Conspirações

Bin Laden a falar na AlJazeera sem ser exposto ao contraditório é prova final de que as lições da democracia portuguesa não estão a receber a devida atenção no mundo Árabe. Por outro lado, talvez estejamos perante uma "cabala involuntária" entre a estação televisiva, Bin Laden e Rui Gomes da Silva para a eleição de Bush. É que, como bem sabemos, a eventualidade de Bush ficar no poder ajudaria a dar credibilidade ao governo português. É tudo uma questão da escala do desastre.

Um post inevitável


Eu queria que você viesse
Penso tanto que quase acontece
Porém se eu decidir não me enganar assim
Talvez o meu pranto tenha fim
Se você ouvisse minha prece
Não quisesse me ver tão aflito
Sonhar não custa nada
Eu quero tanto ainda

Maria Bethânia (Carlinhos Brown/ Marisa Monte)

Tanto alarido!

Uma vez provada a não transposição da bola já podemos parodiar um bocadinho. Não?

Parece que após a condenação penal corre um processo para a explusão de Vale e Azevedo como sócio do Benfica. Depois do cárcere, lá se lembram de uma indulgente amnistia Todos temos direito a uma segunda oportunidade.

Os meus marinheiros

Petzi, Pingo, o Almirante e Riki.

Tal como o Irineu Funes, a figura borgesiana do homem que não conseguia esquecer, eu sempre regresso aos lugares onde nunca estive. Sempre regresso ao Golfo da Biscaia a bordo do Mary.

Parabéns Nuno

Um blog de excelência.

Abre Los Ojos!

Vamos lá ver Sr. Fernandez, alguns conselhos para levar a sério (Perdoarão, mas respeito demasiado o bom futebol, e sei do que falo, para fazer como algumas colectividades que preferem as paranóias para escamotear a falta de nível do futebol jogado):

