Provo-cativa

Provocativa, para mim, não é tanto uma pessoa que nos provoca, é, isso sim, uma pessoa que nos cativa provocando incerteza.

Pessoal e transmissível

Fui, como costume, à cata das entrevistas de Carlos Vaz Marques nos arquivos de som da TSF. Entre outras encontrei esta que aqui vos trago: Pedro Mexia e a Blogosfera. Ao ouvir a entrevista lembrava com um sorrisimho o arrufo que entrevistado e entrevistador tiveram nos seus blogs quando o Pedro Mexia se pôs a perorar acerca da TSF como uma rádio de esquerda. A entrevista está aqui. Já agora aproveito para lembrar ao ex-diabo: então rapaz, esse livro sempre chega cá?

Mentira, pois claro

Retrato do central enquanto jovem

Há dias em Londres pus-me a fazer uma vistoria aos jornais locais. A imprensa nativa é de facto estranha: últimas sobre uma prostituta que dormiu com Wayne Rooney, sobre um Dj que fez uma ménage à trois com duas gémeas falsas, sobre a cicatriz no joelho de Britney Spears, sobre o caso que Sven Goran Erickson teve com uma funcionária da Federação Inglesa, sobre a importância do silicone na vida Demi Moore, enfim... No meio disto tudo encontrei também uma notícia a dizer que Ricardo Carvalho ia para o Chelsea por 20 milhões de libras. Dei-lhe o mesmo crédito que me mereciam as restantes notícias. Agora... qual é o meu espanto quando a chegar a Portugal vejo a comunicação social a anunciar a mesmíssima nova acerca da saída de Ricardo carvalho. Está visto que a imprensa de escândalos e mentiras passou o canal da mancha e colonizou os nossos meios de referência. E ninguém se indigna com tamanha falsidade!

Olá

Este blog regressa ao convívio com os acentos. Volto também ao diálogo - até agora inviável - suscitado por comentários, posts e emails.

Coisas que nos passam

Sempre visito museus onde somos colocados perante obras estraordinariamente preciosas sinto-me invadido por uma estranha sensacao de poder. A uns meros centimetros de um quadro de Picasso, Leonardo da Vinci, Raphael, Van Gogh Velasquez, Rubens, Goya, Caravagio,Monet, Cezanne,etc. nao consigo deixar de pensar e se eu... E se eu agora metesse a mao e destruisse isto? Lembro de Vergilio Ferreira dizer que e mais poderoso quem planta uma flor do que que quem derriba um imperio. Obviamente, eu jamais equacionaria sequer a estupidez de fazer tamanha alarvidade, no entanto tenho que admitir que, perante tais raridades, rara a vez em que este pensamento nao me passa pela cabeca.

A morte de um autor

Com o auxilio de umas cervejas, estabeleci um interessante dialogo com um mui eminente academico americano. E sempre uma experiencia engracada quando conhecemos algum cuja obra lemos e admiramos. Quase sempre a "humanizacao do autor" assemelha-se a uma experiencia de desilusao, ou, melhor dizendo, de desacralizacao. A escrita e faz-nos supor personagens 'as quais nem sempre adivinhamos as ansiedades, defeitos, ensejos e frustracoes. A escrita tem uma vocacao para idealizacoes acerca de quem atras dela se esconde/revela. Pois, a verdade e que o tal academico revelou-se uma "deliciosa humanizacao". As tantas eu, ele e uma australiana (compreensivelmente a babar por ele) estavamos a falar sobre as nossas vidas pessoais. Surgiu a certa altura o conceito de lovable person (pessoa amavel), eu avancei com o livable love (amor vivivel). Num registo altamente confessional contou-nos da sua vida de casado de 27 anos, da sexualidade dos filhos, dos amores, do lugar das conferencias na sua sociabilidade erotica (aconselhou-me o romance de David Lodge), cuscou arguto sobre a minha vida amorosa (whatever that means), da da australiana, dissertamos, ouviu teorizacoes, pediu conselhos... Enfim mostrou ser uma personagem adoravel.

Noutro cacho de ideias Roland Barthes falava da morte pos-moderna do autor-deus, devo admitir que este soube morrer.

