Os usos da teoria



No outro dia operacionalizei um conceito de Homi Bhabha para uma amena discussão com minha mãe. Pus-me no lugar do pós-colonizado enquanto falava de uma ansiedade purificadora. Para a próxima levo o lixo.



A página dos agradecimentos

Sempre gostei de atentar nas páginas de agradecimentos que constam das teses ou dos livros publicados. É interessante como, sobretudo devido à volatilidade das relações amorosas, se torna frequente depararmo-nos com agradecimentos feitos a pessoas que já lá não estão. Por isso, não raras vezes, essas alusões aparecem, pouco tempo depois, como anacronismos que nos remetem para partilhas que perderam a sua actualidade. No entanto, essas memórias escritas podem também ser o anúncio profético da paz alcançada por quem sabe guardar as dádivas daqueles que hão-de partir. O uso do tempo futuro nos agradecimentos corre o risco de os esvaziar no por-vir. Já a mitologia dos anjos nos sugeria que a gratidão não deve depender de eternidades, ou por outra, o desafio é saber beber uma gratidão eterna na estranha fugacidade das experiências que se cruzam.

Aguenta Baía, a justiça portuguesa é lenta


Em vez de andar a arreliar o coitado do valentim Loureiro, a polícia Judiaciária servia bem melhor o país se pusesse o Scolari em preventiva até ao fim do Euro 2004. Este é daqueles casos em que há um óbvio perigo de continuidade da actividade criminosa. Engraçado, Vítor Baía, primeiro apoiado por uma minoria, adquire agora o prestígio daqueles símbolos que nenhum povo gosta de ver no exílio.

1640. Annus Horribilis?

Duas razões para encarar com mágoa a restauração da independência portuguesa.




Uma forma de entrega

"A humanidade nunca se adquire na solidão; também nunca é o resultado de uma obra confiada ao público. Só a alcança aquele que expõe a sua vida e a sua pessoa aos riscos da vida pública."

Hannah Arendt

É óbvio que Hannah Arendt não profetizava acerca dos blogs intimistas (diáriós públicos, nalguns casos), defendia, isso sim, formas de intervenção na arena pública biograficamente comprometidas. Mas, por muito leves que os blogs possam ser, entre a ética e a estética, creio que fazem muito mais sentido quando aquela@ que escreve expõe a sua vida aos riscos da vida pública. Vá chamem-me cusco!

Decotes: Uma prece ao deus-sol


1- Não, não se trata do fenómeno da líbido-activada-pelo-boletim-metereológico. Sublinho apenas a ironia: há quem clame pelo sol e há quem o disfrute. Nunca são os mesmos. O sol e os decotes ficam lá fora, é justo.
2- Por mim falando, acredito sinceramente que é possível uma relação estética não erótica com os decotes. . Não é preciso ser eunuco para ser um esteta desinteressado, da mesma maneira que é possível que as mulheres hetero e a malta gay se interessem por decotes alheios...

Na verdade, por definição, os decotes nunca são completamente alheios. Diferentemente, contam a exacta história daquilo que é possível mostrar em público. Em última instância, é nessa relação com o "público" que eles fazem sentido.

FCP Campeão 2003-2004

Recebo reacções de surpresa por ainda não ter escrito nada sobre a vitória do F.C. Porto no campeonato nacional. Não, não estou atrasado! Na verdade eu comecei a festejar desde que, no início da época, Mourinho declarou peremptório, em jeito de sublime paradoxo: "Eu ainda não disse que tenho a certeza que vou ser campeão, mas penso".

Desde sábado, a alegria da certeza por mais uma vitória é imensa, mas, para ser sincero, a euforia só sai fingida. E para a próxima época eu apenas precisava de uma notícia para começar a festejar, talvez mesmo neste verão: a notícia da permanência de Mourinho. Caso contrário, a minha identidade nostálgica irá ganhar um novo alento. Voltaremos então a esse tempo em que os campeonatos são festejados no fim. Vá, Fica!


Oh, deep in my heart
I do believe
We shall overcome some day

We'll walk hand in hand
We'll walk hand in hand
We'll walk hand in hand some day

We shall all be free
We shall all be free
We shall all be free some day


Mas importa lembrar que, hoje, valorizar um conceito amplo de liberdade, também é perceber isto: "no mundo mais pessoas morrem de fome num dia que todas as que morrem como vítimas de perseguições políticas durante um ano" (Jochnik, 2001: 159).

