Mulheres com preço

Não aproveitei a minha incursão acidental por um bar de alterne para fazer uma etnografia mais aturada. Uma falha que JPT não me perdoa. É a propósito dessa história ida que o Machamba nos fala das "putas da sua vida", representadas pelo ícone de Esmeralda. Houve uma prostituta que me marcou profundamente na adolescência, chamava-se Mildred. Desenhou-a Somerset Maugham, a tortuosa paixão de Philip em Servidão Humana .

Mais um escândalo

Jude Law foi eleito o homem mais sexy do mundo pela revista PEOPLE.

A atriz Naomi Watts chegou mesmo a afirmar:"É o homem mais bonito que já caminhou sobre a Terra". É verdade que o rapaz esteve mui guapo no Talentoso Mr. Ripley. Mas calma... Este processo eleitoral parece-me muito semelhante ao que decorreu recentemente na Ucrânia. Neste caso Noami Watts veste a pele de Vladimir Putin para dar credibilidade ao que parece mais uma fraude colossal. Brad Pitt deve estar inconsolável, mas não é dele que eu tenho pena.

Crise? Naaa


Acho excessivo o alarme que se está a criar em torno da demissão demissão de Henrique Chaves, já se fala em crise política e tudo. Quando Jorge sampaio entronizou o 16º governo constitucional fê-lo por apelo à estabilidade, ora, se houvesse alguma semana sem uma crise bombástica, aí sim, poderíamos ficar preocupados com a falta de estabilidade. Bendita a hora em que o presidente da república nos livrou do flagelo das eleições e da superstição da democracia. Até porque as notícias andam mais giras. Andam, andam...

Músicas que nos salvam


Acho espúria a celebração das "músicas intemporais". Algo intemporal, para nós, é algo que nos diz muito ao longo dos tempos ("as time goes by", nem mais). Perceba-se a estupidez, é que a intemporalidade de uma música nem sempre será uma coisa boa, os versos e melodias que nos salvam uma e outra vez, recordam que precisamos deles há demasiado tempo. Por isso, tais composições podem bem ser a reiterada certeza que a intempralidade não é uma virtude estético-musical, mas um lamentável desígnio da história pessoal. Não me venham com a exaltação do repeat. São as linhas da mão que se confundem, não a voz da Tracy que se eterniza. Embora ameace.

Performances de sábado à noite

Há um comportamento performativo na pista de dança que sempre me intrigou pela bizarria. Refiro-me a uns tipos que costumam estar na orla da pista, a sentir intensamente a música. Há os primeiros, os que fecham os olhos e levam as mãos ao peito. Com estes tudo bem, certamente se reportam para outros lugares ao som de "I will Survive". Agora os que realmente me desconcertam são aqueles e aquelas que passam a noite a dançar pendularmente enquanto olham os próporios pés. Sim, não param de olhar para o chão onde os pés se movem. Este um narcisismo dedicado ao vislumbre dos próprios membros mexidios deve ter alguma interpretação psicanalítica à altura. Há anos que fracasso em encontrar uma satisfatória.

a ler em Elsinore

A velhice como naufrágio.

Maradona e Foucault: "A solidão do acrobata"

De quando em quando sou convidado para palestras e conferências. Estou sempre a dizer que me devia cortar-me mais, mas, a bem ver, esses périplos pelo país são uma parte que dá sentido prático ao restante trabalho académico. Transformação social, pois. E depois há esse pormenor: gosto. Hoje lá fui, mais uma vez, a um auditório apinhado por alunos de uma escola superior de educação. É curioso, quando vou jogar à bola - por mais reles que seja o pavilhão - lembro sempre as jogadas do Maradona - obviamente não sai nada que se pareça. Do mesmo modo, quando me sento para uma comunicação com um auditório não resisto a lembrar uma deliciosa descrição de Michel Foucault strong sobre a inevitável solidão do acrobata> - bem escuso de dizer que não sai nada que se pareça. Dessa descrição resgato aqui aqui interessante um texto que o meu caro amigo João Nogueira nos oferta nos arquivos do saudoso Socioblogue:

"Quando Foucault entra na arena, rápido, dinâmico, como alguém que se lança na água, passa por cima dos corpos para atingir sua cátedra, repele os gravadores para colocar os seus papéis, retira o paletó, acende uma lâmpada e começa, a cem por hora. Voz forte, eficaz, retransmitida por alto-falantes, única concessão ao modernismo de uma sala mal iluminada por uma luz que sobe por arandelas de estuque. Há trezentos lugares e quinhentas pessoas apinhadas, tapando o menor espaço livre [...] Nenhum efeito oratório. É límpido e terrivelmente eficaz. Sem a menor concessão à improvisação. Foucault tem doze horas por ano para explicar, em curso público, a direcção de sua pesquisa durante o ano que acabou de findar. Então, comprime ao máximo e preenche as margens como os correspondentes que ainda têm muito o que dizer quando chegaram ao fim de sua folha. 19:45. Foucault pára. Os estudantes correm para a sua escrivaninha. Não para falar-lhe, mas para desligar os gravadores. Sem perguntas. Na confusão, Foucault está sozinho.. E Foucault comenta: .Seria preciso poder discutir o que propus. Algumas vezes, quando o curso não foi bom, seria preciso pouca coisa, uma pergunta, para reordenar tudo. Mas essa pergunta nunca vem. Na França, o efeito de grupo torna qualquer discussão real impossível. E, como não há canal de retorno, o curso fica teatral. Tenho uma relação de ator ou de acrobata com as pessoas que estão presentes. E, quando acabei de falar, uma sensação de solidão total..."

Marcas do intimismo

Numa afirmação simplista, mas que só pretende ser provocativa, poderíamos definir o espaço público como o espaço em que mostramos as nossas virtudes, aquilo que nos fica bem. (eu por exemplo tenho uma camisa de flanela feia de morrer que só uso em casa).

Por isso, uma das marcas de água do dito registo intimista é a exposição de vulnerabilidades e a auto-depreciação. Por exemplo, grande parte do apelativo do Dicionário do Diabo devia-se à enunciação das "desgraças" "pessoais" do seu autor-personagem. A empatia que estabelecemos para com quem expressa (ou estetiza) as suas vulnerabilidades percebe-se bem. Todos as temos, como temos leitmotivs para nos depreciarmos, mas, por norma, não o fazemos no espaço público. Quando algém o faz em "canal aberto" aparece, nalguma medida, como a manifestação desse segredo que é de todos nós. Talvez por isso tantas vezes me perguntam: "não achas que te expões demasiado com o blog?" A repetição desta pergunta não tem tanto a ver com o resgate do privado para o público, mas com uma ficção cuidadosamente vigiada: em público devemos mostrar só o nosso melhor lado.

Kinder Bueno


Não sei se já repararam no novo spot da Kinder. Aparecem por lá dois adolescentes surdos a comunicar por linguagem gestual. Estamos sem dúvida no domínio daquilo que alguém designou corporate multiculturalism: a apropriação que as empresas capitalistas fazem, para seu proveito, da celebração da diferença e do multiculturalismo (ex. padigmático, Benneton). Este spot da Kinder pode parecer pouco, mas é também com estas aparições que nos damos conta de pessoas cujas existências tendem a ser tão invisibilizadas nas nossas sociedades. Para um publicitário é da mais refinada argúcia sociológica introduzir a deficiência nas constelações de diferença (entre 6 a 10% da população). Seria giro que naqueles outdoors a la Benneton, em que aparecem gentes de todas cores, surgissem também, com toda a naturalidade, os corpos ditos deficientes: alguém sem um braço, sem uma perna, cego, etc. Choque? Chocante é fingirmos que não existem na continuada reiteração de corpos modelares. (E contra mim falo). Aqui vos deixo a foto que dá a capa a um excelente livro de Lennard Davis. Para os mais lembrados, o meu amigo de Lancaster.

Antropologia Strereo

Ontem à noite fiquei-me a olhar para o tecto. Desta vez lá deixei a Cat Power descansar e pus uma banda sonora menos melancólica. Descobri um site carregado de entrevistas e palestras de alguns antropólogos em registo audio. Se não tivesse mais nada que fazer já tinha que fazer. Comecei pelo Clifford Geertz. Curioso, foi a primeira vez que ouvi a voz de um homem cujas plavras me são tão singularmente familiares. Geertz, esse mesmo, o "homem do Bali", que um dia declarou:
A vocação essencial da antropologia interpretativa não é responder às nossas questões mais profundas, mas tornar para nós disponíveis as respostas que os outros, guardando outras ovelhas noutros vales, deram, e inclui-las no repertório consultável do que o homem disse.
Estranho vocalista, terão pensado as minhas colunas.