Perguntas impensadas

Para chegar a Lisboa alistei-me entre os passageiros de um autocarro que se fez a estrada ja madrugada. O inicio da viagem nao se fez sem chorada contestacao. Foram custosas as despedidas , algo explicavel: o areoporto era o destino preferencial tracado para aquele horario.

Recordo em particular um casal de namorados. Ela, estrangeira - deduzi pelos tracos fisicos - estaria a acabar o ano de Erasmus, deixando Coimbra e o seu amor para tras. No momento dramatico em que o autocarro balancou ele ficou-se no cais a acenar desesperos. Ela respondia com sorrisos colados ao vidro embaciado, mas, uns minutos depois, ouvi-a, inevitavel, a solucar uns lugares atras de mim.
A meio da viagem o mototista decidiu uma paragem na estacao de servico. Acabadas as idas a casa de banho, sorvidos os galoes, tudo se re-instalou no expresso. Foi entao que o motorista, cioso, perguntou sonante ao microfone: "alguem da pela falta de alguem?".
Gerou-se um silencio cortante. Foram cerca de 15 segundos. Enormes. Durante esse tempo o condutor fez a cada um(a) remomorar a falta que "um alguem" lhe fazia. Pensei tambem. Pensei na rapariga do erasmus. Ao fim desses duradouros instantes de angustia, o motor comecou a fazer barulho. Obviamente, ninguem quis responder a tao profundo repto. A pergunta, essa, ficou por ali a doer.

Eles nem as pensam!

Perfume de mulher

Parto. Daqui a umas horas abandono este costumeiro quarto de onde quase sempre escrevo o avatares. Viajo para Lancaster onde vou participar numa conferência bem instigante. Eu, por assim dizer, vou falar deste filme:

Nos próximos dias não sei quais serão as condições para aceder à net, mas dado o meu gosto por "notas de passagem" é bem provável me faça cliente de uns cyber-cafés para aqui deixar uns posts itinerantes.

Perfume de Mulher. Há "momentos" em que este título é investido de uma fragância singular. E aí a especificação da versão inglesa (Scent of a Woman), perfume de uma mulher, parece fazer todo o sentido. Até breve.

Carlos Paredes 1925-2004

Foi-se o génio da Guitarra.


Recaídas


Recaída é um conceito que migra. Tanto serve para falar dos deslizes de alguém que tem uma adição (p.ex. um toxicodependente), como para referir a situação de alguém que cai nos braços de uma relação amorosa já sem sentido. Num e noutro caso a "recaida" tem a força moral de um fracasso. Quando alguém se envolve, gostando, como uma pessoa que só já pode fazer parte do passado tem duas possibilidades:
1- Chamar-lhe recaída assumindo um erro, um fracasso da vontade esclarecida. Neste caso afirma-se a necessidade de seguir em frente com firmeza: Let go, let fly, forget.
2- Chamar-lhe revisitação legitimando o acontecido pela necessidade de perceber o que o tempo fez aos lugares do antigamente.

Estas duas hipóteses revelam bem o quanto a "natureza" daquilo que é feito depende dos nomes que usamos. Como dizia Foucault, os discuros produzem os objectos de que falam. Na mesma sensibilidade construtivista Ian Hacking afirmava: "Quando novas descrições se tornam disponíveis, quando elas entram em circulação, ou mesmo quando se tornam coisas que podem ser ditas ou pensadas, então há novas coisas que podemos escolher fazer". Acredito nisso. No entanto também há que saber ler quando os dicursos são frágeis, quando estamos perante falas insustentadas; acontece quando quem fala não consegue acreditar nas suas póprias palavras. Aí entra o realismo-pós-ilusão-tentada que Borges assim revela: And yet, and yet... O mundo, infelizmente, é real; eu, infelizmente, sou Borges.

