Angels in America

Hoje na 2:, às 22:30. O mais certo é eu ficar a olhar para o tecto, mas, investido de algum querer, vou-me tentar sintonizar. Acontece-me.

vamos ver se as expectativas são justificadas.

Mediascapes* de afeição: Jennifer Connelly



A minha actriz preferida. Pelo menos a única que me levaria a ver um filme como Hulk.

*Conceito autorado por Arjun Appadurai para designar as representações imagéticas globalmente disseminadas à boleia das tecnologias visuais do capitalismo pós-industrial.

Vozes armadas em destino

Vocação.
É um estranho étimo. Como se leria num dicionário de letras pequeninas, ele conta como acalentamos a voz para chamar por ti. Mas a palavra entrega-se a mais, e podemos perceber nesse chamamento o nosso inóspito destino.

Falaram-me de uma mulher que te chamou até perder a fala. Gritou uma vida. Só quando um silêncio dorido se pôs é que foi compreendida essa recurva homonímia; sempre postumamente estudada, diz-se.

do Lat. vocatione s. f., acto de chamar; inclinação ou propensão natural; Predestinação; escolha, talento.

Os pós-devotos

Na sua simpática lista de agradecimentos, JCD chama-me antropólogo pós-moderno de devoção mourista. É óbvio que protesto com todas as palavras menos com o "de". Em todo o caso, a ser verdade, assim se provaria que as formas de devoção na pós-modernidade não foram abolidas, foram, isso sim, renovadas e tornadas exorbitantemente plurais no seu espectro de possibilidades.

A prática moderna nunca se conformou às suas projecções modelares. (Trangressão já augurada no modo como Camões superava os contornos da devoção petrarquista - Camões perdia-se por morenas de olhos verdes). Acredito, como nos assevera Bruno Latour, que nós nunca fomos modernos, mas também sei que nunca deixámos de o ser. Levando a conversa para latitudes que certamente exorbitam a sua origem, acho que, longe de ser uma contradição os termos, faz todo o sentido esta curiosa ideia: a devoção de um pós-devoto.

Entendo, pois, que a pós-modernidade também pode ser definida, em alguma medida, como a lonjura da devoção de origem. Sim, talvez eu seja um pós-devoto, e, nesta perspectiva, talvez seja um pós-moderno. Mas sou, ainda assim, um devoto. Tal como a modernidade nos persegue, há inclinações que não nos largam.

Gajas boas e gajos bons: dizeres


Desde a minha adolescência, aprendi a regrar aqueles comentários que eram feitos a propósito das desconcertantes aparições de algumas figuras do sexo feminino. Hoje, mais maduro (não muito), considero sexista essa história dos rapazes/homens segredarem odes acerca das mamas ou do rabo de uma mulher que passa. Não acho bem. Na verdade, essa ritualizada afirmação da masculinidade, no fundo a afirmação da capacidade masculina de desejar, segue uma narrativa patriarcal em que a mulher é cosificada e despida (boa metáfora) de subjectividade perante um olhar sedento e conquistador do poderoso homem ( aquilo a que Donna Haraway chama conquering gaze from nowhere, para referir o modo como o olhar masculino se conflui com um olhar-de-Deus). No entanto, e em sentido inverso ao meu itinerário pessoal, venho assistindo ao modo crescente como as mulheres e a malta gay exaltam publicamente os gajos bons. Como as coisas não são simétricas, esse fenómeno tem uma leitura completamente diferente: representa um texto emancipatório em que expressão pública de determinadas avaliações estético-eróticas vê alargado o seu espectro de "autor@s", pessoas onde tais expressões foram - e são ainda - uma base de desqualificação (as acusações clásssicas: as levianas e os maricas). Embora ache que às vezes é redutor pensar as pessoas como um corpo, não sou abolicionista, ou seja, mesmo perante esse espectro de uma indesejável des-subjectivização, não defendo o fim d@s estetas-eróticos-do-quotidiano. No entanto, hesito entre a ideia da desejável democratização dessas expressões e a percepção de que às vezes algo se perde nessa vocação para pensar corpos fora do contexto. Isto é, fora das complexidades de quem "lá mora" (passe o dualismo corpo-alma).

So Simple: a minha selecção

Dir-me-ão que esta selecção é muito próxima do 11 inicial do Porto. Estarei eu toldado por um gravoso facciosismo clubista ou a equipa do Porto é de facto, como agora já se pode dizer sem escândalo, a melhor da Europa?

