Ana

A vida amorosa dela tornou-se mais avisada desde que aprendeu a desconfiar de quem não hesita perante um beijo. Ele hesita, muito, e por isso precisa de quem a beije também em medo, com os olhos fechados.

Idas e voltas

Assina a Petição aqui
Sentado num cais à espera de um barco. Assim passei o meu fim de tarde. Chegou com histórias de alto mar (12 milhas). Os jornalistas acotovelavam-se. Falta muito? Inquiriam. A lua estava linda.

Sempre à espera. Daqui a dois anos muda, dizem. Triste país heroicamente "defendido" por alguém que recebeu pelos anos um Estado para brincar. Esperava-se. Com a vinda da Women on Waves seria grande a nossa vergonha perante a Europa. A vergonha foi inflacionada com uma decisão que poderá ser um tremendo tiro no pé, além de representar a primera fractura séria na coligação governamental. Depois das guerras preventivas vêm as não-viagens preventivas. A lei internacional? Há que atalhar. Não era suposto a democracia prevenir o despotismo? Ah, Bruno. Naíve. Como dizia uma deixa lindíssima de um filme, só podemos recuperar a dignidade onde a perdemos. Portugal precisa urgentemente de recuperar a dignidade onde a perdeu. Na sua democracia.

Já que falamos de democracia. Há tantas vozes por ouvir! Por exemplo, a das mulheres desesperadas que não param de telefonar para a linha aberta da WW. Eu queria lembrar que a lua estava linda.

sms

Manif de apoio entrada do navio Women on Waves em Portugal. Domingo 29 Lisboa. 15:00 Ministério defesa-restelo. Passa sms.

Espantoso

"Lisboa, 27 Ago (Lusa) - O Governo deu hoje uma orientação ao chamado "Barco do Aborto" para que este não entre em águas territoriais portuguesas, alegando motivos de "respeito pelas leis nacionais" e questões de "saúde pública".
O secretário de Estado para os Assuntos do Mar, Nuno Fernandes Thomaz, disse à agência Lusa que "as autoridades portuárias e de tráfego comunicaram hoje em tempo útil ao barco, através do seu capitão, ao armador e ao cônsul da Holanda que este não deverá passar em mar territorial português".
A mesma fonte disse que esta orientação visa fazer respeitar o quadro jurídico português, já que, para Nuno Fernandes Thomaz, o barco viria "incitar a actos contra a lei" portuguesa.
"É uma questão de legalidade e não de moralidade. Aceitar que terceiros viessem violar a nossa lei tornaria para nós mais difícil exercer a autoridade com os portugueses", sublinhou."

Portugal entrou para história como o primeiro país da União Europeia a impedir o barco da Women on Waves de entrar nas suas águas territoriais.

Os génios invejados

Nas páginas da visão António Mega Ferreira fala de um dolorso drama pessoal. A inveja de Chico Buarque. Inconsolável, conta na sua crónica o quanto esse sentimento o consome: o chico é um músico e letrista genial, é bonito, tem olhos verdes, suscita há decadas os suspiros de tudo que é mulher, escreveu recentemente um livro - Budapeste - que a seu ver se instala entre as melhores narrativas deste século, e, aos 60 anos, ainda joga à bola com os amigos. Há invejas bonitas de serem contadas. Neste quadro que destroça o ego de qualquer um, pouco se me fica, ou restar-me-á, porventura, a tristíssima consolação de ainda jogar à bola com os meus amigos.

Não!

O sorteio acabou de o ditar: o F.C. Porto vai enfrentar o Chelsea de Mourinho na fase de grupos. De um lado o sublime campeão europeu, do outro, o genial Mourinho, Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira e os milhões de Abramovich. Os jogos olímpicos da era pós-moderna estão prestes a começar. Infelizmente, para mim começam com uma tragédia à antiga. Caramba, Zeus, não se faz.

