Revisitações

Se tudo correr bem, depois do jogo com a Holanda, Portugal vai-se transformar numa grandiosa Avenida dos Aliados. Esperemos.

O pior de dois mundos?


"O Presidente da República informou ontem o primeiro-ministro de que o nome de Santana Lopes só poderá ser aceite com garantias de continuidade muito fortes em relação às políticas centrais do governo". Ainda por cima? Pensava eu, do alto da minha inocência, que uma das consequências das eleições europeias viesse a ser uma reflexão alargada sobre um inflexão das políticas que o governo de coligação vinha perseguindo. Afinal, além de nos arriscarmos a ter Santana Lopes como primeiro ministro, fico a saber que uma das salvaguardas essencias para o governo oligráquico na forja é o compromisso de continuidade com os sábios trilhos que vêm colocando portugal mais longe do défice mas mais perto do abismo. E agora, para cúmulo, entrevemos o cenário desta adulteração das promessas eleitorais a ser ser apadrinhada pelo nosso presidente da república. Mas, caro Jorge Sampaio, o compromisso importaria ser fiscalizado em democracia talvez se prendesse, isso sim, com as promessas eleitorais e, convinhamos, essa continuidade já se perdeu há muito.

Devaneios comensais

Ontem, à volta de uma mesa, respondia eu a uma intessante pergunta que me tinham feito, quando fui interrompido pelo suspiro de uma moça que, entre uma garfada e outra do filete de bacalhau, atirou com o silenciador do "pseudo-intelectual". Reconheço, se me dão a corda certa - não sei de onde vem a metáfora do "dar corda", mas deve ter a ver com muita ou pouca corda, e não com corda certa ou errada - como dizia, se me dão a corda certa, aturar os meus devaneios de bolso não será fácil, mas sai-me assim e sempre há um ou outro que me desafia. Depois de acabar o meu argumento, lembrei uma das razões centrais por que criei um blog: poupar vítimas como a moça do filete. Lembro então à comunidade que este blog - com pseudo no cabeçalho - cumpre uma nobre função social.

Michel Foucault 1926-1984

FoucaultNo passado dia 25 de Junho de 2004 passaram 20 anos da morte de Michel Foucault. Devo-lhe muito, aliás, um dia este homem salvou-me quando no final da licenciatura me meti a fazer uma tese sem qualquer chão.

Quando perguntaram a Foucault como se definia - estruturalista, pós-estruturalista, pós-moderno - ele respondeu algo do género: "não peçam para dizer quem sou e não me peçam para não mudar". A coerência desta resposta com a sua obra é toda, não só porque mudou de perspectiva em várias questões centrais, mas também - um também que é sobretudo - porque, entre o fatalismo e o cepticismo libertário, os seus questionamentos foram sempre em busca de tudo aquilo que perdemos por sermos quem somos. Um mote que tanto se oferece à persecução da história da modernidade, como à apologia da empresa antopológica enquanto resgate de outros universos de sentido, outras culturas. Ele acreditava nos limites do que podemos fazer, pensar e imaginar, e, ao escavar como esses limites se vieram a confundir com os contornos daquilo que tomamos como verdade, Foucault legou-nos preciosas pistas para a sua superação. Mostrou-nos, enfim, como "nós estávamos destinados a esta amarga e crepuscular sabedoria de não ter por nossos os discursos com que falamos" (Vergílio Ferreira). Detemos, na verdade, uma sabedoria estreita construída segundo a inédita capacidade que a modernidade inaugurou para produzir realidade articulando poder e conhecimento. Uma realidade singularmente fortificada pelos dispositivos que asseguram os "regimes de verdade":

Numa cultura e num dado momento, nunca há mais de uma episteme, que define as condições de possibilidade de todo o saber, quer seja o que se manifesta numa teoria ou aquele que é silenciosamente investido numa prática. ... Este a priori é aquilo que, numa época dada, delimita na experiência um campo de saber possível, define o modo de ser dos objectos que nele surgem, arma o olhar quotidiano de poderes teóricos e define as condições em que é lícito tecer um discurso sobre as coisas reconhecido como verdadeiro. (em as Palavras e as Coisas)

Seios em Flor

Laetitia: As flores e os frutos


Primeiro, com a primavera, vieram despontando os decotes em flor. Surgiu então o dia em que diáspora dos pólens infundiu as paisagens humanas, sem apelo. O solstício último assinalou o princípio das horas em que se recupera a ancestral intimidade entre os seios e o relento dos dias que às vezes são noites.