Lábios de devoção


Contra a banalização das "trincas", já aqui defendi: o acto de morder o lábio inferior de quem beijamos constitui uma expressão de devoção que raras vezes nos merece. Mas, estranhamente, às vezes penso que é possível morder um lábio com o olhar. Assim, torna-se interessante notar como o confronto com "condições de impossibilidade" engendra algo próximo de uma devoção intangível, incorpórea, devoção trágica. Tragicamente doce, se quiserem.

Scolari e a Revolução

Perdoem-me, eu sei que isto soa a ridículo, mas encontro uma insanável contradição em estarmos a comemorar a democracia com Scolari à frente dos destinos da selecção nacional de futebol. A nacionalidade do senhor nada contribui para este desconforto pós-revolucionário, mas sim o estilo despótico de um iluminado que julga que não tem que explicar nada a ninguém. Na política isso tinha um nome.

Voa Ícaro, Voa


Há quem nasça para se tornar imortal e depois morrer. Maradona parece substanciar esse desígnio.

Ele era o meu herói. O pretérito não é justificado pela desilusão, ou pela tristeza da queda, mas apenas pelo fim da carreira do artista. Na verdade, apesar do meu portismo exacerbado, acho que nunca sofri tanto por uma equipa como pela Argentina. Em bom rigor, eu sofria por ele, El Pibe. Uma das imagens mais fortes que eu guardo do futebol -- esse singular reality show -- é a recordação de Maradona a receber a medalha após a derrota na final do Itália 90, o "meu menino", chamava-o assim apesar de o menino ser eu, chorava compulsivamente sob os assobios dos italianos ressabiados. (Esses mesmos que exultaram com a derrota da argentina no jogo inaugural contra os Camarões). Atrás de uma televisão também eu me desfazia em pranto, investindo a minha mãe de cuidados. Todos os heróis nos desiludem, não há semi-deuses, e Maradona dificilmente será um modelo de vida para alguém, deslumbrou-se, afundou-se. Mas também nos deslumbrou, embriagando-nos de magia, ele foi o único verdadeiro génio que o futebol conheceu. Alguém me dizia em conversa que a maior glória (mediática) que alguém pode ter acontece quando se decide com um golo vitorioso a final do mundial de futebol. Vi essa cena na minha cabeça tantas vezes..., escolhia o golo, ensaiava os festejos ao pé dos móveis da sala. E no fim de ter sido entronizado pelo mundo lá descobria um olhar especial na bancada a quem eu piscava o olho. Na altura devia ter a cara de uma vizinha pré-adolescente. Mas isso foi há muitos anos. É brutal como nos impressiona tanto a queda no abismo daqueles a quem pertenceu o gozo da glória, do poder, da fama e da imortalidade.
Não morras assim. Não agora. Seria demasiado triste. Mesmo na queda Ícaro voará contra o destino.

Quando os anos o levam... (relatórios dos cotas)

É bonita esta música:

El tiempo pasa
Nos vamos poniendo viejos
El amor no lo reflejo como ayer,
En cada conversacion, cada beso, cada abrazo
Se impone siempre un pedazo de razon,
Pasan los años y como cambia lo que yo siento
Lo que ayer era amor, se va volviendo otro sentimiento,
Porque años atras tomar tu mano, robarte un beso
Sin forzar un momento formaban parte de una verdad,
El tiempo pasa nos vamos poniendo viejos...

la... la...

Pablo Milanes (Años)

Lamentável

Uma pessoa prepara-se para a vitória, para o empate e para a derrota. Não se pode preparar para um árbitro ridículo. Chocou-me o facto de ter minado o jogo do Porto e de não não ter marcado um penalti óbvio sobre o Marco Ferreira, mas também me chocou a ardilosa compensação: a expulsão de Jorge Andrade após este ter dado um pontapé amistoso ao Deco. O central do Corunha recebeu um vermelho enquanto sorria explicando "he is my friend!". Não é assim que trata alguém que vê no adversário um amigo.

p.s. Nas declarações finais Mourinho designa a arbitragem de inteligente. Foi, de facto, uma arbitragem insidiosa, mas foi, sobretudo, um insulto à nossa inteligência.

Este suspense mata-me


Se a bola entrar talvez vá provar a nova cerveja da super Bock. Senão, o mais certo é ficar pelo quentinho de uma das minhas 6 almofadas. Neste mundo de dúvidas e incertezas as almofadas assumem, para muitos de nós, um merecido protagonismo.

Flâneur

Não é a primeira vez que me acontece. Um/a amigo/a chega e pergunta-me do nada: "Acreditas que é possível amar duas pessoas as mesmo tempo?". Ai, ai... Esta pergunta traz sempre uma história. Os próximos capítulos prometem uma ruptura, um conformismo agonístico ou uma "terceira via". Da minha parte lá desaconselho a última hipótese e respondo que não estou habilitado para falar de amor a três. Sou um provinciano.