1- Já é suficientemente estranho que Hugo Leal esteja no plantel do Porto. A sua contratação foi um óbvio erro histórico. Pô-lo em campo num jogo decisivo é uma demonstração de amadorismo que pode pôr em causa a competência de qualquer treinador. Mesmo se ele se chamasse José Peseiro.
2- Que se use a defesa em linha para pôr os adversárioes em fora de jogo aqui e ali não me choca. Que se esteja sistematicamente a arriscar e a depender da boa fé dos árbitros auxiliares é uma estupidez sem nome. Lembre-se o PSG, já estou farto que os nossos defesas vejam a bola entrar na baliza com a mão no ar virados para a linha. Chega!
3- Lição de Mourinho. Com as equipas mais fortes usas um 4-4-2 como um meio campo mais musculado. E se é verdade que o 4-3-3 serve para ganhar ao benfica e afins, devemos lembrar que mesmo na primeira época de Mourinho, em que se usava sistematicamente um 4-3-3 para consumo interno (com Derlei e capucho nas extremas), na UEFA funcionava o 4-4-2 com a introdução de Alenithchev no meio campo. Muito do fracasso na Liga dos Campeões passa por aqui. É de um lirismo atroz ir jogar à Europa em 4-3-3, sobretudo quando Diego não defende metade do que o Deco defendia e quando dois dos extremos de serviço (Carlos Alberto e Quaresma) também não primam pelo empenho defensivo. Bem me podes dizer que já não tens o Pedro Mendes ou o Alenitchev (já agora, porque C... venderam o Pedro Mendes!), jogadores usados por Mourinho no 4-4-2. Mas isso não é desculpa. Contra as melhores equipas podíamos construir um meio campo com Costinha, Maniche, Diego e Bosingwa (ou o Raúl Meireles ou Mesmo carlos Alberto mais no miolo) e à frente jogaria o McCarthy com o Derley ou com um dos miúdos (Carlos Alberto ou Quaresma).
4- Pepe- tem velocidade e ímpeto. Não passa segurança e tranquilidade. Ou bem que se começa a acreditar em Ricardo Costa para jogar ao lado de Jorge Costa ou, caro amigo, é melhor ir ao mercado em Dezembro buscar um central que nos ajude a fazer esquecer o Ricardo Carvalho.
5 - Diego e Carlos Alberto - São dois excelentes jogadores, mas precisam que alguém puxe por eles. Diego tem maturidade de jogo, mas física e defensivamente tem que dar muito mais. A adptação ao futebol europeu requer que alguém lhe grite: corre pastelão!. Carlos Alberto não tem maturidade de jogo, mas, lembro bem, no tempo de Mourinho andava muito mais sintonizado com a ideia de equipa e de vitória colectiva. A ausência de uma voz mais forte nota-se nestes retrocessos.
6 - Crer. Não quero voltar a ouvir numa conferência de imprensa que o Porto jogou toda a segunda parte no seu meio-campo porque era a outra equipa que tinha que dar a volta ao resultado. Temos que continuar a controlar/dominar o jogo com a fé que essa é sempre a missão dos melhores. Nós. Lembro um jogo em que o Porto estava empatado nas Antas com o Benfica e reduzido a 10 jogadores. O que Mourinnho disse aos seus jogadores no balneário foi isto: "Bem, eles estão com 11 e nós com 10. Mas como eu acho que eles não têm coragem para vir para cima de nós vamos para cima deles!" Resultado: o Porto entrou em campo com 10 empurrando o 11 benfiquista às cordas. Completo domínio, o jogo foi ganho com um golo de Deco. Fernandez imagina o que podes fazer com 11!
7 - Substituições - Andamos muito conservadores nas substituições. O ataque do Porto tem que assentar para se criarem mecanismos de hetere-reconhecimento entre os jogadores, a partir daí temos que ter as substituições tipo feitas em cima dos eventos. Logo ali. Era com elas que Mourinho conseguia recuperar quse sempre de situações de desvantagem.
8 - Carisma e Mística- Poderá não saber, mas a imagem que o Sr. Fernandez passa é de um tipo um pouco mole. Talvez mais que o proprio Fernando Santos. Obviamente não quero um Octávio (vade detro!...), mas um treinador que não parece ser capaz de capitalizar a mística portista, nem o discurso de nós contra o mundo, ainda não se adaptou ao contexto sócio-cultural onde foi cair. Mourinho tinha no Balneário o Jornal a Bola com declarações de Vilarinho aventando que ia ganhar às Antas O-3. Need I say more...
9- Gosto de ti. Pareces ser boa pessoa e capaz de aprender depressa. E só por isso não peço a tua cabeça. Aponta lá estes conselhos e vamos começar a esmagar. Vale!?

JC

Um amigo aponta para uma certa moçoila. Como se eu nada perguntasse lá me diz: "é bem gira, mas é da "Juventude Comunista". A ideia do jovem comunista enquanto um intrigante oxímoro não é nova, mas o que eu notei no tom de voz do meu amigo foi algo mais do que o reconhecimento disso mesmo, foi um manifesto desconcerto perante as singularidades deste mundo: jovem, bonita e da JC. Para tanta contradição -- terá querido dizer -- não há figura de estilo que nos socorra. Que injusto!...

Heroísmos

"Numa separação é aquele que não ama realmente quem diz as mais ternas palavras."
Marcel Proust

Se Proust tem razão, e acredito que possa ter, só nos resta resgatar esses heróis (e heroínas) da ternura. Aquelas/es que conseguem despedir-se em terno registo, ainda que amando. Realmente.

A Luis-Delgadização da Informação

A comunicação social portuguesa está a chegar a um estado de governamentalização absurdo. Hoje, qualquer órgão que não faça parte do grupo PT ou que não tenha com ele nogócios pendentes arrisca-se a ser considerado de perigoso Media Independente. Os Luíses Delgados proliferam, as vozes do regime recolhem os proveitos do bom comportamento. Eu só pergunto: Será que o Presidente da República vai limitar-se a ficar preocupadíssimo? As usual.