Sabemos que nas culturas ameríndias era costume ouvirem-se os elementos; não raro era alguém entabular conversas com as árvores. Podemos avançar que, no fundo, perdemos o hábito de escutar as vozes insuspeitas. Pois creiam que estamos a viver nesse tempo em que tantos seios enfim aparecem - exuberantes ou discretos - apenas para dizer que sempre lá estiveram. Para lá da imaginação, das grossas camisolas de lã, da memória e do esquecimento. Eles já lá estavam. Ler estes sinais é saber "conversar" com as epifanias do encanto.

O simulacro da democracia: um possível estudo de caso

Todos a Belém Domingo às 19 horas

A questão suscitada pela provável nomeação de Durão Barroso para presidente da Comissão Europeia coloca na reflexão política uma diferença muitas vezes pouco considerada: a diferença entre legalidade e legitimidade. Ou seja, se do ponto de vista legal a substituição do primeiro-ministro é concebível, do ponto de vista da legitimidade democrática ela seria algo de profundamente sinistro.

Aos convivas

"Chego atrasado ao mundo dos blogs atraído pelas modas dos solitários de fim-de-semana. Em bom rigor para mim faz sentido, sobretudo aos dias da semana". Assim dizia eu no primeiro Post. Hoje sei que vim ao engano. Na verdade, estou a gostar desta "moda" duradouramente cultivada e partilhada. Deste engano, no fundo. O meu muito obrigado a tod@s os que lembraram o aniversário deste blog com animadoras palvaras (e não só nalguns blogs o avatares também foi parabenizado com fotos da Laetitia Casta, vá-se lá saber porquê...):

A bordo, A., Adicta (anti-monotonia), Am (assumidamente), Ana Margarida (Olhar nítido) Américo, Ana Sá Lopes (Glória fácil), António (Luminescências), António Jacinto (Opinion Desmaker), Ardelua (terna é a noite), Augusto, Boss (Renas e Veados), Blog-notas, ByeXinha, Cafageste, Carlos Araújo Alves (Ideias soltas), Charlotte (Bomba Inteligente), Claire Lunar (Little Black Spot), Cristina (O farol das artes), Daniel Figueiredo, Dora (Levemente erótico), Eduardo (Bloguices), Fernando (Angústias de um professor), Fmp (Jardim à beira-mar plantado) Francisco Curate (daedalus) Francisco José Viegas (Aviz), Ginger (Água Tónica e Ginger ale), Gotinha (blogotinha), Guilherme (Lembranças dos Guerreiros), Homem das neves (Fennia), Inês (My Moleskine), Isabel (Monólogo), Isabel G. , J. C. (A tribo dos sonhos), Jamiroo (A-tasca), jcd (Jaquinzinhos), João Morgado Fernandes (Terras do Nunca), José Carlos Soares (Eu vou mas volto), JPN (respirar o mesmo ar), Leonel Vicente (Memória Virtual), Lila, Luis Novaes Tito e Carlos Manuel Castro (Tugir), Luís, Sofia, André Bonirre, Pc (a natureza do mal), Lutz (Quase em português), m. (Azul Cobalto), Manuel Marques (Palombella Rossa), Maria das Flores (conversa na travessa), Mário, Marta (Corpo Veloz), Marujo (Cibertulia), Masson (Almocreve das Petas), Miguel (O olho do girino), Miguel (Viva Espanha), Mouro, Muska (Lembranças), Nelson Ferreira (Duque das Quinas) , Nuno (A aba de Heisenberg), Nuno Guerreiro (Rua da Judiaria), Nuno Vargas (Catalunya at Large), O Narcisista, O Parolo, off (off Line), Paulo (Mundo imaginado), Paulo Gorjão (Bloguítica), Paulo Pereira (Blogo Social Português), Placard, Pedro (Ilhas), Pedro Farinha (O Farol das Artes), Pianodrunk (Blog do Piano), Placard, PreDatado, Ricardo (Adeus), Rui Branco (Adufe), Rui Silva (klepsydra), Sara Pais, Sérgio, Thita (des-venturas), Tiago (O melhor anjo), Tiago Oliveira (Voz do deserto) Tiago F. (A tribo dos sonhos), Udkm, Vasco (pensamentos ocasionais), Ventura (Boémias), Wr (Fórum comunitário) e Zazie. Muito obrigado

p.s. Comuniquem e eu tratarei de corrigir eventuais erros e omissões presentes nesta lista.