Vítor Baía
Paulo Ferreira, Ricardo Carvalho, Jorge Andrade, Nuno Valente
Costinha, Maniche
Deco
Figo,Simão
Pauleta (uma vez que Derlei ainda não se naturalizou)


Gostava de saber onde anda um sagaz comentador da RTP chamado Jorge Baptista. Explico, numa tentativa de linchamento público, esse sábio da bola afirmou, há dois anos atrás, que a carreira de Baía nada mais havia sido do que uma estratégia de Marketing muito bem montada. Pois, o Marketing continua: Baía não para de erguer taças para a fotografia! E tu, Jorge Baptista, se queres continuar a ser ouvido sobre futebol, começa telefonar para a bancada central da TSF. Conselho: não reveles o teu nome verdadeiro. Uma questão de Marketing, pois.

Esse mundo que dói

Relatório da amnistia internacional
"(...) International human rights standards continued to be flouted in the name of the "war on terror", resulting in thousands of women and men suffering unlawful detention, unfair trial and torture – often solely because of their ethnic or religious background. Around the world, more than a billion people's lives were ruined by extreme poverty and social injustice while governments continued to spend freely on arms.(...)"

Lindo. Tão lindo...

Olha quem são eles!


Vamos comandante!

O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurrando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Estão falando alto pelos botecos...
(Chico Buarque)

Porque o amor às vezes tambem é uma estranha forma de futebol sem bola

Ansiedade...

ah...Como gostaria de ver o Porto a erguer a orelhuda 17 anos depois... Como acalento ver essa tribo onírica voltar a cobrir-nos de arrepios. Mas, como bem o provou a maravilhosa atitude dos adeptos do Celtic, importa que estejamos imbuídos de um espírito que nos permita aplaudir os vencedores, sejam eles quem forem... Eu acredito que serão velhos conhecidos. Espero.

Nelly

A voz, a simpatia compulsiva, o olhar, o jeito de menina, o português macarrónico, a cosmética da pop mainstream, o peito discreto... Não sei...
Há ali qualquer coisa que resulta!



Nelly Furtado

Beijos imaginados

Olho imaginando, sem querer, os beijos que não posso querer.

Ansiedade

O site da Uefa escolheu dois jogadores para lançar a final, Fernando Morientes e Vítor Baía. Não chegaram lá à toa, curiosamente, ambos foram profundamente injustiçados nas suas carreiras, mas, ainda que às vezes ingrato (como bem disse Fernando Santos), o Futebol sabe reconhecer as suas estrelas, os seus filhos queridos. Para mim o o futebol é uma ordália de genialidade. Creio, pois, que a cruel metáfora da "eliminatória" serve tanto para as provas ordálicas impostas pelos deuses, como para a jornada da Liga dos Campeões. Chegar à final também pode ser chegar àquela Ítaca, onde o Futebol, qual esperançosa Penélope, beija os seus heróis.




Mourinho 2001/2002 [aos seus jogadores após substituir Octávio Machado]: Nós vamos ter que lutar que nem cães até para nos conseguirmos apurar para a taça Uefa, mas nós chegaremos lá se fizerem o que eu vos peço" [a taça Uefa seria vencida pelo Porto em 2002/2003, Final da liga dos Campeões em 2003/2004]

Benni McCarthy ao site da Uefa: Nós aprendemos que se confiarmos no Mourinho e fizermos o que ele nos pede, então o que ele promete torna-se realidade.

Mourinho (25/05/2004): Depois da final quero sair abraçado aos meus jogadores. Com alegria ou com tristeza, mas abraçado.

Antropologias imaginadas

Olho analiticamente, sem querer, o que romantizo sem querer...

Álvaro de campos [posterior a 1/2/1932]

Memória da dor: usos.

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Começo a ter dificuldades em perceber como alguém pode defender ou branquear as posições do Estado Israelita na situação de "massacre politicamente ordenado" que se vive no Médio-Oriente. As movimentações político-militares do governo de Sharon revelam um estranho sentido da história. De facto, é profundamente perturbador pensarmos a presente ambição aniquiladora do governo de Sharon enquanto a face política de um povo que foi tão oprimido e massacrado ao longo dos séculos.