Mitologias

"O homem branco toma a sua própria mitologia, a mitologia Indo-Europeia, o seu próprio logos, isto é, o Mythos do seu idioma, pela forma universal daquilo que ainda deve desejar chamar Razão". (Jacques Derrida, citado por Robert Young em White Mythologies pag. 38)

Já o dizia Walter Benjamin, toda a história se arrisca a ser a mitologia dos poderosos e dos vencedores, e, por isso mesmo, teremos sempre histórias e contra-histórias fadadas a dissolverem-se. É esta a razão pela qual Gayatri Chakravorty Spivak questionava sonante: "Can the Subaltern Speak?" Aí está, a questão dilacerante: pode/consegue o Subalterno ser ouvido quando as opressões e os colonialismos tanto dependem dos epistemícidios e das mitologias legitimadoras da dominação? Ou da mitologia da História, se quisermos. Investidos por esta provocação, somos enviados para a finíssima asserção de Homi K. Bhabha. Numa discursividade crítica em tudo próxima à necessidade de um sistemático descentramento do Ocidente (Ernesto Laclau) ou do imperativo (ético, se quisermos ir até Levinas) de Aprender com o Sul (Boaventura Sousa Santos), Bhabha, o mais célebre pós-colonialista vivo desde a morte de Edward Said, diz-nos que:
"é daqueles que sofreram a sentença da história - subjugação, dominação, diáspora, desterro - que nós aprendemos as mais duradouras lições para viver e pensar" (Homi Bhaba em The Location of Culture).

Tudo isto são questões que Robert Young explora neste seu portentoso livro. Seguindo-o, a partir de uma critica à totalização etnocêntrica do conceito marxista de história, lá vamos, a par e passo com o talento e erudição de um mestre da recensão (Colonial Desire também o prova), calcorreando nomes incontornáveis da teoria ocidental. Somente quando a História consente em despir-se como uma mitologia do ocidente colonizador, como uma mitologia do homem branco (sim, homem, a voz das mulheres faz parte do espectro de silenciamentos), é que podemos aceder às mitologias plurais, às multiplas historicidades que tanto nos têm a ensinar. A conclusão não podia surpreender menos, mas o que interesssa neste livro-passeio - às vezes árduo - é mesmo o caminho.

Sofrimentos clandestinos


Paula Rego
"Se eu faço uma mulher a ter um aborto, não a ponho com pernas cruzadas, não tem verdade nenhuma. Tem de ser com as pernas abertas, mas tento sempre ser o mais discreta possível e dar dignidade à pessoa. Aquelas mulheres que estão a fazer abortos não são de maneira nenhuma vítimas, são pessoas com dignidade que estão a passar um mau bocado por causa de uma lei estúpida que existe no País".

Vêm aí as imagens para os maços

Um violento delírio preventivo. Parece-me.

Eu, a rapariga da cabine e Deus

As cabines públicas constituem uma elaboração urbana muito instigante. O seu lugar nas nossas cidades representa uma fortíssima dissolução das fronteiras que definem a esfera pública da existência. As cabines, por um lado, são públicas (boa Bruno!), e situam-se na rua, o emblemático espaço das gentes, paredes-meias com os transeuntes. Mas, por outro lado, quase tudo que nelas se passa, quase tudo que ali se diz e se ouve, é privado - registe-se a assinalável excepção de quem as usa à procura de quarto, "e a luz paga-se à parte?". Esta permeabilidade das cabines às nossas categorias de recato ficou-me sublime numa frase que apanhei solta quando ia passando ao pé de um desses pontos telefónicos: "Ainda não lhe disse. Não sei alguma vez o farei, não sei se ele gosta mesmo de mim". Quando me virei reconheci aquela voz de algum lado. Olhei, e soube-me então portador de um valioso segredo. Em determinadas circunstâncias a ocultação e o desconhecimento são parte fundamental da vida social. Mas o meu amigo, que há muito a esperava em devoto silêncio, deveria saber. Pouco tempo depois encetariam namoro.

Acho tristíssimo que haja "encontros" não-acontecidos por mal-entendidos. Mas partilhar a omnisciência com Deus ofertou-me a estranha vontade de não querer intervir na história, talvez para me ilibar de uma dispensável conivência com o porvir. Esse desconforto, percebi-o claramente quando, anos depois, acabaram tudo entre chorados adeuses.