Cidadania gay


Realiza-se este sábado a marcha nacional do orgulho LGBT. Ainda hoje muitos se apressam a ler este tipo de manifestações como exibições provocatórias com o propósito de chocar. Há que perceber que o que se erige ali é, acima de tudo, a celebração de uma diferença que na nossa sociedade é muito difícil de assumir na vida de todos dias. Os LGBT não nascem e morrem em paradas, e é em casa, com os pais, no trabalho, nos círculos de relações, onde, não raras vezes, são confrontad@s com formas de discriminação nem sempre fáceis de enfrentar. As estatísticas das taxas de suicídio em adolescentes gays são bem expressivas do quanto há a trilhar para o direito de poderem amar livremente - pessoas e não sexos. A sociedade e a lei continua a punir quem não consegue amar by the rule, a marcha trata-se, creio bem, de uma jornada de cidadania pelo direito à diferença: o direito a ser diferente, o direito a ter direitos na diferença. O ano passado na Holanda, numa normalíssima esplanada, um rapaz lá sentado recebeu o seu namorado com um beijo. Fiquei chocado, mas por perceber que era a primeira vez que estava a ver na minha vida essa cena simples, ali tão trivial. O facto de se ser heterossexual não deverá justificar um alheamento em relação a tais formas de injustiça social.

Aniversários

Natureza do mal. Há cerca de um ano Luís e a Sofia criaram um dos cantinhos mais aconchegantes da blogosfera. Por lá nos recostamos naquela escrita, que, entre os dias e as noites, adivinhamos cerzida a meia luz. Se visitássemos a fábrica, ouviríamos talvez o teclado pausado, ansioso por orações, disputando ecos à rodagem do cd quente, cujo fumo mais não será do uma música semi-chorosa. De fundo, confundindo-se com um silêncio, lá deverá estar, sob a voragem electrónica, a trabalhadora ventoínha que habita junto ao coração de cada computador. Juntaram-se André Bonirre e PC, em boa hora o fizeram. À ventoínha ninguém liga. Se o mal é isso, o meu nome é Fausto. Parabéns. (A Ana Sá Lopes, não quer conhecer o Luís, o seu blogger perferido. com medo de estragar uma afinidade perfeita. Ana, para ser conciso, eu diria que se vê mesmo que não o conheces - muito pouco a recear, creio bem) (smile)

Terras do Nunca
. Para além da esquerda e da direita, o João Morgado Fernandes é homem para se perder por uma "visão" em plenas escadas rolantes, é assim, ele é dado a estas visões em que o divino de um corpo escondido em aprumadas calças de ganga se impõe à premência da política do dia. Há um ano que as curvas e recurvas sentenças de oposições e governos abastecem os dias de posts, crítica não alinhada, claro, orgulha-se, porque por aquelas terras as escadas rolantes serão a metáfora para a contínua necessidade de calibrar perspectivas. Parabéns.

Opiniodesmaker. Como prova da antiguidade deste blog posso afirmar que o António Jacinto me deve um fino há quase um ano. As entradas do dicionário não ilustrado, hoje como então, estão arreigadas no bom uso uso da língua, nas provocações, na crítica social, nas gajas, na "difamação softocore". No fundo, por ali percebemos um tablóide erudito, escrito por um monge treinado em letras, em constante crise de vocação, por causa delas. As gajas, pois. Parabéns.

I love this game


Helder postiga: Sabemo-lo. O futebol resgata os seus nos momentos em que eles mais precisam. Depois de uma época sem jogar no Totenham, muitos ingleses chegaram a gozar com a convocação para a selecção do ex-avanaçado do Porto. Renasceu das cinzas e fez o golo mais importante do jogo de ontem, o golo da salvalção. O golo da nossa salvação. (o "nossa" escapou-me, mas não canto aquele hino horrível).

Coragem: a substituição de Scolari ao tirar Figo

Momento do Jogo: O penalti que o Postiga marcou ao James. Não se faz. Como é que um puto, sabendo que se falha Portugal acaba ali - não a selecção, mas a nação propriamente dita - tem a frieza, a confiaça, a ousadia e a deliciosa estupidez de intentar uma habilidade normalmente guardada para gozar com os guarda-redes nos treinos. Recordo a cara de alegria e estuepafacção de Deco após o remate Postiga, a sua face claramente dizia: "Passsou-se!" Lindo.

Ricardo Carvalho: Carlsberg man of the Match Como diria José Mourinho: mais uma exibição absurda. No outro dia uma ex-namorada chamou-me a atenção para a beleza do seu sorriso tímido. Embora eu seja suspeito para avaliar o seu bom gosto, desta vez percebo-a.

Rui Costa:
Quem sabe, sabe. Grande golo. Dado que nada retira à apreensão com que encaro a ausência de Deco no próximo de jogo, por castigo, e a provável titularidade do ex-prícipe de Florença. [Afinal o Deco joga. A apreensão vai então para os suecos e holandeses].