O meu quarto

Descascar uma maçã verde. Esvaziar caixas de iogurte. Atirar papel higiénico molhado às paredes. Ler sentado. Ler deitado. Rebolar no colchão. Trincar bolachas da proalimentar. Limpar as "vestes" vindas do banho. Escutar rangeres de um cd. Fixar o tecto. Brincar com a persiana. Descalçar uma sandália. Teclar no telemóvel. Limpar o pó. Carregar no teclado. Puxar o bloco de sonhos. Abraçar as almofadas. Lembrar-me do tanto que amo lá fora. Dormir.

Há quem use os verbos no infinivo só para evitar os pretéritos...

Entabulações romancescas


         Delicioso                    Interlúdio                    Próximo

Incesto, pois claro

Jennifer Connelly
Jennifer Connelly e o seu filho
Esta foto é lindíssima. Nela a beleza e a beleza da maternidade provam não serem mutuamente exclusivas. Há aqui algo que me faz lembrar o apelo que um dia ouvi um poeta clamar, lá no alto de um andaime:
"Ei Puto, não queres trocar a tua mãe pela minha?"

Women on Waves: vinde


Segundo se noticia, em breve chegará a Portugal o barco-clínica da Women on Waves, uma organização que procura chamar a atenção para as consequências do aborto ilegal, prática bem conhecida entre nós como o "aborto de vão de escada":
Every 6 minutes somewhere in the world a woman dies needless as a result of illegal, unsafe abortion". (...) At least 20.000 illegal abortions are performed in Portugal each year. As a result of complications of these illegal abortions around 5000 women are attended in hospitals every year and approximately 100 women have died unnecessary in the last 20 years(figures of Portuguese health ministry, information AFP)...

Este barco peregrino actua no respeito do quadro legal, segundo o qual, uma vez em águas internacionias, deverá será feita valer a legislação do país que dá a bandeira, neste caso a legislação holandesa. E será em águas internacionais que, por recurso à pilula abortiva e sob acompanhamento médico, se realizarão intervenções às mulheres que assim o desejem. Estas mulheres deverão também cumprir um conjunto de condições, a primeira das quais: não ultrapassar as 6 semanas e meia de gravidez.

Esta inciativa parece-me uma oportunidade única para que os ventos da mudança soprem enfim. Como já aqui refri sou contra qualquer posição facilitista em relação ao aborto, que, creio, será sempre um tema difícil, o contrário seria ignorar o outro lado: o complexo estatuto de uma vida humana em germinação.E por favor não venham com "a barriga é minha!". No entanto, entendo não ser sustentável o continuado "desviar do olhar" em relação às milhares de mulheres que, sem possibilidades de recorrer às clínicas espanholas, põem a sua saúde em risco, sujeitando-se a experiências (ainda mais) traumáticas no seio de uma indústria underground. Uma rede clandestina que, na maior parte dos casos, não reúne um mínimo de condições de saúde e de acompanhamento. Na União Europeia só a Polónia, a Irlanda, Portugal e Malta continuam a ignorar o problema, ignorando igualmente algumas recomendações da União Europeia sobre os direitos das mulheres. Parece que o debate para a mudança da legislação, planeamento familiar, introdução da educação sexual e afins voltará a dar à costa. E isso, estou certo, é mais importante que os abortos que de facto venham a ser feitos.

Chegar lá

"Dedico esta medalha aos deficientes portugueses"