Radar (act.)

Por aqui, pela blogosfera, ninguém escreve impunemente. E isso é bom. Em última instância, os ecos e as viagens daquilo que é escrito são parte constituiva do sentido parido pelos seus autores. É assim que o morcego segue o seu caminho. Vamos então a alguns ecos:

Muitos parabéns ao Cafajeste pelo seu primeiro aniversário. Aproveito o ensejo para agradecer pelos posts que nos últimos dias me foram dedicados no Boémias (Laetitia como inventiva manobra de dissuasão de polémicas) no Memória Virtual (a evocação do Avatares e do Abrupto num mesmo post) e no Água Tónica e Ginger Ale (com foto e tudo sou posto panteão dos "cromos da blogosfera" - vide abaixo. Que maldade, Ginger).

Ainda não vi


Este filme tarda a chegar a Coimbra. Se demorar vou ter que viajar. Vens. Não, solitude, não falo contigo.

São raras as pessoas amáveis - aquelas que poderíamos amar dadas as "condições de possibilidade" (Foucault) - deixá-as partir é dar lugar à mitologia de um não acontecimento. São as histórias mais bonitas. Pessoalmente, dispensaria de bom grado.


Para quem tinha dúvidas: Não entrou!

Uma empresa europeia dedicou-se a analisar aquilo que a maioria ruidosa dos portugueses já tinha sentenciado no golpe de vista do sofá. Enganaram-se todos. É que ao que parece a bola não entrou mesmo. Chega de declarações de fé, é simples, vão ver e depois falamos. A prova está aqui (ficheiro para download 2-3 min em www.sinelimite-europe.com/doc/Benf-Port.wmv). Agora, com revigorada certeza, posso reiterar o que escrevi após a partida. Deste jogo fica-nos, acima de tudo, uma defesa abismal em que a genialidade de um senhor guarda-redes aparece a dizer não aos sortilégios do futebol. Seu nome: Vítor Baía.
Obrigado Luís

Balneários

Sou frequentador de balneários há muitos anos. A culpa é sobretudo do futebol. Ao longo dos anos fui dando conta de como as "piadas de balneário" foram ficando fora de tempo. Anacrónicas, pois. Despindo-me, qual etnógrafo, posso dizer que essas piadas estão intimamente vinculadas com de desígnio de afirmação da masculinidade, quer com a afirmação da superioridade masculina pela feminização do outro, quer com a necessidade de exorcizar o "perigoso" homoerotismo a advir da proximidade de corpos nus. A piada mais célebre é sem dúvida aquela que envolve o sabonete. A sua versão mais popularizada envolve um texto acerca das eventuais consequências de se apanhar o sabonete que caiu no chão. Até aqui nada de novo. A questão para que vos quero chamar a atenção é que já ninguém usa sabonete no balneário! Primeiro porque a maioria se basta com o champoo, depois porque os sabonetes líquidos se popularizaram e são muito mais práticos de pôr na mochila - eu gosto particularmente do Vasenol Amêndoas e Mel. Que tenham necessidade de reiterar a masculinidade por esses balneários afora é algo que me enternece, mas, por favor, actualizem-se.

p.s. Conheço pouco sobre os balneários femininos. Se houver aí utilizadoras partilhem notas de campo sobre esta realidade ainda tão pouco conhecida.

histórias

É sabido que eu me derreto por registos intimistas, confessionais, you name it. Razão, aliás, porque volta e meia me ponho a perorar sobre as almofadas que comigo partilham o leito. Mas o que agora vos proponho é, antes de mais, um post bonito acerca da aceitação da perda, num registo que se escusa às construções fáceis do género "I´m beter off". Também pode haver uma dolorosa honestidade nas narrativas de contingência: as histórias que retrospectivamente contamos, as histórias que nos ajudam a viver com eventos - aparentemente - vazios de sentido. Se puderem vão espreitar.