O herói: às vezes desenham-se histórias bonitas num jogo de futebol. Após 5 penaltis em que Ricardo andou a fugir da bola com assinalável sucesso, talvez a jogar ao mata - será que Scolari o induziu em erro com a história do mata-mata? -, defendeu e marcou, resolvendo o jogo. Nenhuma surpesa para quem se lembra dos vários penaltis que concretizou no Boavista. Bonita, a história das luvas: "A defesa sem luvas? Foi o instinto. Precisava de qualquer coisa que me alimentasse a possibilidade de defender um penalty."

Deco
: Como dizia o cafageste, glosando Nelson Rodrigues, o Deco é o Deco. E este é o maior que se lhe pode fazer. O Deco é o Deco, mesmo a jogar a defesa direito.

Beckham: o primeiro a testar a má condição do relvado da luz. Teve azar.

Ela avisou


Closer to the sky, closer, way up high, mais perto do ceu, mais perto do ceu la, la...






E quem resite por estes dias aos encantos da Pop bilingue?










Muito, muito obrigado!

Enlevado, tão comovido como perplexo por tamanha generosidade, leio dádivas - chamo-lhes dádivas, e de facto são dádivas -: os comentários, os posts e os mails de todos quantos tangeram o teclado para desejar felicidades a este blog. Fica aqui expressa a imensa gratidão pelas palavras doces, as dos velhos conhecidos de outras conversas, e as daqueles que normalmente aqui passam sem deixar rasto. Com a devida actualização, voltarei em post próximo para agradecer a cada uma, a cada um. E, claro, voltarei para continuar a falar com os que estoicamente aturam os meus devaneios vários e obsessões poucas. Muito obrigado. (smile) (tear)

1 ano de avatares

Casualmente alinhado com o solstício, este blog cumpre o seu primeiro aniversário.
Um ano... Sinceramente, nunca pensei.


(Foto de Jeffrey K. Bedrik)

"Preciso de espaço..."

"Preciso de espaço". Solene, esta é uma das frases mais celebremente empregues nas relações amorosas. Se às vezes uma tal declaração será lida como o prenúncio de um fim desejado, noutras situações ela é apenas uma forma de "calibar" a lógica relacional.
Forçando um pouco a coisa, distingo dois tipos de "espaçosas/os":

1- Os espaçosos de vocação, aqueles cujos termos da individualidade colidem com a ideia de uma ligação afectiva muito apertada.
2- Os espaçosos defensivos, aqueles que guardam um espaço pessoal, um espaço que, pretendem, não se deverá rebolar com amores. Estamos perante uma estratégia para salvaguar um "eu-reduto" das costumeiras perdas e desistências do querer. Aquilo que num registo algo essencialista Jorge Luis Borges chamava "o íntimo coração que não se revela em palavras, não trafica com sonhos e que o tempo, a alegria e as adversidades não conseguem tocar."

No modo como eu os percebo, os espaçosos de vocação conseguem ser pessoas relativamente "bem resolvidas".
Mas para os espaçosos defensivos haverá sempre um chamamento passível de "aparecer" como uma terrível tentação: "Let your unloved parts get loved". Para elas/eles, importará fugir das "aparições" de um "mundo encantado" (Weber).


Lindo. Belo. Excelente vitória. Excelente jogo. Deco, Cristiano Ronaldo, Ricardo Carvalho e Maniche provaram o quão ridícula foi a sua exclusão desses risíveis planos ininciais de Scolari, desgraçadamente substanciados no jogo contra a Grécia. Nuno Gomes é um Jogador talhado para europeus. Fez um golo fabuloso. O Scolari-tardio esteve bem na equipa escalada e nas substituições. O Ricardo não tem sido posto à prova, é melhor assim... Será que o Figo ainda mantém as suas posições nacionalistas em relação a Deco? Como dizia o comentador da TSF, a revolução que permitiu a passagem de Portugal é uma vitória dos que militantemente criticaram os disparates de Scolari. Venceu a equipa da opinião pública.

A qualidade dos comentários de Mourinho na TVI assinala uma nova era nas transmissões televisivas de futebol. Assim aprende-se.

Conversa-debate

(Imagem roubada ao Miguel Vale de Almeida)


Os tempos que correm, Renas e veados, Cacaoccino e Conversas coloridas são alguns dos blogs que estarão representados. E, por meu entreposto, também o avatares lá estará, assim respondendo a um simpático convite da associação Não Te Prives. Apareçam.

