe dos seus devotos.

Da inutilidade das palavras


Pelos telejornais percebemos o quanto difere o valor da vida de um europeu/ocidental da vida de um nativo das margens do Índico. A certa altura parecia que só os turistas eram vítimas significativas. O resto, claro, apenas uma ligeira variação do costume da pobreza: a desgraça de sempre.

Um pesadelo lá do fundo

Deixo-vos aqui o quadro de Fuseli. Esta tela é referida no tal texto de Borges de que nos fala a Charlotte. Assim ilustro esta evocação made in bomba da palavra pesadelo.

The Nightmare (A égua da noite)

Questões sérias

Preocupado. Na capa de uma revista social leio que o casamento de Brad Pitt com Jennifer Aniston está em risco porque a senhora não quer ter filhos. Isto é um sarilho, tanto mais que Brad Pitt quer à força ter um rebento.

Ora, a última vez que o problema se colocou em termos tão mediáticos, Abraão resolveu-o através de uma inseminação não artificial na escrava Agar. Uma bela egípcia, consta. Foi uma confusão. Isaac, o prometido legítimo, lá acabou por nascer da idosa Sara e, por ciumeira, Agar foi corrida daquelas paragens com o seu menino Ismael, o primogénito do patriarca. Se não fosse a prole de Ismael encontrar-se com um tal de Maomé, não havia mundo islâmico e Samuel Huntington não tinha tido ensejo de escrever o Choque de Civilizações. É inegável o faro editorial de Abraão, na origem de três livros de assinalével nomeada: a Bíblia, o Corão e o tal do Huntington. Bem, dizia, Jennifer... Merda, já me perdi.

Jennifer Aniston estará a ser acusada de pôr em causa o matrimónio - certamente por por almas parideiras que não se importavam de prociar com Brad Pitt. Terá as suas razões, seja porque quer preservar as formas do corpinho, seja porque não quer assumir tamanha responsabilidade, ou porque simplesmente o apelo maternal não chegou, o que é certo é que o direito a não ter filhos está algures consagrado na Declaração Universal dos direitos do Homem - estúpido nome para falar de mulheres. Também se percebe a posição do loirinho, como não querer legar tão afamados genes às gerações futuras? Ora, bem podem vir os terapeutas familiares dizer que nestas coisas é melhor falar antes, mas, frequentemente, os enlaces acontecem sem que ninguém pense em filhos: a coisa vem mais tarde ... ou não. Mas, cogitações apartadas, apetece-me pôr uma questão incómoda: e se em vez de não querer ter filhos Aniston não os pudesse ter? E se por isso Brad Pitt quisesse dar de frosques? Que dizer do seu amor?

Estranhas simpatias

É uma cena no mínimo insólita: acender incenso no meu quarto com o único isqueiro que tenho: um isqueiro oficial do Futebol Clube do Porto.

Once upon a time

Em Once upon a time in America (Era uma vez na America) Jennifer Connely, com uns curtos 14 anos, aparece a fazer o papel da jovem Deborah. (Ah, É também a cara da menina-Connelly que aparece no beijo! -- vide post em baixo).

Segundo a temporalidade fílmica, Connelly amadurece sobre a forma de Elizabeth McGovern. Tantos anos depois é engraçado comparar o que é que o tempo lavrador fez a Deborah e a Connelly.

Assim se jogam as versões do futuro.

Not quite a post

Salvador Dali

Marcel Mauss não podia adivinhar estes insólitos contornos do Potlatch, esse jogo de dádivas tão fundamental na ordem social. Nem eu, alojado que estou num aturado cinismo para com as obrigações natalícias em tempo de capitalismo pós-industrial. Esta daliliana flor é a expressão pintada de como as singularidades encontram sempre o seu caminho. É essa a preciosidade que recebo. E é nela que creio. Obrigado.

