E não,

Não me esqueci de responder às restantes FAQ's.

P.S. Saindo dos domínios bloguísticos, pus-me a tentar resgatar a questão que mais frequentemente me é colocada pela minha mãe. Só esta me pareceu partilhável: "Não achas que ficavas melhor sem esse brinco?" (nesta frase "esse brinco" é, obviamente, uma metonímia para todos os brincos).

Democracia e seus naufrágios

Às vezes apetece mesmo perguntar quem votou neste governo. Curiosamente no caso português existe uma resposta, desconcertante é certo: ninguém votou, nem em Santana Lopes para primeiro ministro, nem em Paulo Portas para líder de facto do governo português. Para mais não dizer, veja-se o que nos revela o rescaldo da passagem do barco Women on Waves:

Análise feita na TSF a partir do Barómetro TSF:
"Correu mal ao Ministro de estado, da Defesa e dos Assuntos do Mar a gestão do dossier «Barco do Aborto». Mais de 56 por cento dos inquiridos afirmam que Paulo Portas geriu mal o caso contra apenas 30 por cento que diz que Portas esteve bem.

O barco do aborto feriu também a legislação portuguesa. Os resultados do barómetro indicam que quase 60 por cento dos portugueses querem uma alteração à lei e 60 por cento querem que a prática do aborto seja descriminalizada.

Mais expressiva é a defesa em torno de um novo referendo sobre o aborto. 77 por cento concorda com uma nova consulta.

Apesar do Governo invocar um compromisso eleitoral para não voltar a referendar tão cedo o tema aborto, o facto é que do universo de votantes PSD, 7 em 10 dizem sim a um novo referendo."

Divinas conspirações

O caro Tiago Cavaco há dias lembrava, espirituoso, que toda a toalha tem a sua mancha: "O Ricardo Araújo Pereira faz rir como poucos e assina também textos para o HermanSic, o pior programa de televisão no ar. O Bruno Sena Martins tem um dos melhores blogues do mundo e está atracado à miséria ondulante do Borndiep". (Embevecidamente lisonjeado pela primeira parte. Quanto ao mais, um dia falaremos longamente Tiago, certamente num interessante evangelismo dialógico). Mas no fundo esta teoria das manchas insuperáveis parece ligar-se um cepticismo antropológico que perpassa pela Voz: a iteratividade da queda, ou seja, repetimos incessantemente aquilo que nos separou da graça de Deus. E assim tudo lá se resolve quando o Tiago conclui quase desassombrado, enquanto se junta ao clube "Esta é a humanidade à qual me orgulho de pertencer."

Mas, na verdade, lembrei-me de evocar a Voz do Deserto porque me ative a este post "Tive uma namorada que me acusava de tomar sempre o partido dos outros. Parece que, quando relatava algo desejando encontrar em mim um aliado contra o mundo conspirador, eu optava por alinhar no conluio." Bem apanhado. É que eu também já tive esse problema. Por princípio - democrático, ou algo que o valha - começaria sempre a defender quem não está presente. Aprendi mais tarde o quanto essa forma se inconcilia com um certo "dar colo", quando, afinal, às vezes as teorias da conspiração só servem para isso mesmo. Não são paranóias, apenas leitmotivs para abraços.

Ficantes

O conceito brasileiro de ficante, o amante ocasional que vai ficando, é uma óbvia negação da narrativa romântica. Isto porque esta narrativa se encontra fortemente fundada na ideia de arrebatamento emocional, havendo nela pouco espaço para a estetização do hábito. O ficante é uma espécie de terceira via entre a relação séria e os encontros furtuitos. É, acima de tudo, um espaço liminar entre duas lógicas relacionais com mais escola, a relação amorosa, namoro se quisermos, e a itinerância erótica - cuja consagração tinha até há bem pouco tempo a marca patriarcal, incorporada na figura do marialva. No entanto, se avançarmos com um uso insuspeito do termo há outro tipo de ficantes: aquel@s que se ficam solitariamente vivendo de ideais.

Fumo branco no Largo do Rato

PS já tem Secretário Geral.
George Clooney
Fala-se de um possível acordo pré-eleitoral com os irmãos Cohen.