Rua de S. Lázaro nº88



Antropologia de um desejo


Entre outras coisas, Colonial Desire conta-nos a história de um desejo. O desejo sexual que nas diferentes relações coloniais foi nutrido pelo outro, o outro colonizado. Neste livro, Robert Young, recorrendo a interessantísissimas fontes históricas, mostra como esse desejo viveu marcado pela tensa relação com o racismo e com as teorias racistas que legitimaram a dominação ocidental colonizadora. A transgressão presente nessa atracção ansiosa percebe-se bem, é a mistura difícil de combinar entre racismo e desejo. É ainda seguindo o trilho desta tensão matricial que Robert Young se debruça sobre o estatuto incerto dos produtos das relações aí germinadas, os híbridos, os mulatos. Para quem aprecia teoria pós-colonial, Robert Young será, por assim dizer, o "Homi Bhabha da carne".

Neto de "encontros coloniais", filho de dois "híbridos", a história da minha família é também, nalguma medida, a história desse desejo de que vos falo. O desejo colonial.
P.s. A fotografia da Alicia Keys com que vos brindo é, como diria Susan Sontag, a revolta da arte contra os intelectuais.

A perplexidade de

abrir a Antologia poética de Álvaro de Campos na página marcada pelo cartão de desconto do "Come em pé". A perplexidade de constatar o cartão largamente fora de prazo, mas não o poema. A ironia de pensar o preço das sandes e a lonjura do tempo amado numa mesma oração.

Parabéns

"A partir de amanhã, 17, começará a vida do «Aviz». Vivo lá e isso é suficiente."

E assim começava. O excelente Aviz fez um ano, os meus parabéns ao Francisco José Viegas.

O futebol como Evangelho. História de um convertido


Quando se fizer a história da passagem de Scolari por Portugal terão que ser considerados dois Scolaris, como se faz para analisar dois momentos da obra de um pintor ou de um filósofo (salvo seja!). O Primeiro Scolari, o casmurro derrotado, que deixou o Baía de fora e fez toda a preparação e o primeiro jogo do europeu com equipas risíveis, e o Scolari Tardio, o convertido à magia da equipa que foi o núcleo de uma taça Uefa e de uma Liga dos campeões. Como dirão provocativamente alguns, o Scorali convertido à magia de Mourinho, Esperemos que o Scolari Tardio não seja o Scolari do tarde demais.

A lei e as sms's

Desde que se soube que conduzir e falar ao telemóvel pode dar direito à apreensão da carta, tenho assistido a um fenómeno curioso: é que agora, em alternativa, escrevem-se sms's em andamento. Para não se correrem riscos, claro.

Faccioso, eu?

Escreve o mui caro Pedro farinha no Farol das Artes:

"Depois de O meu Pipi , este [Fora do mundo de Pedro Mexia] foi o segundo livro feito a partir de um blogue, mas na verdade foi o primeiro porque o outro não é um livro, apenas lixo. Existem outros blogues que mereciam igual tratamento, o Blogue de Esquerda, o Aviz e mesmo o Avatares de um desejo desde que se cortassem os post futebolísticos, é que apesar de o Bruno ter as mesmas simpatias clubísticas que eu, não é [capaz] de manifestar um laivo de imparcialidade. Não faz mal Bruno, o Miguel Sousa Tavares sofre do mesmo defeito e tinha maiores obrigações."

Mas se pensarmos bem, a história, ela sim, tem sido estupidamente facciosa. Eu procuro ler os seus sinais com a objectvidade possível. (smile)

Amores de Verão

Os amores de verão. Fulminantes, intensos, poéticos, esmaecem sob a areia porque não são vivíveis, dizem. Assim acontece porque supostamente pertencem à liminaridade, à passagem representada por uma estação que subtrai os amantes aos costumeiros mundos da vida. Pelo que me contam estou cada vez mais convencido que os amores de verão não são um fenómeno sazonal, mas uma metáfora de largo alcance que nos fala do modo como tantas vidas se cruzam. Em tantos momentos do ano, às vezes anos.

Larga de ser burro

Scolari já não vai a tempo de forjar uma equipa de futebol, mas só se for muito tapado é que não aplica este upgrade que aqui sugiro para enfrentar os russos. Entram estes:

Saem: Fernado Couto, Rui Costa e Simão.
Para ti, Scolari, é de graça.

Chico


Apanho a boleia de Filipe Moura que inicia a "semana buarqueana", antecipando o 60º aniversário de Chico Buarque, no sábado.
Deixo-vos com o excerto de um excerto de um delicioso registo trágico-teimoso:
Até o fim

Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
...
Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, minha mula empacou
Mas vou até o fim

E se Durão Barroso se demitisse?

Eu não o censurava. Dedicar-lhe-ia minha inteira compreensão e apoio. Aliás, acho que pela primeira vez o nosso Primeiro teria o país a apoiar uma medida da sua governação. Primeiro o Iraque, depois Portugal, decididamente 2004 é um ano ingrato para as coligações.