Considerações acessórias II

No post abaixo referi-me às expressões de afecto no casal, como as fotos sobre mesinha de cabeceira. Não se ofendam, há sempre uma certa quota de inveja naqueles que denunciam as lamechices Kitsch do acasalamento.

Parabéns

Ao causa nossa pelo primeiro aniversário.

Considerações acessórias

1- Do ponto de vista da biografia afectiva há dois tipos de pessoas: as que têm ou já tiveram uma fotografia emoldurada na mesinha de cabeceira e as outras. No primeiro grupo há ainda aqueles que já mudaram de foto e os que têm a moldura vazia à espera.

2- Estão em desuso as calças de lycra, que tanto furor fizeram na segunda metade dos anos 90. Para muitas era ali que coxas e rabos encontravam enfim o seu teste de realidade: um momento estético bem mais crucial que a clássica mini-saia. Vivemos num mundo mais enigmático.

"Eu sou gay"


Contaram-me que circula para aí uma hilariante brincadeira informática. Existe um ficheiro que quando é partilhado no messenger faz com que a pessoa que o aceita, fazendo o Download, automaticamente envie uma mensagem para todos os seus contactos online com o seguinte dizer: "Eu sou gay". Imaginam o fartote e o embaraço. Sinceramente acredito que chegará o tempo em que uma pessoa ficará realmente constrangida perante os seus contactos com uma frase inteiramente simétrica da original, dizendo: "Eu sou homofóbico/a". Isso sim, um verdadeiro motivo de vergonha.

Subversões quotidianas

Há regras sociais muito estúpidas. Até alguém me explicar de modo convincente a existência de uma regra social que desqualifica aqueles que se esperguiçam em público, fa-lo-ei despurada e ostensivamente. A exibição da preguiça é condenada numa sociedade em que reiteradamente devemos mostar-nos activos e produtivos. Será por isso? Não me serve; até porque quando nos esperguiçamos estamos sobretudo a descomprimir o corpo. E descomprimir é preciso num contexto cultural sem know how para meditações budistas - eu lá vou compensando essa falha com um banho de imersão de quando em quando. Contra a vil opressão de regras arbitrárias, esperguicemo-nos com gosto, em todos os lugares!

Entradas outonais

A malta do blog de esquerda passa a contar com a pena de José Luís Peixoto. Um motivo de orgulho para o mister Zé Mário, sem dúvida umas das vozes mais serenas da blogosfera.

O Deco e a cidade

O sempre excessivo Cafajeste afirma que "ver o Deco jogar é melhor que sexo".

O advento da Ciciolina e a descralização da experiência sexual, estetizada em séries como o "Sexo e a Cidade", faz esta comparação perder o brillho e a capacidade de choque. Caro Cafajeste, as transformações culturais recentes vão despindo o "sexo" -- o conceito -- de violência emocional. É que para falar do Deco convém pôr algum sentimento.

Mementos de revolta

Há um episódio de Hitchcock em que um homem, dado como morto, prestes a ser autopsiado, tenta salvar-se dando sinal da vida que ainda lhe vai. Paralisado, apenas o pode tentar com uma lágrima que deixa escorrer pela face.

Sou confrontado nessa cena com um simbolismo que às vezes me visita. Ali a lágrima vertida constitui a recusa do fatalismo, expressa a esperança num desfecho improvável. Dar de si uma lágrima é ser capaz de lembrar - e isto não é pouco - que "não era para ser assim". E isto tanto vale para mais um atentado no Iraque, para as fomes que já nem vemos, como para as lágrimas que já não choramos.

Condoleezza Rice, a solteirona

A nova chefe da diplomacia americana.

É solteira e não se lhe conhecem relações. Como alguns de vós saberão, em portugal ser solteiro e não namorar depois dos 25 dá azo a todo o tipo de cogitações e a uma profunda consternação familiar. Mas neste caso a explicação é simples: o imperialismo bélico deve implicar uma grande disponibilidade da líbido.