Para mim os jogos olímpicos constituem oportunidades raras para conhecer melhor algumas modalidades e para me actualizar com o estado da arte de outras: os valores emergentes, os eventos recentes, rivalidades pulsantes, etc. No entanto, estou sempre num estado de nervosa tensão a ver progredir os atletas. É que - fundamentalmente nos desportos que têm o seu momento alto nos jogos - assistimos a terríveis reality shows, momentos em que vidas se jogam - literalmente - à frente dos nossos olhos. Não duvidemos, estão lá os sonhos de criança, as renúncias difíceis, as dietas árduas, os treinos intensivos, as lesões, as noites sem dormir, as dores, tudo consagrado a momentos únicos feitos de mil sortilégios.
E de repente, acontece: há um florim que fere a campaínha, as pernas que não respondem, uma falsa partida que elimina, uma trave que cai sobre o colchão, um disco que foge, um tiro que falha, um centésimo de segundo que põe tudo a perder..., e lá se esvai, num picar de olhos, tanto labor. Não posso esquecer quando um dia assistia a uma prova de marcha, nela, a mais séria contendente ia à frente, já a poucos quilómetros da meta, até que o juiz a abordou e lhe mostrou a placa de desqualificação por técnica incorrecta. Ela viu, mas, ao contrário do que lhe havia sido ordenado, não parou, apenas começou a chorar, marchava lágrimas, marchava para a meta, sem sentido, gritava deseperos, mas não parava, o juiz, entre a comoção e a competência fria, explicava "acabou!", mas ela não podia acreditar que aquilo estava acontecer, não podia. Marchou uns bons 100 metros mais, chorando contra a realidade, até que caiu no chão e chorou desbargadamente. De onde ela estava já se via o estádio olímpico.

É perante a magnitude das perdas possíveis que gosto de ler o valor de uma conquista olímpica.

p.s. Ler a excelente crónica de Francisco José Viegas sobre Obikwelu e os nacionalismos.

Indescritível

Por uma questão de horários, preteri o combóio ao expresso para uma ida ao Norte com passagem pelo Porto. As estações de autocarros raramente são espaços acolhedores, habituámo-nos a aceitá-las como não lugares: sítios de travessia onde ninguém deixa a marinar a sua identidade. Mas, ainda que o panorama nacional seja péssimo, a estação do Porto ultrapassa tudo, é, quero crer, uma "topografia do insulto" para quem usa transportes públicos. Aquela garagem sombria, as bilheteiras, o bar, a casa de banho, o espaço de espera, os níveis de monóxido carbono, o constante perigo de atropelamento..., enfim, uma rapsódia de indecências que, na minha ingenuidade, jamais pensei serem possíveis na estação de uma cidade com a dimensão do Porto. Lamentável porta de entrada.

Saudades

Ainda que sem a devida autorização, não resisto a publicar aqui um mail que um querido amigo me mandou, por certo ele não se importará. Já não o vejo o S. há cerca de 6 meses, está longe na Alemanha, mas analisa a realidade portuguesa com uma sagacidade ímpar enquanto me conta as suas insónias e "segredos" de exílio. Ser portista também é isto:
...genial estratégia do nosso preseidente (pinto da costa, claro, nao o outro, da república) de contratar o italiano e depois substituí-lo! fica ultrapassada uma componente importante do trauma pós-mourinho: agora os joagadores comparam o ferenandez ao del neri, onde aliás só sai a ganhar...
(um segredo: por vezes, com insónias, entretenho os pensamentos a imaginar a equipa do fcp. parece labrego, mas é verdade. e eu andava a tentar encarar o esquema do del neri com o optimismo habitual, mas confesso que deixar o diego e carlos alberto no banco me estava a tirar o sono...)

um abraco de saudade
Saudades, volta depressa

Simulações de afectos


Stephen Peters

Sabemos bem que, nos dias que correm, a simulação do banco, relativa ao empréstimo para compra de casa, é responsável por mais casamentos do que as efabulações românticas. Viver com os pais, num quarto ou num T0 alugado pode ser uma forma de perseverança romântica. Há quem diga que primeiro devem vir as simulações do amor. Há quem delas desista. Há quem nÃo tenha crédito para tentar. Há quem avance temeroso pela ausência de simulações fiáveis. Há quem insista em viver simulacros de sonhos.