O corpo engajado

Nove esposas de jogadores da selecção Russa, a próxima adversária de Portugal, decidiram incentivar a sua equipa de forma peregrina, isto é, emprestaram os seus corpos posando nuas com as fotografias dos seus "mais que tudo".

Tal como Portugal, a Rússia perdeu o primeiro jogo. Tal como Portugal, a derrota não se abateu por falta de apoio. Mas enquanto alguns põem a bandeirinha na janela, as emergentes culturas expressivas do nacionalismo mostram que novos contornos simbólicos são possíveis.

Se os russos forem para casa mais cedo não fico com pena nenhuma.


"Psicologia banha-da-cobra de José Mourinho", pois

Comovente: o esforço de Rui Tavares para extrair algum tipo de conclusão do Portugal-Grécia. Conseguiu nem falar de Scolari. Nota-se algum desespero nesse desejo anti-Mourinho/anti-porto. Uma dica: quando forem mesmo eles a perder a coisa sai mais fluida.

O pior é que fico triste...


A besta do jogo: Scolari; Apanhou um baile táctico - falta de trabalho de casa -, mostrou que em tanto tempo nada se fez que se pareça com uma equipa. A qualificação foi um carnaval de experiências mirabolantes - todas falhadas.
Jogada infeliz: Paulo Ferreira; entrou nervoso, a primeira vez que tal se vê, será que faltaram as palavras certas no balneário?
A cruz que todos carregamos: Rui Costa; interessante a fazer tabelas com Figo no meio campo e passes rasgados para a linha de fundo, enfim...
Melhores jogadores: Maniche, Figo, Deco e Cristiano Ronaldo; o melhor 11 jogou os últimos 30 minutos, parece que alguém ainda não percebeu que pode jogar com os melhores de início, a UEFA não castiga. Consta.
Ausente: Ricardo carvalho; Fernando Couto e Jorge Andrade não se entenderam com os dois pontas de lança gregos. Ver Ricardo carvalho no banco até deve dar para rir à europa do futebol.
Momento aviltante: a conferência de imprensa de Scolari; Ainda não houve um mau reultado que ele não descalçasse com erros individuais dos jogadores. Uma estratégia discursiva que há muito pretende fazer esquecer o futebol (não) jogado pela sua equipa.
A surpresa: o apoio do público; Parece que a conversa de uma bandeira por janela pegou.
O que eu gostava: ter acompanhado o jogo com os comentários de José Mourinho

Agora bem podemos fazer contas. Mas, gostemos ou não, esta equipa esteve à imagem daquela que conhecemos em toda a qualificação. A minha convição é que se algo conseguirmos de bom será sempre "apesar de Scolari".

As Mamas do antigamente

simulacro vs realidade

Um amigo meu abre a Maxmen e pede-me uma opinião: "achas que estas mamas são verdadeiras?" (acho que se referia à moça da selecção checa). Eu, quase sem olhar, respondo de pronto que sim. Explico-lhe que no mundo do simulacro, que vivemos pelos media, tudo é igualmente verdadeiro, até o silicone - embora nesse particular me afirme como um naturalista, e deteste a sensação de estar a ser ludibriado. Para rematar socorri-me de uma frase com que Baudrillard inicia uma das suas obras:
O simulacro nunca é o que oculta a verdade - é a verdade que oculta o que não existe. O simulacro é verdadeiro.
Cansado do meu paleio, ele reformulou: "achas que estas mamas ainda são das do antigamente?"
Percebi que ia na sua íntimo uma enorme nostalgia em relação às certezas de outrora.

Pesar


Sousa Franco faleceu.
1942-2004.

Palavras feias

Desvirgar (de des + Lat. virgo, virgem, tirar a virgindade a.)

Pelo som, pelo sentido, considero este um dos verbos mais feios que a língua portuguesa consente. Tão macho, tão conquistador, tão coisificante... Arrghh

Blogosfera: whatever that means

São impressionantes e variadas as tranformações que a blogosfera tem sofrido desde que eu comecei a dar atenção ao fenómeno. De muitas metamorfoses temos dado conta: a mudança do espectro político dominante, a diversificação das causas e dos temas, a partida de alguns notáveis do burgo, a chegada de outros, etc. Mas há algo que se torna muito palpável nos termos que o diálogo blogosférico passou a operar; refiro-me a uma evidente fragmentação das conversas e dos temas de interesse. Este meio, a avaliar pelo sitemeter, parece crescer consistentemente no número daqueles que atrai, mas cresce de um modo que já não nos permite pulsar a dimensão da coisa no sentido mais amplo. Isto é, cresce mais difusamente, o que agora se verifica é que os blogs entram em relação dialogante com outros blogs com quem já têm uma "tradicional" simpatia ou antagonismo. Ou seja, assistimos a uma estabilização dos interlocutores priveligiados e à perda de capacidade de algumas vozes para chegarem "a todo o lado". A prova disso é conspícua, basta pensar como longe vai o tempo em que um post podia percorrer a blosfera de lés a lés. Não há nisto qualquer nostalgia, nem acho que ela se justifique. Constato apenas que a profusão e consolidação de familiaridades concêntricas faz respirar uma nova lógica no modo de ser da rede.