Darfur

"Cinco a seis homens violaram-nos, um após o outro, durante horas ao longo de seis dias, todas as noites. O meu marido não conseguiu perdoar-me, deixou-me." Conforme a Amnistia Internacional vem denunciando, a "Crise do Sudão" assume contornos profundamente alarmantes. Aquilo a que as milícias árabes "janjawid" - aliadas do Governo do Sudão - estão a sujeitar a população negra de Darfur inclui crimes tão horríveis como violações em massa, usadas como uma sinistra arma de guerra. Execuções, torturas, violações... os direitos humanos estão a ser violados em toda a linha perante a indiferença do governo do Sudão e do Mundo. E nisto tudo as mulheres estão submetidas a uma situação particularmente cruel: não bastasse o facto de serem vilmente violadas, para cúmulo ainda têm que carregar o estigma da desonra e o desprezo debitado pelos valores patriarcais das suas comunidades. Um fenómeno que não é novo, como bem o mostra a interessante análise realizada por Veena Das* ao debruçar-se sobre as implicações das 100 mil mulheres Hindus, e Sikhs e Muçulmanas, que se estima terem sido violadas nos conflitos surgidos após a independência da Índia. Como refere José Manuel Pureza " a agenda internacional apresenta actualmente um excesso de concentração na temática do terrorismo internacional. Como sempre, a hipervisibilidade de um assunto específico pode servir como estratégia de ocultação de muitos outros assntos". Darfur faz parte dos assuntos subsumidos nas prioridades da comunidade internacional. Os dirigentes mundiais têm mais com que se chatear. Ademais, lembro que houve um tempo em que a comunicação social nos sintonizou com a tragédia de Timor, era bom que ora em ora se lembrassem que Dafur existe. Há lá massacres, há quem fale em genocídio, consta.

*"No contexto societal deste período [pós 1947], quando as ideias de pureza e honra populavam densamente as narrativas familiares e políticas, os pais desejavam que as suas filhas morressem pela honra da família, em vez de continuarem vivendo com corpos que haviam sido violados por outros homens (77)"
Das, V. 1997, "Transactions in the constructions of pain" in Arthur kleinman, Veena Das e Margaret Lock (orgs.), Social Suffering, University of California Press, Berkeley

UEFA elege: Baía, o melhor da Europa

Still the one
Praticamente do nada, em período de defeso, quis ontem trazer o tema Baia à actualidade deste blog. Mal sabia que, umas horas depois, como bem me alertou um comentário, a Uefa o iria eleger como o melhor guarda-redes europeu de 2003-2004. Já o deram como acabado para o futebol, já lhe chamaram estratégia de Marketing (esse cometarista, Jorge Baptista, um triste), já o colocaram de fora dos três melhores guarda-redes portugueses. Mas, como dizia Walter Benjamin, o conciliábulo entre a historia e a injustiça não pode durar. Ao Scolari, ao Jorge Baptista, aos que tanto ódio têm destilado sobre o nome do Baía, parece-me apropriada uma expressão futeboleira que tão cara é ao Francisco José Viegas: Embrulhem!

"Desilusionismos"

Já aqui felicitei o Luís Carmelo pelo primeiro aniversário do seu Miniscente? Não?! Shame on me. Luís, parabéns. Continuem as reminiscências, esse pêndulo metamorfoseado da memória, qual trânsito desenfreado entre as estações que vamos sendo. Tráfico de sonhos.

Still the one


Ricardo defendeu um penalti e escreveu um livro. Foi convidado ao Herman Sic onde falou das suas viagens a Fátima, da família, etc. Ricardo é uma pessoa simples, simpática e sem carisma. Estimo-o, não o admiro. Até nem defende mal, mas cruzamentos não é com ele, como bem se viu no jogo contra a Grécia. Razões porque espero vê-lo na baliza do Sporting por muitos e bons anos. A propaganda da nação pegou em Ricardo: joga na selecção, é futebolista, devoto de fátima, só lhe falta cantar fado. Vítor Baía é o jogador português com mais títulos, o melhor guarda-redes nacional. Por estes tempos dedica-se à sua fundação de solidariedade. Às injustiças pessoais que tem sofrido responde com um silêncio heróico, jamais respondeu amargo ao ódio invejoso de tantos. Sabemos há muito que as mitologias de estado jamais apagam os mitos que moram no íntimo coração dos povos. A invenção da história a posteriori não consegue fazer esquecer os seus artífices. Homem bonito e admirado, Baía conta, não por acaso, com paletes de campeonatos nacionais, uma Taça das taças, uma Taça Uefa, uma Liga dos campeões. O livro de Ricardo é um esforço que deverá merecer a nossa ternura.