A bola estava lá dentro

Depois de uma exibição seguríssima, Baía, o esteio da vitória, fez face a um desses sortilégios do futebol. Foi um instante em que o país quase paralisou. Eu fiquei sem sangue. Todos falham, raros são os guardiões que conseguem ir a tempo de dar resposta a essa fatalidade de a bola ser redonda - Ricardo que o diga. A Sport Tv passava a repetição, parou no momento crítico em que a bola parece ser já propriedade da baliza e, Baía, ainda de pé, a vê fugir. No café, na mesa do lado, alguém, certamente benfiquista, grita: está lá dentro! Tinha razão. Com qualquer outro guarda-redes a bola "estava lá dentro". Mas, o realizador carrega no play e a repetição continua. O que vemos é uma estirada abismal com que Baía atira a bola para o poste, para depois saltitar para fora dali. Vai-te. Terá dito. Mas, devo concordar com o tipo da mesa do lado. Naquele momento, eu próprio estava disposto a acreditar que a bola estava lá dentro. Sem remédio. Mas não. Baía foi lá buscá-la. Atónita, a baliza ficou-se, a salivar como nunca, sem poder sentir o gosto de tão apetecido repasto. Não se faz.

Que ganhe o melhor


A tua Genebra


"Devo-lhe [a] nostalgia de Buenos Aires. Sei que voltarei sempre a Genebra, talvez depois da morte do corpo."
Jorge Luis Borges, O Atlas, 1984

Seios liminares

Como já aqui analisei demoradamente a auréola do mamilo constitui uma fronteira simbólica da "decência social" no que à exposição da mama diz respeito. Isto para falar das roupas com que, por assim dizer, se sai à rua. Esta foto que oferto aos vossos olhos é interessante do ponto de vista simbólico, dado que subtilmente ultrapassa o princípio que rege os decotes, princípio segundo o qual 90% da mama pode estar exposta desde que não haja vestígios do mamilo. Estes, seguindo esse acordo tácito, só poderiam ser vislumbrados em transparências ou por via do relevo mamilar que uma brisa fria - ou outro estímulo - poderá trazer ao tecido. A transgressão que esta foto nos sugere é atenuada por se tratar de uma foto de praia - reparem na areia que cobre a a pele da modelo-, espaço onde os princípios da rua se encontram flexibilizados e a nudez é sancionada. Ainda assim leio neste retrato um interessante estudo de caso para falar da liminaridade dos seios. E agora, depois de tanto ardor discursivo, não me venham dizer que este texto é um mero pretexto para postar a Laetitia.






"Fragmentos de um evangelho apócrifo"

50. Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor

Jorge Luis Borges, Elogio da Sombra

Para não falar dos primeiros, de que, manifestamente, conheço pouco, quero ater-me à outra escola: "Felizes dos que podem prescindir do amor". Desgraçadamente, também destes pouco sei. Sei se que os invejo. Às vezes. Certamente menos do que seria desejável para ser um deles.

Adiar o azul, adiar o fim

Quando acabei de pintar o Avatares com as cores que ainda hoje tem, logo previ um suicídio - para o blog entenda-se - caso viesse a chegar à conclusão que ninguém me lia: "Sem leitores, deixará de ser um blogue, será outra coisa qualquer". Tinha planeado colorir letras e fundo tudo no mesmo azul, seria um suicídio com estilo, obviamente: "Adivinho-o, esse fim paradoxal em que a escrita insistirá visitando, ainda que na camaleónica certeza da sua transparência(...)um futuro ironicamente azul." Nunca o escondi, os comentários, os comentadores, as palavras de amigos-leitores, os mails, os links, os dados do sitemeter, insultos simpáticos, coisas como estas que por aí vou lendo, são como pão para o blog. Não se trata de nenhuma efeméride, sei que seguiria escrevendo mesmo que só tivesse um leitor diário, mas, que se lixe, apeteceu-me celebrar convosco esse absurdo de estar vivo. O blog, entenda-se.

Assim é mais fácil

Para expor Santana Lopes ao contraditório basta deixá-lo falar sozinho.