Insultos de ponta

No meio de uma acesa polémica, Vasco Rato inaugurou um insulto. Chamou ao Daniel Oliveira ... licenciado. Isso mesmo. Desconcertante. Será o licenciado o substituto para analfabeto em tempos de democratização da literacia? Sinceramente parece-me patético que alguém puxe dos galões académicos para conseguir ganhar ascendente numa discussão. Eis como alguns dos vícios da nossa sociedade, tão acostumada às vénias aos srs. doutores, batem à porta da blogosfera. Este espaço virtual está longe de ser a comunidade ideal de comunicação de que falava Habermas, mas, até ver, ainda não se institucionalizaram os estrados.

Porque será?


A direcção de informação da RTP demitiu-se em bloco. Cá para mim ficaram mal dispostos com alguma coisa que não comeram.

Sleeping Dictionary


Não é, nem por sombras um filme brilhante. Mas é bem interessante, pela ambiência, pela história, por Jessica Alba. Conta a história de um aministrador colonial inglês e do seu sleeping dictionary, a nativa que, seguindo uma tradição, lhe ensinaria a língua e daria cobro às suas necessidades sexuais. A coisa ganhou outros contornos. Neste caso pelo aparecimento do amor, recapitula-se a ideia de Homi Bhabha, a ideia que na relação colonial o opressor sofre da ansiedade de nunca conseguir fazer do outro um objecto totalmente conforme o seu discurso. A missão civilizatória, a propalada necessidade de transformar o colonizado por padrões superiores tem sempre como segredo a inevitável transformação do colonizador: a desqualificação do nativo não apaga a atracção que ele exerce nem tão pouco o poder que dele emana. Reduzir o poder de atracção do outro à sexualidade das nativas é uma mentira que não se segura. Mas, sinceramente, acho que quis falar deste filme mais como pretexto para esta foto. Dois corpos que adormecem.

Hoje não está vento

Por sorte hoje não está vento. É estranho, de uma maneira ou de outra tem-se sempre a impressão de ter sorte, quando uma circunstância qualquer, mesmo infinitésima, nos retém à beira do desespero e nos concede viver.

Primo Levi, Se Isto é um Homem


Resisto à ideia que a verdadeira natureza humana se revela nas situações limite. A bem da verdade resisto à própria ideia de natureza humana - pelo menos aos usos redutores e deterministas que sociobiólogos e afins gostam de lhe dar. Mas histórias como as dos sobreviventes de Auschwitz não deixam de nos trazer algo de uma verdade mais profunda. Dizem que o passado é um país distante. Dizem que orfeu desceu aos infernos com a sua lira. As línguas que falamos e as músicas que dedilhamos na vivência do inóspito não são mais verdadeiras. São mais nossas. Porque no sofrimento está-se sempre só. O sofrimento é um universo de sentido em em que nos confrontamos com experiências incomensuráveis, irredutíveis a uma linguagem. Por isso, falar do sofrimento é falar do que jamais poderá ser dito. É bom que prestemos atenção a esses indizíveis, que ouçamos as línguas e as músicas de quem lá esteve. Para aprendermos como não se vai para lá, obviamente. Mas também porque o sofrimento às vezes pode ser apenas isto: a solidão de ter lá estado.

Desculpa lá

Em retrospectiva, poucas verdades mais sólidas me restam: quando estou apaixonado não jogo tão bem à bola. Ou por outra, jogo pior. É uma questão concentração. Fazem-me um passe, piso a bola, olho a baliza, reparo no tipo que se desmarca na esquerda, no guarda redes adiantado, no defesa que se aproxima feroz, engendro a execução perfeita, e... imagino as cócegas do cabelo dela. É então que me roubam a redondinha e eu fico com um sorriso estúpido. Das cócegas. Obviamente que não respondo às reclamações do tipo que corria na esquerda. Senão teria que dizer algo do género: "Eh pá, desculpa lá, estou apaixonado!"

À vossa atenção

Pedro Mexia volta a bulir com posts que, de facto, só ele: "Uma vez apaixonei-me (ou coisa que o valha) por uma modelo (ok, riam lá um bocado). E mandei-lhe este poema do cavalheiro Camões (...)"

P.S. Embora haja quem legitimamente entenda que os recados via post são de manifesto mau tom, aproveito. Pedro, há muito que já tenho comigo o Fora do Mundo - livro. Desculpa só agora acusar a recepção, mas o teu mail não estava a funcionar. Na verdade, já faz tempo, recebi essa antologia blogosférica com o esmero esperável das mãos em que o confiaste. Li-o de empreitada, agora está arrumado na estante, não longe de grossos volumes de sociólogos que tanto aprecias.