Intimismos digressivos


Acredito que seja uma das cenas mais repetidas no cinema: o moribundo, ferido de morte, dizendo as últimas palavras a alguém que lhe dá colo e lágrimas.  Nessa célebre composição há uma forte ideia de urgência, a completa noção da vulnerabilidade da vida,  o imperativo de falar concisamente, falar aquilo que mais importa. A velhice de Borges também lhe foi dando essa consciência, assim revelada com irónica candura: "Prevejo, sem interesse de maior, que em breve hei-de morrer; devo, por conseguinte, dominar o meu hábito digressivo e adiantar um pouco à narração".
 
A consciência mais robusta da precariedade que afinal vigia toda a  existência pode dar-nos o alento para dizer/viver o que mais importa, como se fôssemos moribundos avant la lettre. Mas, por outro lado, esse "adiantar um pouco à narração" pode ser a depuração dos "itinerários digressivos", onde moram  encantamentos insuspeitos, aqueles mesmos que às vezes fazem uma história - uma vida - valer a pena.

E depois há noites como esta em que nos sentimos quais moribundos digressivos fazendo do blog uma forma de colo.

Diz-me o que compras...


Na caixa de compras de um qualquer supermercado não resisto a olhar para as aquisições das pessoas que estão à minha frente:  Morangos, vinho, brinquedos, fraldas Dodot, revistas light, comida rápida, sabonete líquido palmolive, creme hidratante, shampoo para cabelos pintados, cereias especial K,  etc., tudo óptimas oportunidades para se "fazer o filme" de uma vida, ali mesmo, só a partir de uma pequena amostra dos consumos quotidianos. Ou então, menos presunçosamente, arrisco-me em adivinhações acerca do programa que estará a ser aventado para essa mesma noite. Dir-me-ão que enquanto exercício antropológico é uma abordagem algo precária. Certo, mas, hão-de reconhecer, sempre ajuda a tornar  mais interessante a espera.

Gracias

Agradeço ao Anarca as suas generosas Palavras.


Adeus

O a-Deus despede-se da blogosfera. Há já um ano que era para mim um blog de leitura diária: Impetuoso, desconcertante, poético. O Ricardo, esse, é um querido amigo, e por isso me atrevo a pedir que reconsidere.

Abrupto [act.]

Público: O ex-eurodeputado do PSD " Pacheco Pereira desistiu do cargo de embaixador de Portugal junto da UNESCO, o organismo das Nações Unidas Educação, Ciência e Cultura." A notícia é fresca. Se as causas da recusa são as que eu suspeito a minha admiração por tal posição não será nada improvável.
Confirma-se:
[adenda] " [recuso] Por dois tipos de razões, a primeira é que pretendo falar livremente nos próximos anos, em Portugal, e no exercício de um cargo como o de embaixador de Portugal na UNESCO não o podia fazer; a segunda é que não quero ter qualquer dependência funcional deste Governo, em particular do primeiro-ministro."


O meu vizinho

O meu vizinho, que vive uns andares abaixo, veio ontem bater-me à porta. Desde pequeno que lembro dele, costumava pedir-me cuidado para não acertar com a bola nos carros estacionados na cave; trabalhador incansável, excelente mecânico, passava os seus fins-de-semana a tratar dos canos, da electricidade, do seu estimado carro. Ontem veio bater-me à porta, perguntou-me se não o ajudava a pôr umas gotas nos olhos. É que - explicou-me - com o avançar da idade as mãos já lhe tremem e não há maneira de as parar sobre a face. Peguei no tubo, inclinei-o, e lá cairam as gotas nos cansados olhos. Com a aplicação do prescrito fármaco soltou-se-lhe uma lágrima. Para mim, que tenho dificuldade de me imaginar por aquelas idades, aquela lágrima lembrou-me a impossibilidade de pactos particulares com o tempo. Ontem o tempo veio bater-me à porta.

Há quem diga que cada povo tem os governantes que merece



Ainda mexe

a instigante conversa iniciada pela Inês acerca do sexual healing e que aqui seguiu nos comentários . A Inês brinda-nos com interessantes considerações e avança uma pergunta: "como explicar que a arte (que alguma coisa há-de ir buscar à realidade) nos dê conta de tantos momentos de crise emocional vividos por mulheres e atenuados pelo sexo, sem que sobre elas recaia qualquer censura (dos outros, maxime do outro)?"
A Inês faz notar que há menos expressões artísticas em que apareça a cena do homem emocionalmente fragilizado procurando sexo consolador.