Como diz Jean Baudrillard, em Simulacros e Simulação, "O que nos atormenta não essa antecipação de todos os resultados, a disponibilidade de todos os signos, de todas as formas, de todos os desejos". Ai, o futuro...
Giddens falava da destabilização da confiança e da busca de segurança ontológica como traços marcantes da formação da identidade na modernidade. Na obsessão pela antecipação tentativa do futuro, a invenção ocidental do amor romântico é, obviamente, uma maçada moderna

Belluci e outras considerações


Três filmes fabulosos que retratam com particular esmero a natureza complexa e insidiosa da opressão patriarcal. Nas três narrativas são-nos negadas fórmulas simples, nelas se murmura que a opressão patriarcal dificilmente poderá ser captada como a mera dominação dos homens sobre as mulheres, ela é, isso sim, um "sistema geral de comando" que, reiterando a superioridade masculina, se abate sobre mulheres e homens, definindo os seus papéis sociais de modo estreito. Como os filmes sugerem, nos regimes sociais marcadamente patriarcais, vigora um constrangimento constitutivo acerca do que é ser homem e do que é ser mulher e, o que é mais, prescreve-se um itinerário de valorização pessoal que muitas vezes dilacera a subjectividade afectiva, sexual, estética, etc. das pessoas que a ele se têm que conformar. Nestes filmes há momentos fabulosos que sintetizam as complexidades do sexismo e do heterosexismo: mulheres que acusam outras de "putas" defendendo a castidade feminina e que, por outro lado, desculpabilizam as derivas sexuais dos homens, homens perturbados, homens incapazes de amar uma mulher que nunca reconhecerem enquanto subjectividades complexas e capazes de desejo, mulheres sem chão para viver a sua sexualidade, padres reprimidos e repressores, you name it. No filme as irmãs de Madalena (Magdalene Sisters), há uma cena sublime, cujas interpretações suscitarão polémica: um rapaz viola a prima, que, rejeitada pela família, é enviada para um convento para expiar as suas culpas. Nessa cena centramo-nos na brutal dor e injustiça sofrida por Margaret, mas, interessantemente, o realizador quer-nos também chamar a atenção para o "violador" enquanto alguém que, nalguma medida medida, é, também ele, passível de ser entendido como vítima de lógica social profundamente repressiva - não que isso lhe retire a culpa por tão hediondo acto. A lógica de um sistema em que cada um faz do outro vítima do abuso que ele próprio sofreu. Eis pois as palavras do realizador, Peter Mullan: "O jovem que viola a prima não é um psicopata, tem um rosto fresco e limpo, e por razões que só ele conhece, viola a prima: um membro da família com quem cresceu, brincou e de quem gosta. Ele próprio não sabe o que o levou a fazer aquilo. O actor que convence Margaret para que ela o siga, que tenta ter relações sexuais com ela, tinha de ser capaz de exprimir na sua personagem toda a confusão que vai na cabeça deste rapaz, confusão que se transforma na forma mais brutal de abuso. O seu instinto sexual natural, como no caso do pai, dos tios, dos padres, foi reprimido a tal ponto que quando aflora por um instante é retorcido, violento e perverso."
Cultural Studies à parte, Malena é um filme lindíssimo. A fotografia, a música de Morricone, aquele amor platónico, a personagem longínqua de Monica Belluci, aquele seio visto da janela, o final...

Notas do Technorati

A Sara é um doce (pior que um sociólogo, só um antropólogo, diz ela jocosa). O JPT dá um cheirinho da sua experiência pelos "bares de alterne" em terras africanas. O Narcisista comenta o post do Gato Fedorento a propósito da relação entre humor e deficiência.

Literacia sentimental

Na sua vocação intimista as sms's entreglosam ditos e memórias. Reificam histórias que de outro modo nos pareceriam sonhadas. Como percebo a Ana Sá Lopes:

"Quando apaga certas mensagens escritas do telemóvel, o arquivista sentimental carrega na tecla mas desvia os olhos".