Roupas de dormir

Como vais? Ela contou-me que dorme vestida faz tempo. Perguntei-lhe porquê. Silêncio. Explicou-me então que após o fim de uma relação dolorosa deixou de se deitar e adormecer como até aí. Desde essa altura, disse, abandonou os rituais de muda de roupa, o pijama, o body ou a t-shirt confortável, para tão simplesmente se atirar de jeans e afins para os lençóis. Passou a fazê-lo como que implorando ao sono que a resgatasse do mundo dos vivos. Por umas horas. Agora que já não lhe dói tanto essa história, ficou-lhe o hábito de se deitar com as roupas do dia. Esse costume, cuja arquelogia nos envia para um amor perdido, deverá ficar-lhe até que lhe apareça alguém que a dispa em raros beijos, resgatando-a ao mundo dos que se deitam em fuga.

Ícaros que somos

Morreu Christopher Reeve

Nos tempos de míúdo era frequente que qualquer festa de anos tivesse um interlúdio, sempre esperado : aquela hora da tarde em que todos ficávamos a ver o vídeo de um dos filmes do super-homem. Enquanto incorporação emblemática do super-herói, Christopher Reeve tornou-se naturalmente a mais poderosa representação de um poder a toda a prova. Por isso, para o mundo, a sua paralisia surgiu como uma fortíssima expressão simbólica da vulnerabilidade que irmana as nossas humanas condições. Como afirma Arthur Kleinmam, a possibilidade do sofrimento é uma das bases incontornáveis da existência humana; social, psicologica e fisicamente todos sabemos o que é sofrer. Obviamente, importa lembrar que para além dessas contingências que a todos sujeitam, a possibilidade da miséria não está igualmente distribuída no mundo, nem tão pouco a possibilidade de fazer face ao desastre. No entanto, a morte de Christopher Reeve não é apenas a morte de um homem, a morte da sua luta e perseverança, é, creio bem, a queda de um ícaro. Por mais sábios que sejam os mundos criados pelo homem - e seria bom que o fossem - a familiaridade do abismo é insuperável. Fallhamos quando cremos ser possível extirpar de vez esse abismo, falhamos quando fracassamos em criar respostas para resgatar aqueles que lá caíram, falhamos quando nos escusamos a acompanhar afectivamente essas quedas, tantas vezes inevitáveis.

Derrida (1930-2004)

Soube aqui da sua morte. Muito aprendi com Derrida, lendo-o, tropeçando em todo o lugar nas evocações da sua obra. Muito aprendi com as suas ideias, mas, sobretudo, com a radicalidade da sua empresa analítica, um itinerário que nutre e é nutrido por uma desestabilização das certezas, um itinerário que aporta na denúncia da violência que sempre fortifica aquilo que tomamos por certo. Devo-lhe até uma singela relíquia: a sua assinatura que jaz ali na minha estante abrindo uma excelente edição inglesa de um livro seu. Foi ainda agora, em Novembro de 2003. "Quem assina, quando eu assino?" uma das suas perguntas fundadoras. Sobre a conferência que assisti na altura escrevi um post a que dei o nome de Derrida Live. Ironia histórica. Mas como dizia Derrida, o tempo nunca se consuma, há sempre algo à venir.

The Village


Não há hipótese, é de facto um filme deslumbrante. Com a conhecida maestria de quem põe tudo no assador para erguer a arte do suspense, M. Night Shyamalan não deu tréguas a todos aqueles que pagaram o aluguer de duas horas das suas vidas. Muitos, como eu, estavam dispostos a não pagar o resgate para sair da sala.

Numa povoação isolada, regida por um conselho de anciãos, as vidas e vidinhas se vão meneando num quotidiano pré-moderno, onde labores, amores e desamores se entrelaçam com momentos de comunidade - relevam os rituais fúnebres e matrimoniais que juntam toda a povoação à volta de uma mesa. Paralelamente a essa regularidade possível, toda uma mitologia da origem se desenha, e é através dela que se vai desvelando a génese da vila e as razões da sua fatal incomunicabilidade com "as cidades". Tudo parece girar em torno de pureza territorial imposta por um acordo ancestral com "os seres de que não se fala", os que habitam o bosque: ninguém passa os limites da orla da floresta, "nem eles, nem nós".