Telegraficamente - isto está complicado por estes dias - ofereço uma possibilidade de resposta: há aqui duas contruções sociais concorrentes. Por um lado, no sexo fora de uma relação emocional estabilizada, as mulheres são, de facto, alvo de uma maior censura social. Mas, por outro, a assunção perante outrem de um descontrolo/fragilidade emocional é mais desqualificante para os homens porque coloca em causa determinados ideários acerca da masculinidade. Portanto, na assunção da crise emocional e na busca do sexo consolador, há um primeiro passo que, à luz das nossas construções culturais, é mais facilmente dado pelas mulheres.

Dá que pensar

"Que tipo de pessoa chora quando está a condecorar jogadores de futebol mas não verte uma única lágrima quando condena dez milhões de almas a serem governadas por Santana Lopes?"(Rap do gato fedorento)

A diária bebedeira

Há quase um ano que não escrevo neste diário. Para quê escrever todos os dias a palavra solidão? Hoje peguei numa pena, não porque tenha muito para dizer, mas porque encontrei um bêbado na rua, aos tombos, a resmungar isto:
- É preciso dar um jeito à vida!... é precioso ter coragem. É preciso um homem aguentar-se no balanço.
Miguel Torga, Diário

Acho linda: a imagem paradoxal do bêbado cambaleante chamando por outra vida.

É uma pena, mas você não vale a pena


Caro Jorge Sampaio, a ideia de preferir a estabilidade à democracia não é nova. A história do século XX português está aí para o provar.

Calibrar o blog

Duas falhas: este blog anda a fugir à sua vocação umbiguista (?)e pouco tenho falado de política. Vamos resolver isto. Política: Espero que hoje saia fumo branco de Belém a favor das eleições antecipadas; a ver vamos como o PSD-versão-populista se aguenta nesse cenário. Umbigusimo: 1-Vou dormir porque há ali umas frinchas na persiana que não há maneira de me abrigarem do nascer do sol. 2- Mesmo nos meses de calor preciso de alguma roupa de cama pela sensação de aconchego, arguto, lá vou buscando a face mais fresca de cada almofada. 3- Já acabou o concerto há umas horas valentes, mas Lhasa, com o consentimento do leitor de cd's, ainda cantará mais uns minutos neste quarto.

"Faz-me sentir bem"