Idiota


Deixo-vos a fotografia, já anacrónica, deste jogador que ontem, no jogo Boavista-Porto, atirou Derlei para fora do campo com uma entrada indescritível. Logo se temeu uma lesão gravíssima: os fatídicos ligamentos cruzados do joelho ficaram fortemente inflamados. Mas no fim a coisa saldou-se pelo anúncio de uma paragem de três semanas para a recupração da ruptura parcial do ligamento colateral interno do joelho direito. Derlei esteve à beira de uma lesão que o faria parar 5 meses depois do calvário do ano passado, tudo porque um idiota queria agradar a Jaime Pacheco, mostrando a a raça de virar adversários, naturalmente. Pouco importava se era um jogo de pré-época ou se a saúde do opositor estava em causa. Estou certo que os portistas acompanharão a carreira deste homem com a melhor atenção.
P.s. Peço desculpa aos sportinguistas que em boa hora dele se livraram, mas não encontrei outra foto.

Uma viagem alterne

Há eventos estranhos que nos surgem como dádivas. Senão vejam. Um problema na bateria do carro onde fazia a viagem de regresso levou-me a passar várias horas da madrugada de ontem a beber finos com o homem do reboque (eu não estava a conduzir), junto da sua “base", numa terra que eu nem sequer sabia que existia. Isto tudo numa casa de Alterne. Disse bem. Numa casa de alterne. Nunca tinha ido a um tal sítio, nem fazia qualquer tenção nesse sentido, na verdade fui lá fui parar coagido pelas circunstâncias, mas, imaginam, uma vez lá, não pude deixar de dar azo a uma curiosidade antropológica antiga. E, portanto, ali me fiquei, a ouvir as histórias de quem bem conhece as densidades biográficas, emocionais e familiares que se entretecem naqueles lugares.

Trata de começar a cuscar. Claro. No entanto, não foi sem surpresa que, aos finos tantos, começo a ouvir o homem do reboque, T-shirt rasgada, mãos sujas de óleo, problematizar a narrativa patriarcal das “putas-objecto”, narrativa que até ali ele próprio vinha estetizando com os ditos másculos dos costume. "Mas olhe, estou aqui a dizer putas para aqui, putas para ali, mas não duvide, elas não são só profissionais de sacar dinheiro aos otários [embora o façam com mestria] ", "Muitas delas também se apaixonam", "também procuram na noite o homem que as tire daqui", "Sabe, sentem-se perdidas e se apanham um homem que lhes dá amor, dão-se para a vida como uma namorada sua nunca o faria", "Está ali a ver o M.?, está casado há dois anos com a das mamas grandes atrás do balcão, não sei o que viu nele, mas que gosta do tipo.., o mundo dela é...ele", "Conheci muitas que no fim deixam o número de telemóvel para a gente lhes ligar depois, e não é para serviços, embora algumas os façam noutros sítios", “olhe aquela brasileira, tão novita, tão bonita, até dá pena...”
E ali fiquei, a ver as curiosas movimentações enquanto o “informante” me ajudava a pintar o filme: “está a ver aquele velho a dançar com a gorda?, só trabalha para elas, não vê mais nada, um desgraçado... a mulher em casa não vê tusto”. À medida que a noite ia ficando entradota os clientes lá chegavam uns atrás dos outros; havia os que só iam beber um fino e ver o ambiente, os que lá se deixavam levar para as mesas, os que começavam por resistir... E depois lá vinha o engate reles, os beijos, os apalpões, as danças deprimentes numa luz mal amanhada: “elas connosco não vêem ter, já sabem que daqui não levam nada, se me pedem para sentar digo que já chega o tempo que passo sentado no reboque, bebo o meu e fico aqui”.