Breaking the Waves


Põe-nos a pensar esta Rebecca. Mas, além de uma mulher encantadora, quem é a Rebecca?

Mulheres ao relento

Mia Couto contava algures a história desse insólito sonho. Refiro-me ao sonho de um homem que adivinhava todas as mulheres do mundo a dormir ao relento, na noite da sua morte. Prodigiosa, a sua imaginação partia de um costume da sua etnia de nascença, segundo o qual toda a mulher se deveria deitar sob a lua na primeira noite da sua viuvez. Suspeitaremos que a ideia de tanto mulherio, dormindo em sua saudade, mais não seria, para tal personagem, do que o ansiado espelho da glória e da estima que a sua vida haveria de granjear. - Engraçado, como os castelos que contruímos se arreigam às edificações da nossa cultura, ou não fosse já a metáfora dos castelos da areia uma emanação particular das poéticas que cada gente constrói à beira dos seus mares. -
Colocando a morte na vasta constelação dos fins, haverá algo de profundamente lamentável quando a existência se mesura pelas pessoas que, ao longo do caminho, por nós dormiram ao relento. Ainda assim há quem hesite entre o ideário de todas as mulheres do mundo numa noite ao luar, e a imagem de uma só mulher lembrando quem partiu, sob o céu, nas noites, toda uma vida; E este último é o mais cruel dos alentos que alguém pode ter. O relento de uma perda é uma passagem que, a seu tempo, todos visita. Se alguma lição o rito nos deixa é que uma noite deveria chegar.

Somos todos gregos

Em conversa, contava eu as minhas dúvidas acerca do melhor espaço para ir ver o Portugal-Grécia daqui a uma semana. Não sei por que carga de água, alguém me sugeriu a embaixada da Grécia no Porto ou a Casa do FCP em Atenas. Por estes dias é perigoso uma pessoa afirmar-se como pós-nacionalista desprezando as fronteiras e as bandeiras que agora se compram no Continente. Provocativo mesmo seria invocar as nossas raízes, glosando Sócrates: "eu não sou ateniense nem grego, mas cidadão do mundo". Se vou torcer por Portugal? Não por servidão ao BI.

Os perigos da blogosfera

Leio as intrigantes palavras do Cafageste - que também se podia chamar delicodocemente "o bom malandro" - em que o avatares é considerado "de longe o melhor blog português". Há poucos dias a Marta e Eduardo chamavam-me carinhosamente o Dj da blogosfera. Eu não preciso de mais provas das graves perturbações provocadas por este fenómeno virtual.

Deficiência e Sousa Franco

Em comunicado, a Associação Portuguesa de Deficientes (APD) manifestou "profundo repúdio e condenação pelo facto de elementos da coligação "Força Portugal" se terem servido de características físicas para depreciar um seu opositor.

Como bem nota Miguel Vale de Almeida, o PS confundiu as coisas ao denunciar o racismo da coligação PS/PSD. Mas é interesante pensar porque é que Sousa Franco logo correu para o racismo. Permitam que teorize.

Primeiro, porque o PS quis fazer apelo a uma forma de discriminação que tem mau nome na nossa cultura (o despertar do colonialismo e do holocausto marca grandemente essa carga desqualificadora do "racista"). Segundo, porque não existe um mau nome - ou sequer um nome - para classificar a situação estrutural de discriminação a que as pessoas (ditas) deficientes estão sujeitas na nossa sociedade (O Inglês permite disablism, disabled persons=persons disabled by society). Devemos perceber que embora as diferentes formas de discriminação nos devam merecer diferentes quadros de análise, a reacção do PS não deixa de expressar uma outra realidade mais ampla onde se desvela uma irmandade nessas formas de opressão: as sociedades modernas são profundaments somatocráticas, isto é, estão fundadas em formas de hierarquização social baseadas nas classificações do corpo. Racismo, sexismo, homofobia, e a "deficientização" constituem formas de naturalização de hierarquias sociais numa cultura matricialmente marcada pelo determinismo biológico. Inscrevem-se, por isso, nessa vocação comum de uma cultura somatocrática.

Adeus




Os caracteres do amor

Após o ocaso das cartas de amor, a emergência das sms e dos mails fez com que as relações amorosas voltassem a ser profundamente literárias. Chegará esse tempo em que a intensidade de um enleio afectivo poderá ser medida pelo número de caracteres trocados.