Consoantes

O stress no Natal também pode ser isto: o stress de ler a tempo os livros que comprámos para oferecer. Seguirei escrevendo mas, em todo o caso, daqui vai já um Feliz Natal para vocês que por aqui passam. Embora simbolista sou pouco ritualista. Ou seja, sou mais dado à celebração não cíclica, nos momentos não escolhidos pelo calendário. Mas, ainda assim, lá ensejo o espanto primordial dequeloutro que um dia se cruzou com Jesus:
E, levantando ele os olhos, disse: Vejo os homens; pois os vejo como árvores que andam. Marcos 8: 24

Até lá

Lá mais para a frente, quando o país estiver na polvorosa pré-leitoral, eu e o senhor do mal (aka Luís), vamos gizar em coimbra um encontro para falar de blogs e de quem os escreve. Nessa altura vos direi dos contornos da coisa e então clamarei pela presença de bloggers e interessados no fenómeno. Para já é tudo. Deixo-vos então com os preliminares natalícios. Eu regresso aos meus devaneios sentimentais e afins. Sim, porque para mim as coisas não se misturam; a menos, está claro, naquela música: "Last Christmas I gave you my heart, lá, lá, ...". Pois, de facto, é melhor não.

Medos clandestinos

Há quem beije sem fechar os olhos. Será que não têm medo?!

Honrarias

Por terras blogosféricas começam os balanços do ano. Leio já algumas referências deveras generosas para este cantinho. Mais lá para a frente aqui as sintetizarei. Comigo estas compensas simbólicas não traficam com a indiferença, ainda que a tentasse travestida de uma humildade politicamente correcta. Devo salientar e agradecer esses marcos porque -- à semelhança dos feedbacks que vão chegando via comentários, links, mails -- ocupam um lugar não despiciendo na economia de uma dedicação.

O revolucionário americano



A revista Time elegeu Bush como a personalidade do ano. Como bem lembram aqui, esta eleição sempre teve uma queda por visionários. Desde Gandhi a Hitler já tudo lá coube. Pelos vistos apenas importa que se deixe uma marca. Qualquer que seja. Bin Laden, imagino, alinha-se como forte candidato ao galardão de 2005.

Os sonhos de um "pequeno míope "

O post anterior foi o primeiro que escrevi sem óculos. Conto-vos: acordei de madrugada -- uma insónia que suspeito devida a umas caipirinhas valentes na noite anterior -- libertei-me das almofadas e dirigi-me ao computador. Na verdade não preciso assim tanto dos óculos e, embora a minha fronha fique mais amável sem elesm -- digo eu -- poucas são as situações em que prescindo desse corrector do meu erro refractário misto (coisa leve). Sempre que me soergo do leito dou umas voltas à casa, acho as pantufas, faço uma oração, passo as carnes por água e ponho os óculos como quem diz: "acordei". Por isso o último post, o da perfumaria, foi o primeiro que escrevi a dormir. Desculpem, mas se isto não é intimismo não sei o que é.

Perfumaria

Na única carta que lhe escreveu depois daquilo falou-lhe da perfumaria onde agora a visitava:
Entro, pego num daqueles papelinhos, vou ao teu perfume, lembro, cheiro, e saio. Mais ou menos constrangido pela despesa que nunca faço, lá me desfaço em desculpas: "obrigado era só para chorar!"


Love migrations

Chamo às migrações de amor aquilo que acontece quando alguém abandona o seu país atrás de uma relação amorosa. Há vários quadros, no entanto nas gerações mais jovens este fenómeno tem sido incrementado pelo programa de intecâmbio de estudantes: o "Erasmus-Sócrates". Ou se vai atrás do amante que partiu ou ele volta para ficar. Não será difícil ser um deslocado na única terra que conhece o nosso nome.

Exílio

Durante quatro meses os cidadãos portugueses tiveram uma oportunidade histórica para abandonar o país sob a figura do asilo político.

A culpa é dela

Naquela noite, já ébria e chorosa, ela segredou-me: “Sabes, até não me importo de pensar que ele se foi. Mas assusta-me pensar que o deixei ir.”
Matutei no caminho para casa. Na verdade, deve ser bem mais fácil ser abandonado. Há mais poesia à mão. O fado triste serve-se em vários estilos musicais. Muito mais doloroso será para quem se sabe algoz do seu próprio destino. Muito mais doloroso será nas noites frias sentir a falta e a saber-se a causa dela. Aí, culpar uma dor do passado talvez seja a única saída, como quem dissesse: “não fui eu que o deixei partir, mas a dor que alguém me deixou”. Talvez este verso de Florbela Espanca tivesse servido à minha amiga, desconheço:
Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.