Quando uma pessoa fica com o carro "encostado" a meio do caminho, não pode certamente suspeitar das soluções criativas que a assistência em viagem de uma seguradora nos pode oferecer enquanto uma bateria carrega. O capitalismo à portuguesa tem destes insólitos. Quando partimos, a bateria nova – que nos foi ofertada pelo "rebocador" - já estava carregada há horas. Obviamente, a viagem atrasou-se em muito, mas, como diz Judith Butler, há que saber viver a contingência.

Suspiro de uma tarde de Verão

Deitado na toalha de praia observava, inconsolável, mais uma banhista que se passeava dengosa. Para ele, ali caminhava, no seu bikini, belíssima, mais uma mulher impossível:
O que é que fiz para não merecer isto...?

Como sabemos, nem só do alto dos andaimes se estetizam as possibilidades que a vida parece não nos reservar.

Hasta luego

Parto daqui a uns minutos. Vou procurar uma praia algures. É possível que encontre uma pensão instada com vista para o mar. Ainda assim levo a tenda no porta-bagagens: é o meu garante. Um. Dois dias chegam. Regresso em breve, portanto. Nunca perceberei o desamor dos intectuais à praia, está lá tudo: a possibilidade do sublime natural, da contemplação murmurante, do cíclico latejar do pensamento ao som das ondas... Estão também lá todas as outras razões espúrias: os bikinis, os corpos bronzeados, os melões, as tupperwares com salada, o cheiro a nivea, areia nos calçoes.. Como resistir?

Michelle

Um amigo insistia comigo. Não achava natural que eu eu nunca tivesse acalentado a "clássica" fantasia por uma mulher mais velha. Até que eu lhe perguntei: se for um ícone mediático com uma duradoura persistência encantatória serve?
Michelle Pfeiffer
Abriu-se uma excepção

Não era para ser assim

Através de um serviço fornecido pelo citador, li aqui um interessante dito do psicólogo Eduardo Sá. Assim rezando:
O sentimento de inveja a que chamamos ambição deve estar à "flor da pele". Não é vergonha: é saúde. Sempre que uma pessoa o nega está doente, porque imagina que o seu desejo destrói os outros. Sempre que a valoriza, sobre todas as coisas, está doente, porque é como o seu desejo existisse para o tornar feliz sozinho Notícias Magazine (DN)
A frase é interessante e, parece-me, transfere uma ideia banstante adaptativa para que vive numa sociedade individualista, capitalista e competitiva, onde a capacidade de realização pessoal tende a assumir um lugar central na construção de uma identidade socialmente valorizada. A marca da Psicologia enquanto uma displina nascida na modernidade ocidental é, como noutras áreas, fortísima. Por exemplo, a Psicanálise (cuja apologia Foucault empreende n' A História da Loucura), vertente absolutamente fundadora da relevância que a Psicologia em geral haveria de adquirir, terá sempre alguma dificuldade em falar do Complexo de Édipo em sociedades matrilneares, onde o pai é o comparsa quase sempre ausente e a figura de autoridade é representada pelo irmão da mãe. Adiante.

O que eu quero dizer é que, apesar das perspectivas sistémicas terem ganho crescente relevância na psicologia que se vai fazendo, não consigo deixar de ler a frase que acimo cito enquanto expressão dessa vocação da Psicologia para nos ajudar a viver com a sociedade que temos, tomando-a, nalguma medida, como uma dado/fatalidade. Embora o desejo/ambição de prestígio social seja uma marca que encontraremos em quase todas as sociedades, outros contextos culturais há - e houve - em que um forte sentido de comunidade tende a prevalcer sobre a valorização individual/autónoma.

Talvez esta observação não tenha nenhuma petinência, e talvez esteja a ser injusto, mas, nisto como noutras coisas, facilmente equecemos que não tinha que ser mesmo assim.

Daedalus

O excelente Daedalus faz um ano. Os meus parabéns, Francisco. Já lá vão uns anitos, conheci o Francisco pelos bancos de um certo Departamento de Antropologia, depressa soube que estava perante alguém capaz de se consagrar com singular devoção aos afectos, às palavras e aos finos - não necesariamente por esta ordem. Caro, oxalá o teu blog viesse a durar tanto como a nossa amizade. Mas não posso pedir tanto. Seria, estou certo, um blog para vida.