As notas de medicina. Quotas para homens?

Defendidas Quotas para Travar Entrada de Mulheres nos Cursos de Medicina .

"O bastonário sabe que, "com o actual sistema de acesso aos cursos de Medicina, entram mais mulheres do que homens" nas faculdades. Para isso conta muito, em seu entender, o facto "de as estudantes terem mais juízo e estudarem mais do que os rapazes".

Eu não sou, como muitos, contra a ideia das quotas por princípio. Entendo que em muitas circunstâncias as quotas devem funcionar como uma discriminação positiva, pois, só assim, contra tessituras sociais estruturalmente excludentes, é que é possível garantir a igualdade de oportunidades. É por isso sou a favor das quotas, por exemplo, para as mulheres na assembleia da república e para promover o emprego de pessoas com deficiência. Agora, o que se passa com a medicina nada tem a ver com desigualdade de oportunidades, mas sim com notas de entrada altíssimas, que exigem que o estudante tenha, numa importante idade para "ver mundo", uma grande capacidade de abdicar de muitas dimensões a sua vida. Algo que, por razões sócio-culturais, acontece mais facilmente entre as mulheres. É um exemplo disparatado, eu sei: No ano em que eu fiz os exames de acesso decorria um europeu de futebol com dois jogos por dia. Provocativamente, afirmo não ter dúvidas que esse europeu contribuiu para uma feminização do ensino superior. É desejável que a entrada para os cursos de medicina não exija um tão grande centramento vivencial nos resultados escolares, mas, até lá, queiramos ou não, no que concerne à prevalência dos sexos, é a meritocracia a funcionar.

Promiscuidade entre o Rock in Rio e o FCP!

Parece que andam a distribuir uns lenços brancos no Rock in Rio. As consequências da disseminação destes recuerdos no nosso país são imprevisíveis. Eu acho que Scolari não merecia isto.

Ex's: Um dilema antigo

"Ao contrário de alguns amigos, eu defendo academicamente que não devemos, em caso algum, manter amizades com as ex."

Um dos grandes vazios do património cultural ocidental prende-se com a relação de amizade que é possível estabelecer ou não com as/os ex's. Quase todas as tentativas de construir uma amizade após a relação amorosa fracassam. Não surpreende, pois, esse estranho figurino pós em que o único elo que é tornado emocional e socialmente concebível, se resume à sms no Natal e nos anos, e aos encontros acidentais na fila da charcutaria do hiper-mercado. É possível construir uma amizade com as/os exs? Quanto tempo depois?

Estas são questões pessoais e relacionais por muit@s vividas, mas a resposta tende a ser tão difícil de encontrar exactamente porque nos coloca perante dilemas culturais "novos" na sua escala social: dilemas característicos da modernidade tardia em que vivemos. Perante esse estranho vazio que tantas vezes fica, não exagero muito quando digo que a difícil amizade com as/os exs deveria ser pensada como um problema de civilização.

Adeus ao Dicionário do Diabo

"Sem ambiguidades, fico contente que o dicionário não feche a loja. Não deveria ser tão custoso dizê-lo!" Escrevi-o em setembro de 2003, aquando da ameça de um terminus precoce do Blog de Pedro Mexia.

Pois, mas desta vez Dicionário do Diabo acabou mesmo. Nos últimos tempos a actualização era já muito esparsa, ainda assim, o anúncio de um final simbólico, electronicamente consubstanciado, não deixa de representar uma partida significativa para quem, como eu, tanto apreciava aquele registo intimista (diferente de expressão da intimidade), quase-depressivo e profundamente auto-depreciativo. Acerca daquilo que me atraía na estética bloguista de Pedro Mexia, já prosei longamente aqui, aqui. Os Posts de Pedro Mexia ficarão registados num livro que saiu há dias: Fora do Mundo. Soube-o pelo próprio Pedro, que me contou a nova a propósito de um texto meu que por lá é citado. Ademais, registo a simpatia: o Diabo, segundo alguém me disse, fez constar o meu nome dos agradecimentos dessa antologia. Resta esperar, doravante, que ele vá aparecendo no seu blog colectivo. Para terminar, deixo-vos que um daqueles posts, um post à Mexia:

"FARTO: A conversa decorria há meia hora. Começava a estar farto de tanta banalidade. Farto de tanta estupidez. De tanto sentimentalismo, verborreia, imbecilidade. Farto de frases descosidas, menores, absurdas, repetitivas. Farto de tanto aborrecimento. Assim sendo, decidi calar-me e deixar que ela enfim falasse um bocadinho."