Pensando no Holocausto, às vezes, a tentativa de nos arreigarmos à salvífica ideia de que há frutuosas lições a tirar do sofrimento, resvala para um vazio angustiante, um vazio em que tudo é perda, e onde a memória apenas dói.

Poder de a-tracção

Um vizinho apanhou-me à porta do prédio e pôs-se a contar-me os eventos mais recentes da sua vida. Não sei por que desígnios, a certa altura começou a falar da minha 4L, asseverou-me que a máquina é fiável, aconselhou-me a percorrer com ela os caminhos tortuosos da serra da Lousã. Explicou-me: "Tens ali um carro com grande poder de atracção". Depois de várias alusões a essa portentosa atracção, da qual eu não tiraria o devido proveito, vim a perceber que ele queria dizer tracção. É pena.

Nas asas de um desejo (act.)


O itinerário de transcendência do humano, representado nas mitologias religiosas de conversão ao divino, encontra uma simetria mitológica nesse fascínio nosso pela ideia da conversão de um anjo à humanidade. (Ideia representada, por exemplo, em As Asas do Desejo, Cidade dos Anjos, e também aflorada na série - quem se lembra? - Um anjo na Terra)

Duas transgressões que apelam a duas transcendências. De um lado, o confronto com deuses que são sobre a vida, do outro, o acolhimento xamânico do terreno "evangelho do amor romântico". De um lado, o itinerário missionário de trasformação do mundo, do outro, a busca de uma só alma, não para a mudar, mas para a viver indefinidamente. De facto, a idade da razão representada na agonia Sartriana pode ser a escolha de uma destas mitologias, mas pode ser também a desistência de qualquer ideia de transcendência.

Os inconversos são pois aqueles que não se sentem suficientemente generosos para se arvorarem anjos, e não se sentem suficientemente audazes para se entregarem aos desígnios de um sentimento que põe em causa o status quo vivencial.

A maternidade des-erotiza?

Laetitia

É interessante pensar o que é que um filho faz à construção da mulher enquanto ser desejável.

No homem, pela inexistência de uma metamorfose física, pela menor força do vínculo com que vivemos (salvo seja) a paternidade, e pela menor valorização de uma lógica jovem na atractividade, ter um filho é menos relevante na alteração do potencial de desajabilidade - que também é socialmente elaborado. Não são raras as mães a quem a questão da possível des-erotização adstrita à maternidade se coloca nalgum momento.









Pinochet


O desafio para este europeu vai ser escolher uma selecção para torcer. É uma falha minha, nunca me consegui afeiçoar às lideranças de déspotas iluminados. A selecção de todos nós? Duvido muito. E não me venham com nacionalismos bacocos. A identidade é feita por relação às coisas com que nos identificamos. E o Scolari decididamente, como dizia o Rui Zink, está à medida dos nostálgicos de Pinochet. Esta selecção é deles, antes de mais.

Seminário: Saúde Reprodutiva: Métodos e Direitos

A informação plural e o debate aceso estão garantidos. Lá irei, como voyeur, naturalmente.


Este seminário terá lugar a 5 de Junho de 2004, Sábado, no Anfiteatro 2 dos Hospitais da Universidade de Coimbra. É organizado pelas associações não te prives, Acção Jovem para a Paz, UMAR e Clube Safo.

Palestrantes: António Marinho Pinto (advogado, Portugal), Maria José Rosado Nunes (Católicas pelo Direito a Decidir, Brasil), Maria José Alves (ginecologista e obstrecta, Associação para o Planeamento da Família), Gunilla Kleiverda (ginecologista e autora, Holanda), Rebecca Gomperts (médica, Projecto Women on Waves)

Moderadores: Ana Couceiro (obstetra, Maternidade Bissaya Barreto, Coimbra), Luís Januário (médico, Hospital Pediátrico de Coimbra).

As inscrições são até 22 de Maio. É so preencher e enviar as fichas de inscrição.

Mais informações aqui.

Dois Beijos, a ritualização de uma esperança

Beijos

Se é verdade que para muitos os dois beijinhos constituem um ritual social aborrecido e excessivamente íntimo, também há quem veja nesses beijos duas encenaçãos de uma de uma vaga esperança.

Na verdade, para os da casta lírico-esparançosa, só quando se esvai a aspiração de tocar a boca ali tão próxima é que os dois beijos, pela primeira vez, dizem realmente adeus. Quem sabe se os dois beijinhos terão nascido como o inevitável adeus a essoutro beijo sonhado. É essa simbólica despedida à esperança a que ainda hoje assitimos, frequentemente.