Desdizer com Beijos

Alguns de nós são carinhosos e outros nem por isso. No entanto, e como dizia Ortega y Gasset, o ser e o estar confundem-se: somos sempre nós e as nossas circunstâncias. Há pessoas que nunca reputaríamos de carinhosas, mas que de facto o são, ainda que apenas se revelem no toque, no modo como beijam, como dão a mão, como abraçam, como afagam o cabelo, como se encostam para dormir, como se demoram sobre a pele próxima. (Não falo apenas, nem principalmente, de enleios corpóreos de cariz erótico). Acreditar nestas emanações de carinho onde elas seriam insuspeitas é talvez uma forma de fé no outro. É talvez um modo de ser carinhoso para além das circunstâncias... Tocar até pode não ser importante.

Vermeer Revisitado (e melhorado)

Casta, Laetitia.

"We have no more beginnings" (?) [Um post chato]

Acerca das utopias e seus perigos, é excelente a conversa entre Francisco José Viegas e o João Morgado Fernandes a partir da frase de Steiner: "We have no more beginnings".


Esta questão é sublimemente debatida no livro Emancipations de Ernesto Laclau (1996). Nessa instigante obra o autor defende que um projecto transformador abrangente, para ter eficácia política, tem que se afirmar como uma radical reconfiguração, uma refundação social que emula a re-inauguração do mundo ao melhor estilo da promessa messiânica. Mas, ao mesmo tempo, todos os horizontes políticos devem reconhecer a contingência das condições de que partem e que procuram opor. Deste modo, toda a decisão deverá ser entendida como produto de um momento histórico contingente, não podendo aceitar-se a sua cristalização.

E é este reconhecimento da contingência do político que terá que ser articulada com uma "mitologia a-histórica da emancipação" para podermos ir ao excatamente de encontro ao ideal democrático de que tantas "utopias realizadas" prescindiram. Ou seja, teremos que preservar sempre o princípio genésico que tudo é democraticamente equacionável e re-equacionável à luz dos presentes sucessivos. É este o texto radicalmente emancipatório, não ingénuo, que é passivel de ser articulado com o conceito de "Democratie à Venir" de Jacques Derrida ou com a "Democracia Sem Fim" (ou "Democracia de Alta Intensidade") de Boaventura Sousa Santos. Para que "novos começos" possam surgir.

Um "Olhar" enquanto guião



Jennifer Ehle, conheci-a na excelente série "Orgulho e Preconceito" que passou há uns anos na RTP2. Foi particularmente forte fascínio que esta actriz exerceu em mim desde logo. Falo, claro, do seu génio dramático. Jennifer Ehle é daquelas pessoas que para cada emoção tem um rosto. Conheço algumas.

No entanto, - e aí começa a um caso sério - a riqueza singular de expresões faciais que encontramos em Ehle esquiva-se, surpreendentemente, a uma qualquer ideia de transparência. A face dela está longe de ser um texto decifrável. O que a salva é um olhar no qual ninguém se pode sentir em casa, um olhar vago em que a alma estrangeira ao corpo sugere mistério (também encontrável p. ex. no Ralph Fiennes), um olhar onde um brilho cintila dilemático entre a demora nas coisas da vida e uma indiferença que aflige. Não podia haver mais brilhante incorporação para a personagem que vagueva experimentando ciosa o sentimento, palpitando nas decisões cruciais entre um génio empedernido e a chamada do amor. O que vemos em Jennifer Ehle é algo entre o olhar transcendente de Deus - um olhar que paira - e a encarnação messiânica de quem ousa viver na história - um olhar que para, detendo-se entre os mortais, reconhecendo o desejo, ainda que este tome o nome de tentação. No fim da série, o olhar torna-se mansamente dedicado, a certeza de um querer partilhado simplifica a personagem enquanto história de vida, e é aí que o olhar de Ehle nos despede.

Quem vem aí?

Nos rápidos cumprimentos de todos os dias usam-se umas perguntas a que não é suposto respondermos. Tudo bem. Mas desta estirpe de questões para olear os encontros sociais há uma profundamente estranha, acontece quando alguém que não vemos há muito tempo interroga: "Então, o que foi feito de ti?"
Nesta pérola convivial, além de se pedir um balanço existencial em poucas palavras, há qualquer coisa no tempo verbal da questão que faz supor uma irrversibilidade daquilo em que nos tornámos. Acho que nenhuma resposta optimista e bem disposta pode traficar com uma pergunta formulada nestes termos.