Muito nos fica deste filme assombroso em que o idílio da aldeia encantada, qual conto de fadas, nos é ofertado por uma magistral fotografia - onde raramente entram vermelhos -, para logo ser desdito pelos violinos, eles sim, senhores de um enredo tenso e enigmaticamente sedutor. Temos um rol personagens e interpretações interessantíssimas. Joaquin Phoenix e Adrien Brody cintilam, mas incontornável é, sem dúvida, a construção soberba de Ivy Walker (Bryce Dallas Howard), mulher bela, maria-rapaz, temerária, que, por devoção, incorporará uma versão romântica do capuchinho vermelho. É revelador como a cegueira de Ivy é tratada de um modo raro, nobre, doce, surgindo-nos na "descrição" da personagem como um elemento mais no seio de tantas outras idiossincrasias. A questão de "ver ou não ver" não faz o argumento refém, não é mobilizada para pôr em causa o sentido da vida, nem tão pouco dá cobro ao exotismo metafísico da cega vidente. Adensando o mistério, é certo, a cegueira está lá, coexistindo de ponta a ponta com essa jornada pessoal em busca da felicidade, do amor, da pessoa única capaz de dar cor à vida - como a certa altura Ivy diz ao pai.
Acho que só com muito estreiteza de vontade se pode chamar a The Village um filme de suspense. Traz muito mais. Ele fala do tortuoso discorrer dos afectos quando tratamos com maior despeito aqueles que mais nos dizem: "muitas vezes não fazemos o que queremos por termos medo que os outros percebam o que queremos". Fala dessa necessidade de fechamento de sentido: todas as vidas, todas as culturas, carecem de ficções mitológicas que excluam outras mitologias, às mais antigas chamamos tradições e identidades, às mais recentes, damos o nome pouco nobre de invenções. A artificialidade/autenticidade é, pois, uma questão de escala e de prisma. The Village fala de não-lugares, de utopias - depurações e fortificações do real - que ora nos lembram as comunidades dos Amish, ora nos transportam para o imaginário da Macondo de Gabriel Garcia Marquez; e, nesse sentido, a aldeia surge-nos como um lugar incontaminado, não para a salvação das vidas futuras, como o sugere o puritanismo religioso, mas como uma ilha criada pela vontade de fazer face ao absurdo do sofrimento (curiosamente, saber viver esse absurdo é para Weber uma das chaves de toda a religiosidade): "Corremos para a esperança, e isso é lindo, mas a morte como o sofrimento faz parte das nossas vidas". Fala-nos também do quão imprevisível é o surgimento da maldade e da bondade entre os homens: haverá sempre um criminoso na mais harmoniosa das comunidades, um anjo pode sempre surgir nas terras desoladas: "tens bondade na tua voz. Não esperava isso".
Um filme que, para usar a expressão de um amigo, me deixou de rastos.

Gael Garcia Bernal

Cael Garcia Bernal
Esta foto impunha-se. Primeiro porque o Bernal é um bom actor (representa desde puto), fez filmes que apreciei (particularmente Y tu Mama Tambien e Amores Perros), é um guapo muito giro (factor não despiciendo no seu sucesso), e, se bem me lembro, vilipendiou Bush na mesma cerimónia dos óscares em que o Michael Moore se dirigiu ao presidente com o célebre "shame on you". Mas acrescento mais duas razões:
1- Há muito que este blog só exibia fotos de mulheres, e, portanto, estava mais que na altura de presentear as leitoras, justificando, igualmente, o estatuto do avatares enquanto membro simpatizante na Blogayesfera.
2- a) Este país anda demasiado sombrio, b) o Verão já se foi e, por isso, nada melhor do que uma foto alegre e soalheira. Sem que a alienação das realidades seja uma solução, talvez esta foto nos sirva para glosar a sentença de Lorca:
No meio de gravíssimos conflitos sentimentais
e por mais esmagado que eu esteja pelo amor,
a sociedade, a fealdade, a mim próprio impus
como regra de vida a alegria , e aguento-me.