Vão atrasados mas chegam, os meus parabéns para o primeiro ano do Blog de Miguel Vale de Almeida, Os tempos que Correm, e para o incansável Almocreve das Petas.

Toni, volta!

O Barnabé André Belo está ansioso para que José Mourinho vá para Ingleterra. Mas, atenção, ao contrário do que possam pensar, o seu manifesto desejo nada tem a ver com a vocação vitoriosa do ex-tradutor, que assim tem deixado aos adeptos dos outros clubes - como é o seu caso - o airoso sonho da taça. Não, o que o incomoda, como bem se percebe, são as suas declarações incendiárias. Pois...

Saudosos do futebol portugês medíocre, cizentão, sem aspirações europeias, sem figuras de carisma... eis o vosso mentor. Saindo do campo estrito da política, há quem diga que pensar de modo conservador também é isto: ansiar em cada geração pela abolição das personagens excêntricas.

Parabéns.


Há quem cinicamente considere a festa do Benfica desproporcionada em relação à conquista em causa. Ok, de facto mais parece que ganharam a liga dos campeões e um contrato vitalício com o José Mourinho. Mas eu não concordo com essas visões cínicas, acho que ao fim de 8 anos sem vitórias, uma taça de Portugal assume uma importância que os clubes habituados aos grandes momentos não poderão perceber. Por exemplo, nenhum portista nascido depois do Estado Novo pode entender a alegria que uma taça de Portugal pode conferir enquanto significante excepcional. É a beleza do futebol. Depois do Gondomarense volta-se a fazer futebol na taça, as pequenas equipas agigantam-se nos grandes momentos. Benfica é, pois, o novo tomba-gigantes do futebol português. Parabéns.

O Ameaçado



Como se ela insistisse em perceber a sua angústia, ele remeteu-a para um belíssimo poema de Borges. Desse poema apenas revelou o título e a última linha:


Dói-me uma mulher em todo o corpo.



O Ameaçado in o Ouro dos Tigres

Jorge Luis Borges






O pecado da obesidade

Estava eu a olhar para o tecto quando decidi fazer um intervalo. Ligo o jornal da SIC e aparece uma jornalista que, falando dos perigos do desporto sem conselho médico, disse algo do género: "as pessoas que antes do verão enchem os ginásios para compensar a gula..." E assim foi debitando umas coisas. É óbvio que há um certo ridículo nessa sazonalidade na preocupação com o corpo. Agora, uma coisa bem diferente é o subtexto que fica: a ideia de que quem é obeso (ou apenas não tem um corpo não modelar) mais não é que a vítima da sua propria gula.

A gula consta entre os 7 pecados mortais, mas, na modernidade ocidental, ela alude mormente um outro tipo de fracasso: O fracasso na falta de controlo individual, na capacidade de definição de um self/eu valorizado por via de um corpo socialmente aceite. Ou seja, esta subtil condenação de quem é gordo pela alarvidade e pela falta de controle é uma estupidez que muitas vezes deixamos passar. De facto, há formas de discriminação que são muito subtis e que ainda não têm o mau nome que merecem.

O estudioso

Segundo tiveram o cuidado de me informar "um tal de Pedro Amorim declarou ao Expresso OnLine que a ANACOM "pretende acabar com a existência dos chamados «blogs», páginas de opinião muito em voga na Internet, alegando que estes sítios são frequentemente utlizados para difamação." Não sei quem é esse Pedro Amorim, nem sei se ele leu algum blog para além do malogrado "muito mentiroso". Agora, uma coisa é certa, nunca o poderemos insultar o suficiente. Para lhe dar razão, naturalmente.

P.s. Afinal Pedro Amorim não disse nada do que o Expresso noticiou. Deixo aqui e esclarecimento e a resposta do próprio publicada no Causa Nossa. E não... não sei se deveriam acabar com o expresso por difamação.

Desvelar sentidos

Num mundo perfeito os gabinetes de prova da Zara, Mango, Benneton, e outras lojas que tais, serão feitos de vidros não fumados. Começamos hoje a perceber que há muita experiência antropologicamente significativa que se perde entre as cortinas do capitalismo tardio.