A partir da cena capital de Monster's Ball (Depois do ódio), a Inês, simpática, lembrou-se de me convidar a pensar sobre o estatuto instrumental do sexo, enquanto meio para a superação de um momento de angústia emocional. Como saberão, estes temas pouco beneficiam da minha experiência pessoal, ainda assim não poderia deixar de tecer umas considerações. O interessante questionamento da Inês parte do diálogo em que Leticia (Halle Berry), perturbada, pouco após saber da morte do filho, pede a Hank (Billy Thorthon) que a faça "sentir bem": "I want you to make me feel good. Can you do that? Can you make me feel good?". Seguem-se alguns minutos "dramáticos" que por certo exigiram todo o sangue frio dos cameramen. Estamos perante a manifestação de um eventual carácter instrumental do sexo, numa cena que é tão mais interessante na medida em que, ao contrário do que seria a narrativa clássica da "instrumentalização sexual", esse estatuto do sexo é definido pela mulher.
1- A alusão às virtudes terapêuticas deste tipo de experiências sensoriais encontra uma poderosa representação estética na música de Ben Harper [adenda: original de Marvin Gaye] : Sexual healing/It makes me feel so fine/It helps to relieve the mind/Sexual healing, is good for me/Sexual healing now is something that is so very good for me.
2- A questão do género: Uma amiga minha, bem mais velha, dizia, provocativamente, que um dos problemas das mulheres da geração dela é que tinham que inventar o amor para poderem legitimar o sexo. Seria essa a razão porque, na visão dela, as mulheres se apaixonavam tantas vezes. Provocações à parte, é óbvio que, em termos sócio-culturais, as relações sexuais deixaram de se cingir aos propalados propósitos da procriação ou de ser tidas apenas como a sublime expressão corpórea de um amor partilhado. O prazer sensorial no sexo foi ganhando autonomia explicativa, podendo, em determinadas circunstâncias, constituir um valor per se para os agentes envolvidos - uma lógica que, apesar das transformações que vamos vivendo, é ainda mais desqualificada socialmente quando assumida por mulheres. Nesse sentido vem ganhando terreno a afirmação do prazer pelo prazer, e com ela, a descoberta dos usos reconstrutivos a resultar das experiências sensoriais envolvidas no sexo. Portanto - e se quisermos levar as possibilidades de instrumentalização ao limite -, nesta linha, pouco separaria o sexo da musicoterapia ou da aromoterapia
3- No entanto, esta "possibilidade leve" é amiúde problematizada pelo facto do sexo introduzir outra variável ao barulho: mais uma pessoa, mais uma subjectividade. Numa conhecida anedota pergunta-se a um sujeito porque é que ele prefere o sexo à masturbação, ao que ele, após muito pensar, responde: "pelo convívio". Por muito anedótico que isto possa parecer, a chave está aí. Primeiro, porque aquilo que pode ser visto como uma experiência terapêutica para um dos amantes pode ser outra coisa para o outro, e se, como muitas vezes acontece, um dos dois sente algo mais, a terapia de um pode então fazer-se às custas da desvalorização dos sentimentos da/o "terapeuta". Segundo, se por um lado é verdade que podemos pensar nas virtudes de uma instrumentalização recíproca em que os amantes se usufruem, ao ponto de, grosso modo, termos corpos ao serviço de uma "mecânica" sensual-orgástica", por outro lado, as possibilidades do sexo enquanto terapial, podem prender-se centralmente - e é assim que eu leio a cena do filme - com a vontade de uma experiência de partilha, partilha essa que o sexo não faria mais que materializar e intensificar. Aí o prazer do sexo confunde-se mais decisivamente com a negação da solidão, com o esbatimento momentâneo de duas pessoas, dois corpos, e, quiçá, dois universos de sentido. Nesta lógica de "consolo sexual" o amante é já um outro significativo ou então arrisca a tornar-se num. O outro significativo é mais que um" terapeuta conveniente". O facto de Hank e Letícia terem vindo a desenvolver uma relação amorosa parece adequar-se a este "quadro terapêutico".
(Ficou enorme, eu juro que eu só queria escrever uma breve nota)

Tatuagens: a moda das eternidades

Uma leitura extensiva pelas revistas socias e afins revela uma prática que se vai disseminando: o ritual de inscrever no próprio corpo tatuagens com o nome do outro amado. Sabemos o quanto as relações amorosas são voláteis nos tempos que correm, e, creio bem, será perante a "insegurança ontológica" (Giddens) que daí decorre que poderemos tentar explicar o fenómeno que leva alguns casais a aceitarem próteses epidérmicas como condição para verem o seu nome eternizado no corpo amado. Estas tatuagens conferem um ensejo que nem a sexualidade confere, o desejo de eternização material no corpo do outro - desejo de algum modo presente na desprezível lógica patriarcal de "tirar a virgindade". Podemos dissertar acerca dos afectos, do amor, do ensaio sobre a dádiva; mas, do ponto de vista macro-económico, torna-se incontornável reconhecer que as únicas garantias de futuro vão para a indústria de remoção de tatuagens.

À espera

Lhasa de Sela, amanhã (dia 8) em Coimbra no TAGV

¿Qué quieres que te cante?

Y así amo yo
Con rimas tan torcidas
Buscando disonancias
Pa mi nueva canción

Ei-la: a nostalgia esperada

Disse-o em 1O/1/2003: "Sei que para o ano Mourinho vai partir, certamente levará Deco consigo, por isso, para mim, esta época divide-se entre o costumeiro deleite pela vitória e uma atroz nostalgia vivida em antecipação".

Oh, pedaço de mim
Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento

(Chico Buarque)

Stand up Comedy

Laurence Clark é um polémico artista britânico que faz stand up comedy sentado na sua cadeira de rodas.