O pequeno búlgaro

Tão desconcertante como tocante. Não consigo deixar de trazer aqui esta crónica ida do Diogo Mainardi:

"Diagnosticaram uma paralisia cerebral em meu filho de 7 meses. Vista de fora, uma notícia do gênero pode parecer desesperadora. De dentro, é muito diferente. Foi como se me tivessem dito que meu filho era búlgaro. (...) Considero-me um escritor cômico. Nada mais cômico, para mim, do que uma esperança frustrada. Esperança frustrada no progresso social, na força do amor, nas descobertas da ciência. Sempre trabalhei com essa ótica antiiluminista. Agora cultivo a patética esperança iluminista de que nos próximos anos a ciência invente algum remédio capaz de facilitar a vida de meu filho. E, se não inventar, paciência: passei a acreditar na força do amor. Amor por um pequeno búlgaro." [crónica integral]

A arte de bem mourinhar

Escreve o maradona

"O Mourinho não tem uma ponta de imodestia, e é muito menos arrogante do que seria justo ser. Se fosse imodesto não trabalhava tão obsessivamente em tudo o que remotamente possa implicar com o desempenho dos seus jogadores em campo: achar-se-ia tão bom que se refastelaria na poltrona e deixaria que toda a sua qualidade se transfusesse para os jogadores através de artes mágicas que, imodestamente, pensaria possuir. E também não é demasiadamente arrogante, pelo menos tanto quanto a evidente preguiça e incompetência alheia (muito especialemnte dos treinadores portugueses da velha guarda) poderia justificar.

Para ir além dos ignorantes sensos comuns acerca da arrogância de Mourinho, não é preciso ser portista. Basta consumir o melhor futebol que por aí se faz. Prova-o o maradona, um gajo decididamente louco que urge que desafiar para um campeonato de toques.

1 ano


Faz anos a escrita que nos vem de Moçambique, faz anos o Maschamba, faz anos o JPT. Parabéns.

O Evangelho das bombas e dos direitos

O JCD, nos Jaquinzinhos - um blog-opositor de estimação -, defende que Roberta Gompertz devia ir pregar os direitos das mulheres para o Islão, para ver como elas lhe doíam. Caro JCD, para começar porque não esclarece a sua posição pessoal e liberal em relação às matérias de facto - a despenalização do aborto -, de que até desconfio, em vez de passar o tempo com a conversa - algo cínica, parece-me - de desqualificar tudo o que ousa mexer e atrai câmaras?

Mais, por esta altura já devia ser mais claro no seu espírito esta coisa simples: a tentiva de exportação dos valores progressistas ocidentais como a democracia e os direitos humanos deve ter o cuidado de se demarcar das lógicas imperiais e arrogantemente evangelistas com que a modernidade ocidental se relacionou com o mundo. Se assim não for, em vez de abertura e diálogo cultural teremos culturas cada vez mais fechadas nas suas certezas e, consequentemente, nas suas formas particulares de opressão. Face à história, para uma mulher islâmica tanto pode ser opressor o marido como uma mulher ocidental que venha apresentar sua superioridade emancipada para dizer como ela se deve libertar. Assim, se queremos confrontar lógicas como a excisão do clitóris e a negação de direitos às mulheres devemos, acima de tudo, capacitar aqueles que naquele quadro cultural lutam contra esses estados de coisas, muitas vezes não abdicando dos valores religiosos e locais, mas usando-os ou tentando resignificá-los. Isto dos ventos da mudança fora dos nossos quadros culturais tem algo mais que se lhe diga. Já sei, não pensam assim os defensores da democracia à bomba.

Como eles no sítio

Há expressões profundamente patriarcais que associam a capacidade e a força ao valor da masculinidade. Desde a utilização mais erudita do conceito "emasculação" enquanto sinónimo de fragilização, até à exaltação de um gajo com eles no sítio vai todo um espectro de subtis afirmações do sexo forte.

O uso feminista que se procura fazer destas expressões, assim como de algumas práticas tipicamente masculinas, de que a ostentação pública da capacidade de desejar é o melhor exemplo - falo da ancestralidade do "Eh, gaja boa, comia-te toda!" em relação ao "Vejam bem o rabo que aquele gajo tem!" -, esse uso feminista, dizia, representa uma mera inversão, algo que inverte sem subverter. Reproduzindo-se, assim, as práticas e os discursos patriarcais, mas, desta feita, numa lógica democratizada e não sexista. No entanto, há uma inversão que me parece deliciosa. É quando alguém se lembra de exaltar uma mulher e usa a expressão "ela é uma gaja com eles no sítio". A expressão original, raramente usada porque demasiado labrega, fala de alguém com os tomates no sítio. Poderiámos pensar o quão ridículo é exaltar a coragem de uma mulher por apelo aos testículos como símbolo de virilidade - a menos que se trate de uma paródia dis discursos sexistas-, no entanto, talvez por boa vontade, sempre que ouço essa expressão acredito que estamos perante uma progressista exaltação da anatomia feminina: com eles no sítio, claro, os ovários.