Desterrado

Não tenho podido actualizar o blog. Ontem o meu computador falhou-me, foi tomado por vírus chamado Trojan, o problema deverá estar resolvido hoje mesmo. Escrevo de uma daquelas lojas de internet onde têm a rádio ligada numa estação com as músicas do momento, uma ventoína silenciosa sopra ao meu lado, adivinho o cheiro dos panikes acabados de fazer na pastelaria próxima, um estudante de erasmus escreve para os amigos esboçando uns sorrisos, depois toma um ar sério e saudoso, olha para o tecto, tenta umas linhas (ai o amor...). Sofre talvez, mas ainda que o espectro da perda assome percebo-lhe uma secreta paz, afinal a forma última de exílio é quando já não estamos longe de nada (Mia Couto said it).
Hoje já deverei voltar a blogar. Algumas respostas a dar, algumas devaneios a enunciar. Até breve.

Uma hilariante petição lançada pelo Barnabé para dar oportunidade ao bravo José Manuel Fernandes de ir demonstar a sua coragem em pleno Iraque como escudo humano. Já assinei. Sabemo-lo, ele anda há muito tempo com vontade de ver guerra. Desgraçadamente para todos nós a realidade superou-o.

O flagelo do regresso

Acerca do perigo de premir Repeat, A Marta lembra que nunca devemos regressar aos lugares em que fomos felizes. Inevitavelmente associo essa máxima a uma das passagens mais memoráveis do Lost in Transalation, quando a Charlotte dizia ao Bob qualquer coisa como: "Não voltemos aqui, porque nunca vai ser assim tão bom"

Não sei se o inverso vale, mas talvez explique porque é que tantos regressam aos lugares (relações) onde não foram felizes.

Vinde!

Se eu fosse o herdeiro de Espanha, alto e de olhos azuis, talvez ela me pedisse em casamento como fez ao outro numa daquelas crónicas. Não obstante, a propósito dos últimos posts e debates que por aqui passaram, e ainda que sem propostas matrimoniais sólidas, Ana Sá Lopes promete vir em meu meu socorro. Isto depois de no mesmo blogue João Pedro Henriques ter criticado as minhas frescuras intelectualistas acerca da "economia ampla do desejo" (algo que escrevi nos comentários do Post do Maldini). Aguardemos, pois, por Ana, instalados nessa novi-mitologia das anjas com a.

Cinismo sentimental (o insustentável) act.


Às vezes, entre nós e uma espécie de cinismo sentimental restam apenas umas poucas músicas de vocação lamecha (em si um conceito frívolo, des-sacralizador dos afectos). Creio que nesses casos o uso do Repeat nos diz muito sobre a natureza do cínico em causa. É entre os cínicos que a mitologia dos últimos românticos encontra fiéis. Também pode ser isto o desconstrutivismo a la Derrida: uma música oportuna.

Adenda Interactiva: (Respondendo às questões colocadas nos comentários). Aproprio aqui o cinismo como uma estratégia defensiva emocional pós-traumática, em que os sentimentos e o horizonte de entregas afectivas são secundarizados/menorizados como forma de lidar com a coisa (coping). Rick do Casablanca é esse cínico paradigmático. As músicas encantatórias (ditas lamechas) são as que baixam as defesas, os românticos últimos são aqueles que mesmo na mais dolorosa auto-flagelação não resistem em premir Repeat. Como quem diz contra a dor Play it again Sam

Nacionalismo e a "Máquina do Desejo"

Não é a primeira vez que ouço ou leio alguém fazer referência à beleza de Figo. Como pessoa atenta costumo dizer: "ganha juízo!" É certo que os gostos variam, mas para mim tais decarações são, mais que tudo, a prova tangível do quanto os nacionalismos ainda trabalham com a "máquina do desejo" de que nos falam Deleuze e Guatari. Obviamente não somos imunes aos modelos culturalmente forjados, mas se é de beleza mediterrânica que se trata, então falemos a sério, sem nacionalimos:

p.s. Remeto esta foto à especial atenção das leitoras (que suportam agonisticamente as minhas derivações pelo futebol), não esquecendo, naturalmente, alguns sectores da blogaysfera.

Incorpora-me isso!

Tenho a noção que sou, em certa medida, um abutre gosta de se nutrir de histórias de vida e relatos de cariz confessional. Como há uns dias dizia a uma amiga (cusca confessa), talvez eu esteja num limbo entre aquilo que é um cusco (por defeito de formação, quero crer) e alguém que tende a fazer da vida dos outros uma questão pessoal. Interessante, a segunda possibidade lembra a ténue fronteira ente o nosso reduto pessoal e riqueza da vida social.
Mas, dizia eu, tendo algo de abutre, fiquei deliciado quando um amigo, após reflectir argutamente sobre um episódio da sua existência, me ordenou sonante: "Vá, mete essa merda nos teus pensamentos!"