O seu humor ácido é mobilizado, entre outras coisas, para mostrar a situação de aparteith a que as pessoas com deficiência estão sujeitas nas nossas sociedades. Nos espectáculos que dá mostra o papel ocupado pelas atitudes caridosas e pela comiseração incapacitante nas vidas de quem é portador de uma deficiência. E é entre irresistíveis as gargalhadas que LC chama a atenção para o continuado adiamento sócio-político dos direitos de um tão significativo grupo populacional, continuadamente sujeito a formas de opressão particularmente invisibilizadas, porque naturalizadas nos corpos. Em relação à igualdade de oportunidades, Laurence Clark lembra-nos, não sem ironia o quanto a questão da deficiência revela a "natureza" de uma sociedade que por qualquer acidente deixou de poder fazer uso dos seus princípios.

Bloguítica

O Paulo Gorjão, sempre vigiando de perto os eventos da poítica, completa o primeiro aniversário aos comandos do seu blog. Muitos parabéns.

Terapias

Hoje passei à porta da Zara e, queiram crer, ia para lá um corropio bizarro! Bem sei que estamos em altura de saldos, época em que os números mais apetecíveis desaparecem fugazes, levando a importantes migrações sazonais - p. ex. as meninas de Coimbra voam para o Fórum em Aveiro ou, alternativamente, seguem a rota do Norte Shopping . Mas, depois da desgraça nacional de ontem, leio a afluência às lojas de roupa, por mim hoje testemunhada, antes de mais, como a confirmação de uma terapia secular: quando o moral está em baixo experimentar e comprar roupa pode fazer maravilhas.

David

Chamo a vossa atenção para o blog do meu irmãozinho. Tenho a dizer, em seu abono, que, catorze anos depois, todo o meu trabalho de discipulado falhou (até a felicidade desportiva recusou para ser do Benfica - más influências na escola). Ele está a tentar descobrir se há mais blogs de gente miúda. Não sei se já foi feito, mas, para, para fomentar a comunicação, era bom que houvesse um tal inventário. Se conhecerem blogs desses digam para lá qualquer coisa.

Adeus ou um presságio do tempo andante

Efectiva ou simbolicamente, a final do europeu terá representado também a despedida da selecção dos rostos que marcaram a geração de ouro do futebol português.

É estranho, mas, devo admitir, a idade dos jogadores de futebol sempre foi um dos meus referentes cronológicos fundamentais. Já pensaram no tempo que tempo passou desde os putos de Riade?

Ora bolas!

Estranho argumento. Não era para ser assim... Mas como bem lembra o Rui Tavares, não é nova esta vocação anti-climax dos desenlaces futebolísticos. Parabéns à Grécia, digna vencedora. A selecção portuguesa foi muito longe, praticou futebol de excelência, e vão-nos ficar na memória alguns jogos absolutamente heróicos. Deu-nos muitas alegrias. E orgulho, porque não dizê-lo?

Possession

I cannot let you burn me up. Nor can I resist you (... ) What are we to do?..



Um reputado poeta, bem casado, e uma poetisa, que até então vivia numa "união de facto" lésbica, descobrem um fascínio mútuo. Alimentam-no a cartas. Apaixonam-se. Pelas suas palavras a literatura instala-se no filme. Absorve tudo. Tudo. Tudo menos o talento dessa estranha atriz. Jennifer Ehle.

Sophia


Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vasa

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Adufe

O incontornável Adufe do Rui Branco fez um ano. Muitos parabéns.