Já podes gritar: os melhores do mundo

Agora já podemos dizê-lo com propriedade. Não, não é uma hipérbole provocavita para sublinhar a grandeza de um clube, de uma equipa. É que somos mesmo os melhores do mundo.
World Champions
Notas curtas:
Durante 70 minutos vi um Maniche que muitos temiam já não existir. Este rapaz dos primeiros 70 minutos é um dos melhores jogadores do Mundo. Mereceu o carro sim senhor.
Diego muito apagado, a construção de jogo esteve quase exclusivamente nos pés de Maniche
Baía, teve uma taquicárdia. Impressionante o esforço que fez para ficar em campo, como que pedindo desculpa ao médico lá ia dizendo "não sei o que se passa, pá!"
Fernandez portou-se com mestria. O precalço da substituição de Baía não teve piores consequências porque, por regra, Fernandez nunca faz as três substituições numa final. Senão teria sido Costinha o guarda-redes do Porto no resto do prolongamento.
A irreverência juvenil do Carlos Alberto às vezes irrita - quando se põe a fintar só pelo gozo - como delicia. Juntamente com Maniche é o mais bem humurado e o animador de serviço da equipa Porto, ele é o homem do pandeiro. Quando recebeu a medalha foi lindo vê-lo deixar-se de formalidades para beijar os insignes representatnes da Fifa.
Obviamente tremi quando vi Jorge Costa partir para a bola. Qual o quê? Penalti no cantinho.
É bom que os escultores portugueses comecem a fazer esboços. Jorge Costa e Baía são uma instituição.

Marta, Marta

Este episódio bíblico que aqui vos trago representa os dois lados da sedimentação de um ritual. Maria e Marta são as as irmãs Lázaro, Maria é a moça que, para escândalo dos discípulos, lavou os pés de Jesus com perfume [João 12:3]. Nesta passagem Marta é a afanosa fazedora de rabanadas, Maria, por preguiça ou devoção, é mais dada às conversas com os Messias:

E aconteceu que, indo eles de caminho, entrou Jesus numa aldeia; e certa mulher, por nome Marta, o recebeu em sua casa;
E tinha esta uma irmã chamada Maria, a qual, assentando-se também aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra.
Marta, porém andava distraída em muitos serviços; e, aproximando-se, disse: Senhor, não se te dá de que minha irmã me deixe servir só? Dize-lhe que me ajude.
E respondendo Jesus, disse-lhe: Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária;
E Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada.

Lucas 10:38

Parabéns

Os meus parabéns para o excelente Renas e Veados, e em particular para o Boss, a sua alma matter. Continuem rapazes.

Mac [act.]

Parece que quando se tenta aceder a este blog com computadores Mac a coisa bloqueia. Na informática como no hinduísmo o mal é o que está parado, assim sendo, pedia a algum/alguma especialista na matéria - na informática, entenda-se - que, por bondadeza, me ensinasse a desbloquear esta situação. Qualquer insight sobre o assunto poderia ser enviado para o mail. Gracias.


Estúpidos

Esses rapazes que brindaram os jogadores do Chelsea com cânticos racistas, além de inenarravelmente execráveis, são tão estúpidos que nem percebem que estão a insultar os negros que vestem de azul e branco. Lixo. Se não se quer deixar sujar o nome do FCP com essa escória, a direcção deve tomar medidas urgentes.
Ficam as sábias palavras de indignação do herói da noite, o sul-africano Benny McCarthy:

"Deixa-me irritado que os meus próprios adeptos possam fazer estas coisas. Eu também as sinto e não sou diferente do Drogba ou de qualquer outro jogador negro. Se dirigem esses insultos a outros jogadores negros, também os dirigem a mim", afirmou o goleador sul-africano, que acrescentou que "há muita gente estúpida no Porto", mas se este tipo de problemas "forem empolados, as coisas ficam piores". "Tento apenas esquecer e jogar como se estas situações não existissem. Não vou preocupar-me por causa dessas pessoas estúpidas",