Escritas do norte

Ausente dos costumeiros contextos de escrita e catarse, o meu breve silêncio já mereceu reclamações. O que não me desagrada, devo confessar. Ando por terras de Braga num congresso entre os assim designados cientistas socias. Notícias para breve.

Fátima

Talvez por ser uma pessoa com fé, talvez por sempre apelar a um proverbial relativismo antropológico, tento frequentemene fazer uso de uma leitura "compreensiva" das manifestações de crença. Fátima, por diversas razões resiste a esses exercícios de "entendimento":
1- Pela mercantilização da fé.
2- Pelo pragamatismo histórico da Igreja católica, acostumada a incorporar aquilo que não consegue negar.
3- Pelo aberração cristã constituída pelo emprego do sacrifício físico, quer como como meio salvífico e redentor per si, quer como forma de pagamento de promessas.
O peregrino de Fátima é uma imagem que me perturba.

PS: arquelogia de um silêncio.

Ouso perguntar, quando é que o PS começa a levar a sério a política internacional? Quando é que o PS começa a considerar o apoio do Governo português à guerra com o Iraque - simbolica e pateticamente representado na cimeira dos Açores - uma questão política da primeira importância? Identifico algumas possibilidades para a angustiante falta de intervenção mediática, a este nível, do principal partido português da oposição:
1- A fatalidade das hesitações iniciais na oposição à guerra, substanciadas na ausência da magna manifestação realizada em Lisboa em Fevereiro de 2003
2- O complexo José Lamego
3- O calculismo político de perceber que a política internacional não decide eleições em países como Portugal, a menos que um atentado terrorista venha a sublinhar o absurdo de determinadas decisões seguidistas, belicistas e tragicamente estúpidas.
4- A pequenez de pensar que a relação de Portugal com os destinos do mundo se resume ao défice de Bruxelas e aos jogos do Porto na Liga dos campeões.
PS, acorda. Desgraçadamente a democracia portuguesa precisa de ti.

Para mim a solidão na cama

É quando alguma almofada vai para lavar.
(depois de tanta teoria no último post impunha-se um anti-climax que nos transportasse para "os mundos da vida")

Feminismo, lesbianismo: "Corpos e Prazeres"

Sigo com atenção os textos de Anabela Rocha e Pagan. Neles se problematizam os trilhos que as lógicas emancipatórias advindas dos discursos feministas e queer devem tomar. A Anabela afirma que a crescente desestabilização dos dualimos de género/diferença sexual (prefiro diferença sexual para, na linha de Moira Gatens e Judith Butler, negar um sexo puro, pré-cultural, antes de género*), e a elisão da confluência entre um sexo e uma orientação sexual normativamente sedimentada, irá conduzir ao fim do ónus da transgressão presente na ideia de uma mulher desejar uma mulher. Isto porque, nesse sentido, o conceito de mulher e a sua definição enquanto desejadora de homens ─ leitura muito simpática das categorias patriarcais que sempre tiveram alguma dificuldade com a própria ideia do desejo feminino, ainda que heterossexual ─ estariam já postos em causa. Assim, nesta leitura, estaríamos próximos daquilo a que Judith Butler ─ numa apropriação profundamente irónica de Freud ─ chama a possibilidade de “corpos e prazeres”. Uma lógica que negaria o nexo entre sexo e desejo, que Foucault identifica desvelando as práticas discursivas que produzem desejos para um sexo, ou melhor, produzem desejos para a categoria sedimentada, o ideal especulativo a que chamamos sexo (masculino ou feminino). Ou seja, não mais relações homo ou hetero, mas corpos e prazeres numa dança livremente coreagrafada, longe das regulações normativas patriarcais e heterossexistas. Como afirma Butler: Não sexo-desejo, mas corpos e prazeres” (...) “Corpos e prazeres” assinala um tempo que talvez nos liberte do nosso próprio tempo, um tempo antes/ou para além do poder regulatório da sexualidade, o foco postulado da nossa resistência à modernidade no seu estado prolongado e persistente” (Butler, 1999, minha tradução). Portanto, estamos ainda longe de poder assumir uma lógica que se aspire instalar-se fora da resistência às persistentes hegemonias tardo-modernas. Não surpreende, pois, que a radicalíssima Butler não deixe de assinalar a necessidade dos discursos emancipatórios se articularem oposicionalmente com aquelas que são as estruturas normativas hegemonicamente estabelecidas: “não faria sentido opor corpos e prazer, por um lado e “sexo-desejo” por outro, se a estrutura normativa do último continua a assombrar e a estruturar as modalidades do primeiro” (Butler, 1999, minha tradução). Aproximo-me, por isso, de Pagan, quando este chama a atenção para a necessidade de ironizar, pela transgressão - exactamente -, com os valores que sexualizam normativamente os corpos identificados como masculinos e femininos. Não obstante, ainda que os discursos que entram na pós-modernidade depressa demais, sonegando o vigor das lógicas modernas, se mostrem pouco estratégicos do ponto de vista político, eles alimentam o pensamento contestatário com utopias e horizontes que, sem dúvida, são “bons para pensar”.