Confia em mim

Neste mundo quotidiano,
que é tão parecido
com o livro d'As Mil e uma Noites,
não existe um só acto que não corra o risco
de ser uma operação de magia,
não existe um só acto que não possa ser o primeiro
de uma infinita sequência.

A Cifra Jorge Luis Borges

Buscar os momentos mágicos de onde nascem histórias sem fim é bem mais do que falar "daquela tarde em choquei com Lara no talho", é bem mais do que pensar "na urgência que me fez buscar entremeada para grelhar", é mais. É a tragédia de perceber que a magia pode vir de todo o lado e, logo, de nada te serve que a esperes outra vez no mesmo talho. Poderá ser na secção de enlatados do Lidl, poderá não ser Lara a razão da tua espera. No entanto, eu sei que ainda lá irás umas tardes mais espreitar a montra, fingindo que procuras indeciso um entrecosto. Por uns tempos não conseguirás ver magia para além de Lara, para além daquele talho. Mas olha, não te assustes com as "sequências infinitas" de Borges. Elas estão sempre começar. Por aí. Consta.

Deixa-os pousar

Têm-me chamado a atenção com doce ironia: "então agora já não escreves posts sobre futebol?" Seja feita a vossa vontade.

O Benfica, após ter perdido a supertaça e se ter conseguido apurar para a Uefa, relegando o o Anderlecht para a Liga dos campões, soma três vitória seguidas. Na luz já se respira um ambiente de euforia, talvez só comparável com a abertura dos saldos primavera-verão na Zara. O pobre Peseiro é um injusiçado, bem sabemos que tinha de longe melhor equipa no Nacional da Madeira do que tem no Sporting. Fernandez - suspiro angustiado - demora a calibrar a máquina. Proponho ao pinto da Costa que lhe pague uma viagem a Londres para ter uma acção de formação com o maître. Até dói a alma ver o Porto a jogar. Como sou masoquista ma non troppo tenho sinceramente evitado expôr-me a jogos que podem ferir a minha sensibilidade vitoriosa. Jorge Costa foi peremptório: "fazer pior é impossível!" Quando o Porto não ganha é todo um desporto que perde as suas melhores tradições. O altruísmo manda, por isso, que comecemos a esmagar a breve trecho. No fundo, o costume. Vá, chamem-me conservador.

A ideia errada


Os jogos paraolímplicos constituem uma singular visibilização das pessoas com deficiência, cujas vidas e experiências se encontram largamente silenciadas nas agendas das nossas sociedades. Por exemplo, quem diria que em Portugal existem 636 059 com alguma deficiência? No entanto, creio que na maior parte das vezes a mensagem que se extrai dos jogos paraolímpicos é, senão a mais errada possível, pelo menos a que menos interessa à transformação das suas condições de existênca. As histórias dos atletas são sempre descritas como histórias de heróismo, como expressão de uma capacidade extraordinária para superar as barreiras. E, como tal, essas histórias representam, e bem, as muitas e árduas lutas travadas pelas pessoas com deficiência na vida de todos os dias. Ok, essa exaltação, essa homenagem é fulcral. A questão central é que seria bem mais vital que as próprias barreiras sociais fossem problematizadas, algo com que a lógica do desporto não trafica, sob pena de constituirmos sociedades onde a integtração social só é possível para os "heróis da adaptação", para as figuras heróicas que os filmes tanto gostam de retratar. A estrita exaltação das histórias individuais de superação cria uma mitologia do possível, nesse sentido assegura uma hegemonia, um status quo, ao criar uma ilusão que para a esmagadora maioria é cruelmente desmentida nos mundos da vida. Não podemos, por isso, esquecer jamais as condições de impossibilidade que estão postas às das pessoas com deficiência. Os significados dimanados dos jogos paraolímpicos devem lembrar que não temos todos que ser semi-deuses para termos aquele mínimo onde a felicidade é possível. Glorifiquem-se as narrativas de superação, mas visibile-se essa cruel opressão - negação de igualdade de oportunidades- que se abate sobre as mulheres e homens com deficiência, mortais como nós.