1929-2004


Não creio que o evento da morte nos obrigue a idealizar as vidas dos que partiram. Mas um símbolo de uma causa é sempre mais do que um homem, e é esse desígnio que aqui evoco. A causa de um povo humilhado. Oxalá os palestinanos vejam depressa a sua terra prometida.

E Ela?


Casablanca, Lendas de Paixão, As Regas da Casa, O Monte dos Vendavais, you name it... Muitas são as narrativas em que dois caminhos distintos se desenham mais ao menos nestes termos: De um lado, a mulher que se fica com alguém que não ama, seja por um imperativo ético, por uma prescrição social, pela necessidade de estabilidade, ou pela impossibilidade afectiva de estar só. No reverso, surge o homem que, perdido o amor, se fica vago e solitário, nómada romântico, o eterno exílilado de uma história impossível.

Atento aos nossos mundos da vida, tenho para mim que a construção destas histórias não deixa de revelar uma determinada sensibilidade romântica, mais propensa a privilegiar o infortúnio do homem solitário.
Acho que é de uma temenda injustiça julgarmos ser mais triste a história de Rick do que a de Ilsa. Por isso, quando o avião levanta mostrando-nos a sofrida coragem do homem da gabardine, penso sempre no desespero de Ilsa, no chapéu pousado no colo, penso no seu amanhã, na teimosa inquietude que a adormecerá no quarto de casal. Por Muitas noites.

Mamas: devaneios

Diz-nos a Sara: "Há mamas grandes e pequenas. Há peitos descaídos, outros firmes. Uns assim, outros assado. Existem seios para todos os gostos. Acho também que todos os bustos têm a sua beleza, por aquilo que me é permitido observar no dia-a-dia, das mulheres que por mim passam." E acrescenta: "Tive complexos que a partir de certa idade ultrapassei e julgo que não voltarão. Há que relativizar e comprar roupa interior adequada."

Como poucos, o tema das mamas oferece-se a um proverbial relativismo. Isto assim é pela pluralidade de preferências estéticas e pelo importante papel de "tradução" que a roupa interior - quase sempre - realiza no modo como elas nos chegam os olhos. Eu, que sempre fui uma pessoa de contextos, acrescento um outro relativismo: não acredito nas análises solipsistas das mamas. Explico. As mamas fazem parte de um corpo, e o seu lugar só poderá ser compreendido por referência à barriga, à largura das costas, à altura, ao andar, etc. E depois há um outro "detalhe". Aqui começa a insólita raridade que une algumas irisis a alguns mamilos. O sintoma cimeiro desse detalhe substancia-se no facto do vislumbre das mamas se poder tornar uma "missão" difícil de cumprir. É verdade. Creiam-me. Tal acontece quando as mamas relevam (boa expressão) de alguém que nos olha e "fala", de tal modo cativando, que desconcerta qualquer pretensão, quer à contemplação estética, quer ao desejo erótico, nos seus sentidos mais "puros".

Desconcerta, não anula. Complexifica. Singulariza. Apenas porque destrói aquilo que Donna Haraway chama "o conquering gaze from nowhere", o tal olhar patriarcal vindo de nenhures. Temos pois que nessa destruição criativa as mamas passam a ser vistas de um "lugar" crescentemente situado, lembrando-nos de um relativismo bem mais portentoso que a própria roupa interior que aconchega as mamas e lhe molda as formas. Falo, claro, da sujectividade estético-afectiva de quem vê. Quando ela se decide a entrar em cena não mais há o olhar conquistador do masculino, assim posto, mas sim o olhar de um sujeito. Cativo e desconcertado.

Diego

Há umas semanas, após a derrota com o Guimarães, um amigo desabafaba meio a brincar: "..da-se, dantes, quando tudo corria mal um gajo ainda tinha o Porto!". Foi nesse bravo amigo que pensei quando vi o Diego fazer aquele golo trazendo-me à memória o génio do outro Diego: El pibe. Curioso, foi preciso aquele lance para me dar conta dessa prestigiante homonimonia entre o nosso 10 e o mago argentino. Finalmente um bom jogo. Sim, caro JCD, ontem a bola já rolou mais perto dos seus concubinos.

"You can't live trying to avoid pain..."