Triste

É absolutamente aviltante o conjunto de pressões governamentais na base demissão de Marcelo rebelo de Sousa dos comentários da TVI. E não é que lá conseguiram levar a deles avante? O Professor andava demasiado crítico do governo Santana, não o expunham ao contraditório, diziam. E agora, o que se segue? Talvez esteja na altura de se proceder ao silenciamento de Miguel Sousa Tavares e Pacheco Pereira. Sim, porque isto dos comentadores dizerem o que pensam terá que acabar... Agora importa que fiquemos atentos aos possíveis conluios entre o governo e Media capital nos negócios que se seguem.

Não vos parece que este país anda a viver uma democracia um bocado estranha? -- to say the least.

Vetos assassinos?

(Público)O Conselho de Segurança das Nações Unidas preparava-se ontem para votar uma resolução pedindo o fim imediato da operação que Israel está a levar a cabo no norte da Faixa de Gaza. Ontem, ao sétimo dia dos "Dias de Penitência", tinham morrido 77 palestinianos entre eles um grande número de civis.

Resultado: A resolução foi vetada pelos Estados Unidos.

Despedida

Despedida

Hão de erguer-se entre o meu amor e eu
trezentas noites quais trezentos muros
e o mar será magia entre nós dois.

Apenas haverá recordações.
Oh tardes merecidas pela pena,
noites esperançadas ao olhar-te,
campos do meu caminho, firmamento
que vejo e vou perdendo...
Definitiva como uma mármore,
a tua ausência irá entristecer as tardes.

(Castelhano)

Fervor de Buenos Aires, Jorge Luis Borges

A verdade é que alguns poucos argumentos me perseguiram ao longo do tempo. Sou decididamente monótono.

"Prólogo", O Relatório De Brodie, Jorge Luis Borges

Rurality Show

A Quinta das celebridades. Pela selecção dos concorrentes - excêntricos, palavra simpática - há ali uma nótorio esforço na direcção de um freak show. O pujante "out of context" trazido pelo ambiente rural fará o resto da festa. Ainda não vi nada, mas pelos ecos das conversas de rua percebo que vou ter que resolver essa ignorância a breve trecho. Pelo muito que aí se fala é já óbvio que temos fenómeno social.

Passagens

Hoje vou a um casamento. Na verdade, é o primeiro a que vou. É estranho como consegui fugir durante tanto tempo a esses rituais de confirmação. A minha pouca vontade e o facto de genealogicamente só estar em Portugal há uma geração ajuda. Mas desta vez algo de novo aconteceu: já não é um daqueles casamentos de de família, são amigos meus a casar-se.
Simbolicamente, poderei dizer que a minha geração começa a casar-se hoje. Como não estou para vos pesar com devaneios, e porque ainda tenho me vestir, fica uma imagem para não darem a visita por mal empregue:

(Adriana Lima 1982- *)

*É assim que nas bibliotecas fazem a datação dos autores. Acho terrível, aquela data em suspenso expressa uma pressa em fechar o assunto, e reforça a mitologia que os autores importantes estão mortos. Esses sim, com os ficheiros devidamente datados.

Escrita erótica

Está a passar de moda. É pena. Refiro-me aquelas T-shirts justas com uns dizeres sobre as mamas. Há nelas (nas T-shirts, bem entendido) uma honestidade social que comove: "É para olhar, certo? (com discrição, obviamente)".
É brilhante, quem as usa pode fazer das duas uma: 1- revelar as suas ideias e passar mensagens, capitalizando assim a atenção que os relvevos costumam cativar 2- Pôr uns escritos interessantes que chamem a atenção dos mais distraídos para esses universos de significado que se escondem debaixo da T-shirt.

Por outro lado, para quem olha poderá estar resolvido parte daquele constrangimento de deixar cair demasiado os olhos, haverá sempre a desculpa: "interessante..., mas quem disse isso foi o Althuser?". E depois é sempre uma boa forma de conhecer as pessoas pelos dizeres que guardam junto ao peito. Finalmente, os ditos sobre os seios sintetizam uma união entre a estética erótica e a antropologia, está lá tudo: o fascínio de tentar perceber um mundo como um texto, a aspiração de ler para lá das evidências.