Canções

Em tempo de Ídolos é uma piada que se houve com uma certa frequência: "gostas de cantar? então porque é que não aprendes?" Esta ratoeira humorística tem como postulado a ideia que devemos fazer aquilo que sabemos bem, ou então aprender a fazê-lo antes de nos expormos perante os outros. Mas o verdadeiro problema está em fazer bem/aprender aquelas coisas que só fazem sentido com e perante os outros. Podemos cantar no banho, mas não podemos viver afectos a olhar estrelas sobre a erva de uma vala (para utilizar a expresão de Baudelaire). Aí somos todos muito bons. Eu sei que sou.

É hoje

either of two points on the celestial sphere where the ECLIPTIC and the celestial equator intersec
Jeffrey K. Bedrick
22 de Setembro: O equinócio de Outono ocorre às 17:30 horas.
Preparemo-nos
para as noites longas. Se estás perdido não leves ninguém contigo. Ou leva. Mas avisa. Tu é que sabes.

Lamentável

Portugal desenvolveu um rito anual de tortura, nesse evento, laboriosamente montado ao longo de um ano, são atirados para a arena os candidatos a professores. O atraso deste ano nas colocações, com sucessivos momentos patéticos, é só mais um capítulo de uma realidade bem mais duradoura: a lamentável situação de precariedade a que ano após ano os professores portugueses estão sujeitos. A capacidade de enfrentar migrações forçadas, incerteza, distância, saudades e o desemprego, desgraçadamente é, em Portugal, requisito mínimo para se leccionar. Lamentável, tudo isto.

P.S. Vamos então ver se a capa do DN volta a esconder as nossas governamentais misérias .

Morreu Eddie Adams

Foto: Eddie Adams
execução de rua

1968: a execução de um Vietcong, foto que seria premiada por um Pulitzer em 1969

Podemos perguntar como consegue um fotógrafo disparar a máqina num momento destes, absolutamente dramático, e talvez, como na foto de Kevin Cater, até nos ocorra perguntar de que lado está o abutre. Mas as reservas, creio, esvaem-se quando consideramos o papel desta imagem cruel para a politização em torno do Vietname. Portanto, mais doo que pensar na feitura do momento, será importante equacionar em que medida os retratos culturais actuam nos mundos da vida. As consequências da representação, pois claro. A foto é poderosíssima, adivinhamos o desfecho, como o advinha a vítima e o homem em fundo. Instantes antes da morte vemos um rosto agonizante, que, inevitavelmente, faz lembrar aquele que Goya nos oferece na no "3 de Maio de 1808". O sofrimento antecipado, o sofrimento vivido e o terror do enigma que se segue - a morte- confundem-se num "flash" que perturba. A violência dos homens e a violência ontológica da morte. Teremos que lidar com a segunda e nunca nos conformar com a primeira.

Sense

Gostaria que me desses a tua face para beijar...
Sei como faria. Insistiria com meus lábios até que desistisse em mim a falência derradeira do sentido, e para rematar essa mais do que profetizada passagem sobre lajes polidas pelo nada, a que com toda a probabilidade chamarei de vida, executaria um beijo, que seria de despedida, se soçobrasse então alguma esperança.

Mas, ainda que disposto em consentir na piedade de um qualquer anjo, não mistificarei as palavras até à sua impossiblidade, carregando no costume de tecer silêncios entre linhas que não lês.

Para o indígena em que penso quando aperto os atacadores no meio da rua, sei que jaz sobre cada escrito da minha lavra a suspeita de um amor pairando algures, e que mesmo quando não desvelado numa penitenciosa cobardia, por sua arte singular vinga em encontrar refúgio num qualquer peito, quase sempre o meu.

Diz-me o indígena por sobre os sons da floresta mitigada pela ganância que ainda que navegasse para o armistício de um sentir, ainda que meneasse em leveza, um pecado falaria em mim, entregando-me a flagelações de memória e esquecimento.

Nunca desejei ser o cavaleiro ajoelhado no campo de batalha com uma seta atravessada no torso. Eu apenas gostaria dessa face para beijar, sem espanto desenhar a curva rósea dos meus lábios disputando o sabor da pele à esmaecência do calor, e era isto que gostaria de anunciar sem falar de amor. Mas não consigo.