"I guess when you're young you just believe there'll be many people you'll connect with. Later in life you realize it only happens a few times."
Temi que a parte dois pusesse tudo a perder. Temi pela magia daqueloutra noite. Foi bem mais que um alívio.

A minha manifesta incapacidade para resistir à "viagem" deste filme pouco teve a ver com questões do foro estritamente cinematográfico. Coisa esperável. No reencontro de Jesse e Celine há um realismo tão "cru" que parece milagre o lirismo que foi perpassando e me seguiu, teimoso, para fora da sala. Realismo no modo como os diálogos se compõem (as hesitações, os sorrisos fora de tempo), nas histórias lembradas, nas arqueologias sentimentais, na catarse neurótica de Celine, no rosto envelhecido de Ethan Hawke, na ausência de banda sonora, nesse tempo quase real que se esvai passo a passo com a fita. Na verdade, percebi ali um tempo ambíguo. Um tempo que tanto nos é oferecido sucessivo e fugidio -- pela inevitabilidade do anoitecer-- (Cronos- o tempo mensurável do relógio), como nos é posto enquanto um concentrado emocional, qual Aleph de uma raríssima possibilidade romântica (Kairos- o tempo vivenciado pelos sujeitos), também ela ameaçadoramente fugaz, talvez porque o romantismo possa mesmo ficar refém de um encontro, de uma pessoa, de uma "perdição", de uma via não acontecida: "In a way, I put all my romanticism into that one night...". Mas há uma outra questão que inevitavelmente nos enreda, espectadores, numa insigne partilha ontológica com os amantes. É que, cínicos ou românticos, também para nós passaram 9 anos desde a noite de Viena. Também nós lembramos. Também nós olhamos para o lado.

Se quiserem emular os simbolismos da história, podem ver o filme sozinhos. Ou então em rara companhia, ao lado de alguém com quem valha a pena ousar a memória de uma valsa, ainda que ela se chame a Valsa do Adeus.

Lampejos


A adivinhação de olhares é um dos mais constantes exercícios relacionais. Abstraído o contexto, o exercício é ainda mais fascinante. Isto porque, nas leituras deslocadas dos confusos mundos da vida, o significado percebido não tem que obedecer a outras ponderações. Creio, por isso, que há certos olhares que mais parecem deslocados de guerra.

O nirvana electrónico

Embora sem grande jeito para fazer vibrar as mulheres, ele nunca desistia de fazer vibrar os telemóveis delas. Aconselhei-o a que se deixasse disso, tanta rejeição podia dar-lhe cabo do ego - além de lhe apequenar o saldo. Logo me explicou que não havia problema, vulneráveis, disse, são os que esperam por uma sms de volta. E é verdade, no tempo que decorre entre uma sms enviada e a resposta somos pessoas ligeiramente mais frágeis. O nirvana da modernidade ocidental é alcançado quando alguém esquece as sms's à espera de resposta; no fundo, quando alguém deixa de esperar.

Miragens de paz

Clinton, Rabin e Arafat.

Naquele tempo tínhamos Clinton, Rabin e Arafat. Hoje temos Bush, Sharon, e o espectro do caos na liderança palestiniana. Dizem-nos para termos esperança numa nova atitude de Bush. Wishful Thinking. A minha ingenuidade tem limites.

P.S. Miguel Monjardino, o comentador de assuntos internacionais da TSF afirmou estar convencidíssimo que o fim de Arafat irá abrir caminho para a paz. Miguel Monjadino? Calma, esse não foi aquele tipo que dizia para tirarmos a Al-Quaeda da cabeça - ideia maluca-, dado que o atentado de Atocha parecia ser um manifesto produto da ETA? Ah, bom! Esclarecido.

FAQ's Finalmente a Segunda Resposta

"Achas mesmo que o que dizes é assim tão relevante para ser partilhado?"