Revoluções

fansChegado a Portugal, Francisco José Viegas depara-se com "uma revolução cultural importante a decorrer: basta ver o público feminino a torcer pelo futebol. Atrevidas, não? Acabei de ouvir um grupo de raparigas estivais, no passeio da Duque de Loulé, a cantar a canção de Nelly Furtado com a alteração do refrão: "Come-me à força...." Ciente dos perigos de tais ilações, FJV apela a uma palavrinha minha, irresistível...
Algumas considerações:
1- A selecção nacional tem esse mérito: produz uma feminização do público do futebol. O momento estético mais importante desse fenómeno é utilização da bandeira, que tanto foi mobilizada como símbolo de valores belicistas, patriarcais e conservadores, enquanto criativa peça de vestuário ao serviço das curvas delas (tops, vestidos, etc.). Por estes dias muitos seios se insinuam debaixo da esfera armilar, segurando, segundo as suas possibilidades, as cores da nação. Os mastros vão caindo em desuso.
Quanto às meninas que cantavam "come-me à força":
2- Ciúme. Sabemos que com a sua música fresca e apetecível, Nelly furtado - também ela bastante aprazível - tornou-se na imagem mitológica da odisseia do euro, libertando-nos do martírio de termos que estar a olhar para a cara do Figo em tudo que é outdoor publicitário. Ora, é sabido que isto pode bem suscitar o ciúme entre as suas pares, que, por isso mesmo, lembram a toda a hora o seu português macarrónico, e a desqualificam, por exemplo, adulterando a lyric da canção. Portanto, pode bem ser que as meninas do "come-me à força" não estivessem a exprimir os seus anseios pessoais, mas sim a parodiar a mulher mais desejada de Portugal em tempos de Euro.
3- Auto-determinação. Partindo da hipótese que meninas que cantavam "come-me à força" revelavam de facto o seu ensejo, estamos perante uma apropriação e reversão da linguagem originariamente machista da predação do sexo oposto. No discurso predatório come-se e é-se comido nos enleios eróticos. Normalmente quem é comido/a aparece-nos como a "vítima" do desejo de outrem, mas, quando elas dizem "come-me", estão a "jogar" usando um discurso emancipatório em que a sua auto-determinação é excatamente afirmada nesse desejo de serem comidas. É, pois, o seu desejo a ditar leis, e não o desejo de quem as possa vir a "comer", daí fazer todo o sentido a tal revolução cultural de que falava FJV.

Conclusão: As bandeiras que são Tops, a Nelly Furtado em vez de Amália, e as letras ousadas, não significam propriamente que estamos tanto perante uma revolução cultural suscitada pelo Euro 2004, mas dão-nos a perceber, isso sim, que as culturas expressivas deste evento têm - qual estudo de caso - o condão de tornar visíveis importantes transformações culturais nos últimas décadas.
No entanto, importa lembrar, tal como nos dizia Victor Turner, que as ritualizações sociais tanto espelham o que a sociedade é, como participam na sua transformação, ou seja, mostram de modo sublime que a sociedede "é inerentemente mutável".

Um golo que é um jogo

"Ao pensar que [Maniche] esteve para não ser convocado, começo a sorrir! "

José Mourinho

Como muitos saberão, Maniche foi um jogador sueco que jogou no benfica nos anos 80. O seu nome haveria de baptizar Nuno Ribeiro para o futebol - o nosso Maniche. A notoriedade da "cópia" superou a do "original, o sueco dificilmente será memorado quando, doravante, alguém aludir a "Maniche". É engraçada a intertextualiadde densa no mundo da bola, um mundo de curta memória que, no entanto, jamais esquece os seus artífices mais geniais. E as suas obras:

José Mourinho: Scolari não montou a sua máquina que falhou contra a Grécia, mas soube aproveitar - em boa hora o fez - o núcleo do trabalho feito por José Mourinho no Porto. Isto é algo que ele jamais reconhecerá, mas sem Mourinho não estávamos na final: "Portugal por outro lado, desde a derrota inicial, que se transformou como por obra e graça do Espírito Santo, numa equipa fortíssima, compacta, crente e com automatismos e rotinas que penso conhecer de algum lado." José Mourinho
Maniche: O melhor em campo
Ricardo Carvalho: Sem esquecer a dupla Nesta-Canavarro, que jogou pela Itália no europeu de 2000, eu cheguei ontem à dolorosa conclusão que Ricardo carvalho é o melhor central que alguma vez vi jogar futebol. Se ele for vendido choro.
Figo: Ia fazendo um golo de pé esquerdo parecido àquele que marcou pelo Barcelona ao Real Madrid depois de fintar Robero Carlos. Jogou muito bem, mas não foi, nem por sombras, o melhor em campo.
Ronaldo: Mostrou que, mesmo não brilhando sempre com as suas fintas , consegue estar a altíssimo nível; a sua evolução vais-se notando pelo modo esmerado como agora defende e recupera bolas.
Deco: Arrisca-se a ser o bola de ouro em 2004. Se ele for vendido pelo Porto não me parece despicienda a ideia de um apelo ao tribunal europeu dos direitos humanos.
Miguel: Tem estado muito bem. E corre. Muito.
Pauleta: a rever

vamos lá?