A leveza de uma relação

Sempre que uma amiga ou amigo, falando da sua vida amorosa, me diz que está a viver uma "relação leve" surge-me o memento de outras histórias leves. E, baseado nesses outros enredos, se quiserem num certo "eu já vi este filme!", tendo a receber com entusiasmo moderado a celebração das ditas relações.

Como bem sabemos, em grande parte dos casos, as relações leves são estratégias adpatativas encontradas pelos pós-traumatizados de amor. A ideia básica parece ser a de criar com alguém um registo, sem compromisso ou "contrato de exclusividade, que permita partilhar coisas boas, momentos, programas. Assim, os amantes, movidos pelas regras de atracção e pelo "gosto de estar" estabelecem uma lógica relacional híbrida entre o encontro sensual furtivo e o namoro. O objetivo central destas "criações" é fugir ao desgaste emocional já experienciado numa "relação a sério", assim como ao medo de voltar a passar pelo doloroso des-enlace de um namoro onde se investiu muito. Portanto, está escrito, nesse registo leve não há lugar para ciúmes, cobranças, planos de futuro, logísticas quotidianas, entregas emocionais, etc.

O facto das relações leves se terem "popularizado" resulta grandemente das transformações dos costumes em dois sentidos diversos: 1- pela maior aceitação da sexualidade fora de relações estabilizadas 2- pelo facto de a emancipação feminina e os casamentos tardios permitirem uma maior auto-determinação emocional nos relacionamentos, que, por isso, se oferecem mais às dissoluções afectivas. Logo, engrossam as fileiras dos pós-traumatizados amorosos, quase sempre personagens pós-românticas deveras cuidadosas na abordagem de novas relações.

Mas, dizia eu - juizos morais fora desta liça - tenho dificuldade em acompanhar a celebração das tais relações leves. Explico. Tanto quanto me tem sido dado a perceber, estas lógicas tendem fracassar, não sem paradoxal ironia, resvalando para o pecado capital: um dos amantes esquece-se de ler o guião e apaixona-se.

Sentir o mar

laetitia
Há, por certo, duas ou três pessoas que só vêm a este blog em busca da Laetitia. Fazem bem. As outras não deixaram de olhar, espero. A Laetitia não é só uma modelo, ela não é passível de ser redutoramente coisificável pela líbido. Na verdade, alguns estetas devotados a afectos - como eu -intuem que aquele corpo só marginalmente participa no fascínio que ela exerce. Temos, pois, mamas com alma como a mais profunda subversão do dualismo cartesiano. George Lakoff e Mark Johnson- autores do maravilhoso Philosophy in the Flesh - têm aqui propostas para novas linhas de teorização.
Para quem vai a banhos, bom fim de-semana.

A coerência poética

Hoje a grande desgraça não fui eu
Foi um velho navio que partiu
E me deixou no cais
sem nenhum sonho mais
Miguel torga

Quando já não era possível ter ilusões agarrava-ne a uma ilusão ainda maior e... esperava
Miguel torga


Sexismo religioso

Em resposta às recentes posições anti-feministas tomadas pelo Vaticano - prontamente apoiadas por JMF no editorial do púbico, enfim... -, Ana Vicente, católica assumida, explica num excelente texto o significado do feminismo, repudiando, por apelo aos valores cristãos, as visões sexistas e homofóbicas da igreja católica. Há algo de heróico nestas pessoas que procuram mudar por dentro uma estrutura tão anquilosada e anti-democrática, onde, falagrantemente, o peso da tradição se conflui com a formação de uma hegemonia institucional. Mas - abismem - para essas gentes heróicas não olha a "Congregação para as Causas dos Santos". Faz mal.