* To “conced” the undeniability of sex or its “materiality” is always to conced some version of “sex”, some formation of “materiality” Butler (1990)

Fins


"Senti o que sentimos quando alguém morre: a angústia, já inútil, de que nada nos teria custado ser melhores."

There are more things Jorge Luis Borges

Dificilmente a partida definitiva de alguém nos deixa sem remorsos. As culpas próprias são então evocadas, sofridas e, eventualmente, exorcizadas. Teremos sempre que lidar com as nossos erros, gestos insensíveis, e omissões. Mas também importará perceber que, num certo sentido, eles - os remorsos - estão na "natureza dos fins".


P.s. O reconhecimento de um "tarde demais" é uma das formas - a trágica - de definir um fim.

Qual é o teu objectivo com o Blog?

Devido à minha dedicação a este espaço e a uma relativa visibilidade por ele alcançada, não é a primeira vez que alguém me interpela com esta pergunta: "Qual é o teu objectivo com o Blog?". Esta pergunta faz supor um instrumentalismo que me é francamento estranho e que, creio, tem muito pouco a ver com as motivações de quem por aqui anda. Devo dizer que gostei da última resposta que me saiu: "Obviamente, para não ter que me aturar sozinho!". Assim vistas as coisas, ser leitor deste blog é também uma espécie de baby-sitting.

SMS: a angústia do conversador em frente ao telemóvel. Say it


Ficou célebre a passagem de Abril em que Nani Moretti está a ver televisão e grita para o político: Diz qualquer coisa de esquerda!". Às vezes, esperando uma sms, dirijimo-nos para o telemóvel como quem roga: "diz qualquer coisa que te revele!". Mas, na maior parte dos casos, apenas pedimos: "Diz qualquer coisa!"

Beber para crer

Sabemo-lo, a queima das fitas de Coimbra não foi cancelada. Lá se perdeu a oportunidade para um signifcante político excepcional. Não sem indignação, lá fui ontem asseverar-me da esperável realização deste evento. Agora contratam dançarinas profissionais para actuarem em cima das barracas. Lá vão os tempos em que umas cervejas bastavam.

O Sopro da vida

Génesis 2:7 "E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fólego da vida; e o homem foi feito alma vivente."

Creio. Esse mesmo sopro de Deus pode vir pela forma de alguém que, real ou metaforicamente, respira junto da nossa face empedernida. Acreditar em Deus também pode ser acreditar numa profusão de anjos que, afinal, mais não são do que pessoas: aquelas que a toda a hora sopram as nossas narinas, insuflando-nos de fé e querer.

Aforismos de quinta à tarde

A língua está para os beijos na boca como os dentes estão para a medicina dentária.

Para os líricos a ideia de um "projecto de vida" só faz sentido enquanto a imperiosa logística de um amor.

Tenho procurado assinalar o aniversário de alguns dos blogs que se erigiram como referências aquando da minha chegada à blogosfera. O Blog de Pacheco Pereira foi, sem dúvida, um deles. Parabéns Abrupto.