O cavalgar do tempo no meu dorso, arreganha na sua pujança a miragem do não-querer. Após recompor os atacadores e convocar o caminho, volta a falar-me o indígena de sempre. Poderia visitá-lo com o desencanto revoltado de um Colombo tardio, ou não sofismar mais, assentindo que somos o mesmo, que somos coevos com o tempo e aí fazemos prova de ser, mas que apesar disso, tanto ele como eu, num vago e fugidio sentido, há muito deixámos de ser. Querendo-te ainda.

Descampados

Ontem em conversa desenterrei uma história que muito fez rir ao meu interlocutor. A mim nem por isso. Foi para aí há uns 12 anos, dedicava eu parte das minhas férias para andar em campos de trabalho promovidos pelo IPJ.

Logo à chegada ao ponto de encontro conheci uma rapariga, toda gira, alentejana, que se chamava Isa. Dada a minha timidez, típica de adolescente muito dado ao quarto, pouco avancei no minha aspiração. Mas, por sorte, lá consegui captar a simpatia da irmã mais velha, com quem fiz amizade após termos passado uma tarde a vigiar incêndios. Percebendo que à minha inépcia se aliava um interesse terunurento por Isa, ou talvez para não ter que aturar os meus devaneios sobre florestas e mitos, a irmã - não me lembro da graça - trocou o turno para que eu e Isa pudéssemos ir juntos vigiar os incêndios. Assim se fez, ao bom estilo adolescente entabulámos conversas interessantíssimas "então o que é que vais fazer quando acabares o 12º?", "isto é um bocado monótono, nem um fogo!", "bonita mata...", "já ouviste falar de Max Gluckman?", "então estás em ciências...". O que é certo é que criámos alguma empatia que se foi adensando à medida que os 15 dias do campo de trabalho caminhavam para o fim. Já nos últimos dias, ficou alinhavado que na noite derradeira eu iria ter com ela a um local onde a malta costumava tocar umas guitarradas à volta da fogueira. Seria a nossa despedida, seria a minha oportunidade para um beijo, o ensejo para adormecer com o meu saco de cama ao lado do dela.

Ao fim da tarde decidi ir retemperar energias para a tenda. Quando acordei era já manhã e o acampamento estava a ser desmontado. De Isa nem a morada.

Desde então acordar em acampamentos desfeitos ameaça tornar-se uma metáfora da minha existência. Brinco (e daí...), mas na altura não achei graça.

Sansão e Dalila

Deslumbrante. A intensidade emocional da cena, veja-se o torso caído de sansão, o seio ainda despido de Dalila. Mas ao olhar para esta tela uma coisa sempre me perturba: perceber amor no olhar de Dalila.
Rubens
Sansão e Dalila

P.S.G: 0 Chelsea: 3

A inveja também é isto

Ai, queria tanto que o Fernandez se apressasse a refazer um Porto demolidor..., já não estava habituado ao futebol como um jogo em que há três resultados possíveis.

Combóios e amantes

Numa réplica a um post aqui escrito, o virtuoso Jorge (agora no Blog de EsquerdaII) escreve um lindo texto sobre combóios. Jorge, também eu sou louco por combóios e por todo o simbolismo que deles emana, também eu me deleito com despedidas românticas na estação. Essas despedidas são mágicas, mas também podem ser dolorosamente mágicas, e, por isso, esses palcos para a perda, na sua vocação para a posteridade, insistem em arder com maior perseverança. Nos filmes é mais fácil. Quando me acontece experenciar tais momentos tento temperar o simbolismo romântico com um cinismo defensivo. Foi o que fiz naquele post. Nada que dure. Nada em que eu acredite (não sei se devia).

[vários blogs têm respondido às FAQ's, far-lhes-ei referência proximamente]

As Respostas

1- "Não achas que te expões demasiado com o que escreves no blog?"

[Começo então respondendo à primeira daquelas perguntas que identifiquei como as mais frequentes . Depois continuo.]