P.s. Distancio-me daqueles que para denunciarem as escabrosas posições do Vaticano - que bem merecem a nossa indignação - usam o argumento da velhice/senilidade do Papa. Num tal registo rebate-se a opressão sexista com a opressão etária: a que desqualifica na nossa sociedade os mais velhos de nós.

What about you, Rick? II

Foto evocada aqui

Rick, impassível, diríamos, vê o avião descolar-lhe o querer. Na verdade, instado na costa, o cínico-mas-pouco como que assiste a um naufrágio longínquo, naufragando também. Sabemo-lo, são convulsos os amores em tempo de guerra. Romances e filmes asseveram-nos amiúde as tantas vezes em que o adeus às armas é também o adeus ao amor. Mia couto dizia que a guerra não se limita a fazer deslocados, pois ela mesma se desloca para dentro das pessoas. Em Rick a guerra alojou-se pela filigrana de uma memória dilacerante, a memória de Ilsa. A memória de Paris, cidade-tempo cuja alma vemos abandonar o trem de descolagem. Ei-lo, o avião no céu escurejado fugindo ao seu próprio rasto. Parte para Lisboa. Dizem. Entreposto para outros voos. Na despedida fica a deliciosa tentativa de apequenar a dor tão laboriosamente escondida: "Näo sou um homem muito nobre. Mas vejo o pouco que os nossos problemas significam neste mundo louco". E depois da Guerra Rick? Que será de ti Rick? Rick, temo que esta letra não te sirva:

Oh mysteries of love
Where war is no more
I'll be there anytime


Conheces outra? Dizem que Bob Marley talvez ajude.

I'll be there anytime I

Mysteries of love
Ouvir

When the time bell blows my heart
Beth Gibbons

Outra coisa

Anteontem o Porto perdeu.
Ontem o Chelsea perdeu.


Jogos de pré-época dizem muito pouco: experiências, jogadores ausentes, equipas em diferentes fases da preparação física, período de maturação técnico-tática, etc.
Sei que o Porto e o Chelsea vão ganhar os respectivos campeonatos. Sei. Mas anteontem o Porto perdeu. Ontem o chelsea perdeu. E isto pouco diz. Sabemo-lo. A mim diz-me muito. Leio aí a emergência de um novo tempo: com José Mourinho e o FCP separados o futebol volta a ser um jogo, em que, não obstante as probabilidades, tudo pode acontecer, como nos velhos tempos. Hoje dispersos pelo mundo, José Mourinho Mourinho, Pinto da Costa, Deco, Ricardo Carvalho e Vítor Baía representam a diáspora de um povo heróico que para sempre ficará ligado a um passado mítico.
Inevitavelmente, lembro já saudoso aquele tempo - recente - em que o futebol não era um jogo. Era outra coisa. Porto e Mourinho vão ganhar. Mas é diferente. Doravante ganharão jogos. Juntos ganhavam, tão-só. Nessa época a ideia do jogo era obviamente um abuso de linguagem.

Les Mystérieuses Cités d'Or

Esteban, Zia e TaoCondor
Ontem num ensejo afectivo-revivalista lembrava o Agora Escolha dos nossos verões do antigamente. Com a mítica Vera Roquette a anunciar as séries em concurso, por lá passava Tom Sawyer, Um Anjo na Terra, Os Três Duques, O Justiceiro, A Ana dos Cabelos Ruivos, Verão Azul, McGyver, Bonanza, you name it... Engraçado, quando pensamos no Agora Escolha em jeito de revisitação há como que uma dupicação memorativa: é que o próprio Agora Escolha era já uma lógica revivalista em que se recuperavam séries que já então faziam parte do passado. Num certo sentido o Agora Escolha é uma relíquia feita de outras relíquias. Relíquias como Les Mystérieuses Cités d'Or. Não dá, já estou a cantarolar a música. Para ouvir cliquem aqui.