Cavalheirismos? Eu feminista me confesso

Comendo à pala de um congresso, fui jantar num sítio fino. Coisa rara. Na mesa estavam, entre outos ilustres, o Ruy de Carvalho e a Maria Augusta Silva. Além da profusão de talheres - muito loiça se suja nos espaços frequentados pelas classes altas! -, impressionou-me o facto das mulheres da mesa serem sempre servidas primeiro. O garçon fazia uma primeira ronda, em que só as senhoras eram contempladas, e depois, só na segunda ronda, a malta identificada como pertencente ao sexo masculino lá recebia também alguma coisa. Para mim, que não consigo deixar de ler o cavalheirismo enquanto parte de uma definição cultural das mulheres como sexo fraco, aquilo foi uma expressão cintilante dos rituais patriarcais, desta feita disfarçados de solenidade paternalista. É óbvio que sou capaz de ter comportamentos ditos cavalheiros. Busco as raízes das práticas, mas, sem fundamentalismos, negoceio as minhas acções em função do modo como os outros as recebem. No entanto, se for a pensar em termos mais largos, entendo que os valores que sustentam o cavalheirismo não podem deixar de ser denunciados por uma agenda feminista. E não... não estava cheio de fome.

Quem é o maior?

Há tempos recebi esta foto no email com a pergunta "quem é o maior?".
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Sabendo que a foto acima foi tirada antes da final de Sevilha, respondi com esta:

Com a devida legenda, naturalmente: Quem é o maior?

Vá, perdoem o êxtase, em breve este blog procurá reconciliar-se com @s leitor@s que apreciam o que por aqui se passa à excepção das incursões selváticas pelo mundo da bola.

He did it again


Lindos, lindas, estou quase sóbrio. Hoje fui beijado por benfiquistas, sportinguistas e portistas amoros@s. Como se não bastasse, acabo a noite rodeado de amofadas - as usual -, vou tentar convertê-las à magia poética de Mourinho.
[Massagens grátis no site da Uefa]

Expectativa



O capitão do Corunha, Mauro Silva, revelou recentemente à imprensa espanhola que, no fim do primeiro jogo, foi cumprimentado por José Mourinho. Parece que nesse momento "o treinador" terá aproveitado para afirmar em tom profético que o Porto iria ganhar ao Riazor. Daqui a umas horas saberemos da veracidade desta profecia. Uma coisa é certa: ela já cumpriu a sua função.










Malibu-Cola


Começou por me explicar que Malibu-Cola não era bebida de gaja, muito menos bebida de cota divorciada. Bebeu três, e pediu o meu ouvido: "sabe menino, as pessoas que me marcaram ensinaram-me quase tudo, só nunca me ensinaram a viver sem elas."

Mas ainda há quem duvide?

Paulo Gorjão (bloguítica): "Porque será que Francisco Louçã incomoda tanto a Direita? Talvez por ele ser o verdadeiro líder da Oposição?"

Estranhos de Passagem (Dirty Pretty Things) act.

Uma oportunidade para rever a Audrey Tatou do Amélie Poulin. Só pelo seu encanto naíve - recuperado em termos radicalmente diferentes - já valeria a pena. Mas há mais, muito mais. Imigração, precariedade, exclusão, humilhação, amor, itinerância, memória. Resgatamos nós as geografias poéticas de quem não tem tempo para as viver. A vivência do amor não será um luxo de cidadãos de primeira, mas às vezes é um luxo.


Gosto desta foto: pela genial expressão dos actores, pelo underground cosmopoltism que se insinua, pelo aeroporto adivinhado no fundo, pela beleza da "trangressão racial", pela urgência da partilha.

Portugal: um país de armários


Uma amiga minha, que foi estudar um ano para a Holanda, contava a vida descomplexada que tinha em casa dos pais do seu namorado holandês. Com toda a naturalidade, tomavam banho juntos e partilhavam o quarto com a benção dos progenitores do chavalo. De facto, como eu próprio pude atestar, naquele contexto tal prática não representa nada de excepcional. Já em Portugal, é engraçado verificar como os nossos valores culturais estão ainda marcados pela valorização da virgindade pré-matrimonial, ou pela herança desa valorização. Essa opção pela "preservação" do corpo deve, no meu entender, ser inteiramente respeitada. Agora, o que eu acho ridículo, é o modo como as diferentes gerações lidam com a questão, tendo que se socorrer, frequentemente, de um jogo de hipocrisias que acharíamos cómico se não fosse na nossa sociedade. Por exemplo, é muito normal um casal de namorados nos 20 e muitos, que toda a gente "sabe" que começou a vida sexual há muito, ter que dormir em quartos separados quando são acolhidos em casa dos pais de um deles. Ao mesmo tempo que as práticas geracionais foram radicalmente transformadas, preserva-se uma lógica inter-geracional de sinais exteriores de não-sexualidade: eu sei que tu sabes que eu sei, mas, para todos os efeitos eu não sei de nada.