Acho que me exponho, sem dúvida. Há elementos da minha vida que são aqui despudoradamente desvelados: sítios onde vou, pessoas que conheço, coisas que faço, coisas que nunca fiz... No entanto, não me aflige expor elementos das minhas vivências, eventos, fracassos, aspirações, até porque a minha condição de ilustre anónimo faz com que eu tenha muito pouco a perder, não havendo, por isso, algo próximo de uma "imagem a manter". Obviamente há pessoas que me conhecem pessoalmente de diferentes meios, e, ao passarem por aqui, têm acesso a dimensões que as nossas identidades parciais nem sempre mostram. O velho drama da mãe poder ler o nosso blog. Mas isso deve ser como reunir amigos de quadrantes diferentes numa mesma festa, ou pais e amigos, ou ex-namoradas, que assim ficarão a perceber as diferentes pessoas que nós somos nas diferentes sociabilidades. Nas diferentes circunstâncias, para glosar Ortega y Gasset.

Mas há uma outra dimensão que eu acho que se manifesta de um modo porventura mais subtil, e talvez esta seja a exposição que eu menos controlo: a expressão dos meus estados de alma. Quer pela escolha dos temas para posts, quer pelo modo como lhes pego, creio que é possível perceber se ando tristonho, se melancólico, se apaixonado, se contemplativo, se nostálgico, se lamechas, se combativo, se primaveril... Mas, para responder à pergunta, acho que faz parte da minha vontade de aqui escrever esse ímpeto - quiçá mais narcísico - de, nalguma medida, falar de mim e contar as minhas histórias. Por isso a exposição pessoal é uma condição de existência do "Avatares" e não um mero efeito não pretendido.

Eis que começa

A nostalgia do Verão.

Laetitia Casta

Não fiques triste, ele volta.

1 ano

Eles são muito bons, parabéns rapazes

José Cid

Retrato do artista enquanto jovem
Segundo parece, o rasgo ousado e inventivo deve-se aos criativos da JW Thomson. Mas para mim o mérito pessoal vai inteiro para José Cid. Refiro-me, é claro, ao recente anúncio televisivo da Lipton Ice Tea. Nele, o afamado cantor cai de para-quedas, literalmente, impondo a sua presença e talento musical a um grupo de convivas, que, atónitos, observam o seu patétito, revelado ora com um muito jovem "tá-se", ora com umas guitarradas de eurovisão que não lembrariam a um sonho húmido de Bach. Seguem-se uns instantes de um maravilhoso silêncio constrangedor, um incómodo hilariante capaz de nos fazer lembrar aqueles momentos de deliciosa agonia protagonizados por david brent (ricky gervais) na comédia britânica, The Office. Caído do céu, José Cid, a ex-estrela internacional de rock sinfónico, apresenta-se como uma personagem sem noção do seu próprio ridículo, patética, inconveniente. Mas ao sujeitar-se a aparecer neste anúncio, José Cid, o homem, mostra estar profundamente esclarecido do seu lugar no mundo e do capital de anedota que o seu nome suscita. Assim, este spot que José Cid lega à história surge como uma auto-paródia biográfica, uma auto-ironia que reverte todo patético e que nos reconcilia com momentos tão marcantes como com aquele LP em que o cantor aparece nu na capa. Ridículo e triste é mesmo o João Braga a cantar fado.

A Xinha (via comentários), a Rita e o Tolentino (Via mail) sugerem que eu responda às perguntas que identificadas num post recente como as mais frequentes: as perguntas que que a minha "condição de blogger" - whatever that means - mais suscita. Deixem-me pensar sobre o assunto, é que há ali uma questiuncula algo complexa.

Masoquismo antropológico

"Vítima que sou de uma dupla enfermidade, tudo o que vejo me fere, e censuro-me sem cessar de não observar o suficiente."
Claude Levi-Strauuss "O fim Das Viagens", Tristes Tropiques


Por vezes, tentar perceber os trilhos seguidos por este mundo onde a vida se abastece assemelha-se a uma forma de masoquismo antropológico. Para sua desgraça, Lévi-Strauss chegou tarde demais aos trópicos, já contaminados pelo ímpeto destrutivo do Ocidente. Então como agora, percebemos que o olhar ferido pelas agruras do mundo jamais se poderá bastar com a contemplação, ou com o cinismo da análise distanciada. O masoquismo antropológico não é necessariamente um cepticismo sobre o homem, deverá ser, isso sim, o doloroso deambular sobre as ruínas, o doloroso resgate de insterstícios de esperança capazes de dar alento a outras viagens.