The Dreamers


Afinal podem ser precisos três para um tango iniciático em Paris. Sugerirá Bertolucci. A genealogia com a obra de 72 fica representada na cena do elevador, filmada do mesmíssimo modo. No "Último Tango" Paul persegue Jeanne, três décadas depois são três jovens que brincam no ascensor. O Maio de 68 estava lá fora, nas ruas. Mas dentro da casa os desacatos à ordem davam-se doces, em beijos, carícias e banhos de imersão a três. Os motes, quais grafittis de cabeceira, são intimistas, pessoais, biográficos. E cinéfilos, pois. Entre um casal de gémeos e um convidado decorre uma insólita intimidade num enleio que transgride a norma. Transgride não como manifesto político, nem como livre curso de um desejo arrebatador que se cumpre libertário, insuflando o sexo de um fácil estatuto de verdade última, mas transgride, isso sim, como um romantismo sem nome, onde se mescla incestuoso o legado das cumplicidades infantis. Temos, pois, a inocência de uma transgressão que fracassa em reconhecer-se como tal. A revolução avant la lettre de quem não chega a incorporar a ordem.

Estranha noite, bonita noite


A noite de ontem foi cheia de tensos simbolismos. Ressalte-se o recontro dos protagonistas de uma recente memória épica no aplauso a Mourinho, um momento que juntou os heróis do passado, tornando belo um quadro assaz estranho. Estranho por dois motivos: primeiro, pelo facto da sobrevivência desportiva do Porto na Champions depender da vitória contra o homem que naquele mesmo estádio provou à saciedade ser o melhor treinador do mundo - arrisco: depois do Ronaldo de Barcelona, o mais cintilante génio em actividade no mundo do futebol -; e, segundo, pelo claro esfriar de relações entre Pinto da Costa e Mourinho, processo que teve como apogeu a cena lamentável no Estádio da Luz, em que a companheira de Pinto da Costa se sentou na luz ao lado do jovem que ameaçou Mourinho de morte e lhe cuspiu em Chelsea - as consequências só não foram piores porque Mourinho, numa sábia separação das águas, declarou à Uefa que o Porto-clube não merecia ser punido por um acto isolado de cariz pessoal (passional, acrescento). No fim, e se não chegassem tantos simbolismos e contradições de difícil resolução, o fantástico golo de McCarthy surge 30 segundos depois da saída de Pinto da Costa do Tribunal, como se a divindade futebol quisesse desde já sancionar uma inocência que espero vir a ser provada em sede própria.

Quanto ao futebol que se jogou e à vitória que me fez recuperar a a capacidade de dar pulos em espaços públicos, servem-me bem as palavras de José Manuel Ribeiro: "pagam-se alvíssaras a quem tiver certezas sobre os limites deste FC Porto. Os de baixo e os de cima" Uma coisa é certa, neste momento o futebol do Porto está a ficar tão dependente de McCarthy como noutras épocas dependeu de Timofte, Domingos, Jardel, Deco ou Derlei. O que em si, não é mau, mas convem ter dependências de contingência.

A imodéstia da infelicidade

Quando tudo acabou ela disse-lhe que ia ficar com João, o colega de liceu que há anos a esperava em devoção. “E Tu?” “Ficarei só”, disse ele vago. “Lara. Amo-te. Temo um deserto, sabes, mas levo comigo a esperança de voltar a sentir isto num qualquer fim”. Lara, sem fé alguma, invejou-o. A inveja dos trágicos é uma coisa absurda.

"O orgasmo da loucura"

"Percebemos bem que as massas de "cientistas humanos" psicólogos, psiquiatras, de todas as espécies de professores e reformadores e gestores estão a ser reproduzidas nos países capitalistas-fascistas-imperialistas a fim de reforçar as definições de normalidade. A normalização impõe necessidades em vez de as reconhecer"

"A romantização corrente da loucura não tem futuro. A politização da loucura é indispensável se tivermos de criar um futuro.
Todas as contradições destas páginas são da minha responsabilidade, mas algumas delas pertencem a toda a humanidade."
David Cooper, A linguagem da Loucura

Este homem é de um radicalismo atroz, a verdade é que os caminhos da pirâmide, marcados pelo individualismo burguês que em nós milita, são bem mais estreitos o que aquilo que supomos, como estreita é a própria noção de degraus de necessidade.

A vontade de dizer

Pelos mais risíveis e aleatórios dos motivos Maria Filomena Mónica volta a trazer às páginas do público os ódios que a assolam: "Não se pense que o facto de, em anteriores ocasiões, ter criticado Boaventura Sousa Santos releva de uma qualquer obsessão, causada sabe-se lá por que rasteiros motivos." Ora essa, realmente, que ideia douda! O texto só lido.