Obviamente gostaria de poder afirmar que tenho importantíssimas coisas a dizer. Haverá certamente um outro post capaz de me inspirar a ideia que determinadas reflexões, denúncias, confissões, levam algo de menos despiciendo enquanto “mensagem” – palavra perigosa que carrega um indisfarçável proselitismo. No entanto, e se a sinceridade me obrigasse, teria que convir que a existência de um blog, pelo menos deste blog, se explica em pequena medida por uma resoluta convicção acerca da pertinência do que é dito. Central é, isso sim, descortinar a “vontade de dizer” (Michel Foucault) de quem escreve. Ou seja, creio que mais importante do que responder à pergunta que encima este post, uma questão que emerge do ponto de vista do leitor, é canonizar a questiúncula: “Porque escreves?” Para começar, sei que passo bem sem essa coisa bizarra a que chamam notoriedade, para muitos o único propósito possível de um blogger não anónimo lido por mais de 10 pessoas. Assim sendo, a resposta ao “Porque escreves” envia-me para o que deixei perdido entre as linhas de um outro post: escrevo para poupar o próximo dos meus devaneios compulsivos ─ “Amor ao Próximo”, só aqui vem quem quer, espera-se. E, simultaneamente, para não ter de me aturar sozinho.
Acredito que há em cada leitor(a) deste blog um(a) unintended baby sitter.

(Ficam a faltar duas perguntas)

Orugulhosamente sós (act.)

Sei que não há comparação possível. Também eu não a faço, mas por estes dias é difícil deixar de lembrar que Hitler também foi eleito democraticamente.

Não é só quando olhamos para as sociedades melanésias que somos postos perante profundos desafios antropológicos, tentar compreender a possível reeleição de Bush faz apelo a um radical relativismo cultural. A cultura do medo, o messianismo e o nacionalismo exacerbado são alguns dos factores incontornáveis para percebermos a recondução da testosterona bélica.

Confissão

Eu, além de querer que Bush perca, nutro uma sincera admiração por John Kerry e pelo seu percurso de vida (o herói de guerra que no diário regista angústia a dor pela morte do inimigo, o ex-combatente que discursa no senado pelo fim do horror chmado Vietname, o Senador que foi à Nicarágua para encontrar o caminho para a paz, o Senador que no Golfo se opôs até ao último momento, o senador que visivelmente compungido pelo nacionalismo feroz votou a favor da intervenção no Iraque - não sem declarar que teriam que estar esgoatados todos os esforços internacionais para persuadir o desarmamento-, o homem que arrisca a incoerência na busca da complexidade). Esperemos que ele tenha uma oportunidade para me desiludir.

Noites políticas

Hoje sonhei com as eleições americanas. Não me lembro quem
ganhou. Mas fiquei contente por perceber que a minha sensibilidade onírica, normalmente tão narcísica, se dedicou hoje às causas do mundo.

Eventos

1- "The Love that dare not speak its name". Extraída de de um poema de Lord Alfred Douglas, a frase celebrizada por Oscar Wilde dá o mote para um interessante conjunto de iniciativas que a partir de amanhã decorrerão em Coimbra.

2- Também amanhã pelas 14:00h teremos uma reprise da "humilhação da mulher" num tribunal perto de si (isto é, Lisboa). Este filme já não passa em nenhum país da europa há 20 anos. A não perder.

Posse do Outrora

"Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las e que essas perdas são agora o que é meu. Sei que perdi o amarelo e o negro e penso nessas impossíveis cores como não pensam os que vêem. O meu pai morreu e está sempre ao meu lado. Quando quero escandir uns versos de Swinburne, faço-o, dizem-me, com a voz dele. Só o que morreu é nosso, só é nosso o que perdemos. Ílion passou, mas Ílion continua no hexêmetro que a lamenta. Israel existiu quando era uma antiga nostalgia. Qualquer poema, com o tempo, é uma elegia. Nossas são as mulheres que nos deixaram, já não submetidos à véspera, que é aflição, nem aos alvores e terrores da esperança. Não há outros paraísos senão os paraísos perdidos." (Posésion del Ayer)
J.L.Borges, Posse do Outrora, Os conjurados

Sempre tive um fascínio pelos estetas da perda. Na verdade, é uma expressão lastimável, "estetas da perda". E digo isto, apenas porque tais estetas, como eu os entendo, nunca serão, primeiro que tudo, estetas. São, isso sim, sujeitos que se viram impelidos a socorrer-se de narrativas capazes de tornar vivíveis (suportávies, sufferable para utilizar uma deliciosa expressão inglesa) as contingências e fugacidades da existência. A beleza ajuda a construir a posteriori as histórias com que podemos viver. Por isso, a estetização da perda é, por um lado, a sublime resistência ao espectro do fracasso e do infortúnio, e, por outro, a convicção informada de que não podemos passar sem as "perdições", assim ousemos ater-nos às coisas belas.