Before Sunrise

Jesse: Well, we could say goodbye now. Then we wouldn't have to worry about it in the morning.
Selene: Now?
Jesse: Yeah. Say goodbye.
Selene: Bye.

Antes do amanhecer

A segunda fase da revolução industrial fez proliferar os caminhos de ferro. A economia agilizou-se, pelo crescimento de sector metalúrgico e pelo impulso que a melhoria nos transportes conferiu ao comércio. Foi também aí que começaram a proliferar as estações de combóio, espaços eminentemente modernos que detêm, até hoje, uma fortíssima carga-simbólico-romântica nas despedidas, capital indisputável pelas tímidas pretensões da indústria aeronáutica. Para a escola romântico-lamechas em que parte substancial da minha afectividade se filia, as estações de comboio representam, logo a seguir à exploração do proletariado, a mais gravosa consequência da industrialização. A liberalização inconsequente da tortura sentimental realiza-se ali impunemente. As estações de combóio são, por isso, uma espécie de Cofee-Shops da perda.

Um Bom Partido


Depois do debate de ontem não tenho dúvidas, este homem à frente do PS ia contribuir em muito para revigorar a democracia Portuguesa. Tem garra, sabe o que quer. Pena que o aparelho do PS, tão sôfrego de tachos, vá privilegiar a esquerda moderna a la Sócrates: uma esquerda marcada pela nostalgia do poder, uma esquerda que, por isso, contra aquilo que propala, é uma esquerda voltada para o passado.

Geração Borndiep

Gostaria de pensar que depois de uma dormência pós-revolucionária emerge em Portugal uma geração politicamente engajada e inventiva. Falo de uma geração nutrida por uma solidariedade transnacional e fortemente apostada na desestabilização trazida pela construção de uma "legalidade inesperada". Chamo-lhe a Geração Borndiep, um conceito que se situa entre uma metonímia sócio-política e um wishful thinking.

FAQ: Frequently asked questions

"Não achas que te expões demasiado com o que ecreves no blog?"
"Achas mesmo que o que dizes é assim tão relevante para ser partilhado?"
"Não achas que perdes demasiado tempo com o blog?"
"Porque é que não arranjas uma vida?"

Setembro

Não Eliot, não é Abril o mais cruel dos meses. Para mim desde os tempos de escolinha que Setembro se distingue pela sua vileza de modos, os modos de vida que acolhe e promove. Embora a viva de um modo já mais distanciado, a cronologia dos anos lectivos continua dizer-me muito. Era em Setembro que os livros escolares se punham na mochila, em que torcia por um professor de educação física afecto aos desportos com bola, era em Setembro, enfim, que eu rezava para que calhassem meninas giras na turma - e calhavam, mas só a contemplação distanciada saía privilegiada. Setembro era o mês em que se re-inauguravam os eixos onde as minhas expectativas e possibilidades se jogavam. Assim, pelo hábito dos anos, quando chega setembro sei que busco referências, e lá dou por mim qual ave não migratória incapaz de esquecer as estações que passam e o sul que espera.

On Waves


Há tempos falei-vos de uma mulher que conheci, referia-me a Rebecca Gompertz, fundadora da Women on Waves. Ela está agora na crista da onda. Neste preciso momento está ao meu lado a falar ao telemóvel. Em poucos diálogos é fácil perceber o quão labirínticas e sombrias são as faces daquilo a que se chama "autoridades portuguesas". Sem comentários.

As mulheres (de) Ideais

Os homens sempre tiveram dificuldade em lidar com uma certa estirpe de mulheres: as mulheres que vivem com - e de - ideais. Muito se poderia intentar como explicação: escavações psicanalíticas, sociobiológicas, teoria queer, etc. Mas, na verdade, esse desconforto pré-relacional mais não é do que um ternurento medo: o pré-sentimento de jamais poderem vir a ser o núcleo central do ideário de uma mulher. Para eles as mulheres de causas padecem de um excesso de sentido.

The cruelest month

Não Eliot, não é Abril o mais cruel dos meses. Para mim desde os tempos de escolinha que Setembro se distingue pela sua vileza de modos, os modos de vida que acolhe e promove. (to be continued)

Este blog anda em serviços mínimos. Regresso em breve para pôr mais carne no assador.