Como bem sublinha o Luís Rainha, talvez alguém devesse avisar MFM que o rancor e a inveja que lhe vão na alma se notam um assim... um bocadinho. Enternece vê-la a falar da poesia, dos sistemas jurídicos, como se uma qualquer crítica literária ou sociológica a movesse de facto. E acho bem que o Público lhe guarde um espacinho para estes ódios; sejamos profiláticos, antes a caneta que o picador de gelo.

Ansiedade no Pingo Doce

Sempre que escolho uma fila no supermercado fico em angústia, pensado que talvez na caixa ao lado ou numa outra qualquer me despachasse mais depressa. Menos carrinhos, menos compras, uma funcionária mais expedita nos trocos, errei?, olho, prescruto. Tenso, hesito, mal me demoro nas capas das revistas cor-de-rosa, saio, não saio, que fazer? conto os clientes na fila, talvez... E nisto padeço até que, por magia, alguém se coloca atrás de mim na fila. Nesse momento descanso, não por ficar asseverado de ser aquela a caixa mais rápida, mas pelo súbito conforto de perceber que o meu erro não foi assim tão absurdo.

Aí sim, dedico-me às linhas de força na capa da Nova Gente.

A blogoesfera segundo...

No Farol das Artes, o inspirado Pedro Farinha caricatura alguns blogues,a pretexto da pergunta: "O que é a blogosfera?" Eu surjo marcado pelos decotes e pelos intimismos. Bem podia tentar uma crítica à obra de Proust numa série de 50 posts seguidos, não há hipótese.

Ainda as reacções à disssolução


"Há uns rapazes na blogosfera que publicam fotos de mulheres. Os sacanas. Assim mesmo: fotos de mulheres. Juro. Mais: mulheres bonitas. Muito bonitas. Impossivelmente bonitas. Um escândalo. E publicam essas fotos apenas porque as mulheres são muito bonitas. Embora, naturalmente, poetizem a beleza, com um poema ou um verso de uma canção. Muito conveniente (..) Tenho pena dessa canalha. Desses frustrados metidos a estetas. Desse forcados de fantasmas."

Não, este texto não é de nenhuma feminista anquilosada, daquelas que atirariam o Seduction de Baudrillard janela fora - já agora, as feministas que eu conheço bem podiam figurar nesta página com as suas belas T-shirts justas dizendo "this is what a feminist looks like" -, curios@s?

Hermenêutica da suspeição

Não consigo de achar bem pertinente isto que diz Pacheco Pereira na sua crónica:
"Desconfiem sempre de quem quer mudar e não sente genuíno desgosto com o que está. E o engenheiro Sócrates foi o mais mole crítico de Santana Lopes".

Esvai-te daqui!

Ele chega a casa e encontra as malas à porta. Se um dia for mandado embora, assim em estilo, no meio de uma peixeirada, só peço um verbo. Que ninguém me diga esse humilde "vai-te". Sejamos cénicos, intensos, bonito é quando alguém é repelido com um adeus em jeito de praga: "esvai-te". O sangue correrá de ti, que és corrido daqui. Ou é passional ou não vale a pena.
Bitter Moon
[Brinco, nada deve ser mais triste que uma relação acabada com trocados desejos de infelicidade.]

Governo: futures

Diz Ana Gomes: "Ferro Rodrigues é reservatório de um capital de credibilidade e de capacidade de governação de que o PS e o País não podem, de modo nenhum, prescindir". Independentemente dos muitos reparos que devem ser feitos à liderança de Ferro, o que eu sei é que, caso Sócrates venha a ser empossado primeiro ministro, seria um péssimo sinal que não convidasse Ferro Rodrigues para uma das pastas ministriais. Confirmar-se-ia a ideia, por alguns aventada, segundo a qual o partido de Sócrates é, na melhor das hipóteses, a extrema direita da esquerda.

Dia 1 de Dezembro

A decisão de Sampaio foi tomada no dia 30 de Novembro, mas este é um daqueles momentos em que só se acredita no dia seguinte. O dia 1 de Dezembro bem podia passar a ser o dia da restauração da democracia. Foi corajoso sim senhor, o Presidente.

E agora, que será feito dos Luises Delgados? Novos boys ou, enfim, meritocracia?