Para ser sincero já não sei se me lembro da "merda", ficou a frase.

Embora reconheça a importância de formas de memoração colectiva, sou pouco ritualista. Porventura pouco ritualista também na fé, mas sei que gosto de voltar ritualmente a alguns lugares de crença (Marcos 16: 14): "Finalmente apareceu aos onze, estando eles assentados à mesa, e lançou-lhes em rosto a sua incredulidade e dureza de coração, por não haverem crido nos que o tinham visto já ressuscitado."

A arte da tampa

Respigo um excerto do Diário do Dicionário Diabo: "Continuo com tosse. De manhã, levo uma tampa. Depois de almoço, dou por mim na mesma sala que Júlio Isidro (...)"

A tampa. Eu penso que não temos prestado suficiente atenção à arte da tampa. Alojados no mitos de Cleópatra e D. juan, habituámo-nos a valorizar a capacidade de engate/corte/sedução. Mas as tampas também podem constituir uma forma sublime de arte. Obviamente não falo daquelas costumeiras: "estou a sair de uma relação", "não sei dançar", "eu prefiro ir a pé", "veste-te que te constipas!", falo, isso sim, das tampas que conseguem preservar a razão da viagem, as tampas encantatórias. É uma arte dificil, há que atentar na sensibilidade d@ pretendente, há que medir o nível de interesse que se quer preservar, há que lidar com o constrangimento, há que afastar o perigo quando a tampa vai contra o desejo, há que gerir o uso do humor*, há que equacionar um beijo de despedida,... Enfim, acho que a tampa constitui um campo de profundas complexidades, importa pensar que quem apanha tampas com muita frequência provavelmente apenas está a explorar uma das artes menos valorizadas na nossa sociedade.

*Por exemplo: "desculpa, mas não dou o número do meu telemóvel a ninguém com que ainda não me tenha envolvido sexualmente"

África minha

Não sei se já vos contei - até sei que não vos contei, mas acho que a introdução funciona para interpelar -, este blogue tem uma leitora assídua por terras de Moçambique. Será porventura o sítio mais longíquo em que o avatares foi consultado. É doce imaginar uma intimidade com as margens do Índico, ali, onde o sol nasce do mar e as árvores insistem em guardar almas.

Que dizer...


Lyon: 2 FCP: 2
A partir do momento em que após uma reportagem desportiva o meu amigo Barradas - sportinguista -me ofereceu uma fotografia ampliada de José Mourinho, fiquei preocupado. Infinitamente grato, mas preocupado. Será que eu ando a adular demasiado o homem? É melhor conter-me, pensei.
Mas, depois, quase que sem querer, como quem volta ao sazonalmente ao sul, deleito os olhos nas quadras onde as construções poéticas de Mourinho se jogam, naquele tom hesitante, ora azul ora branco, em que já se dividiam os meus sonhos de infância, atento no prenúncio de vitória cantado num corajoso discurso excêntrico que, como toda a emanação do tipo profético, é vilipendiada na sua própria pátria, e lembro as lições da minha mãe: "Bruno sê grato com quem te oferece coisas boas". Obrigado José Mourinho. Obrigado meus cavaleiros jogantes, um abraço especial para o Maniche e para o Baía, proscritos da selecção, uma e outra vez acolhidos na glória de quem se habitua a lutar contra as injustiças. Obrigado.

Israel a la Sharon

Vejo na televisão imagens dos preparativos para a construção do muro Israelita. Buldozers e serras mecânicas a executarem a limpeza prévia pelo meio dos quintais de palestinianos que, impotentes, choram e atiram pedras enquanto são ameaçados pelas metrelhadoras . Sei do perigo que existe em se confluir a crítica às políticas de Israel com o anti-semitismo, um espúrio ódio antigo. Mas devo dizer que este Estado israelita apadrinhado pelo governo americano, é, na sua resoluta matriz belicista, uma das ameaças centrais a qualquer ideia de mundo mais fraterno. Não me venham com a simétrica naturalidade dos pares de acção-reacção, ali uns esmagam, outros são esmagados. Não devemos perder a memória, mas importa que cada tempo se preocupe com as suas vítimas. Se fosse sempre assim...

Um piropo de inspiração marxista


Isso é tudo teu?

Reflexão editorial

Iniciando uma linha editorial mais atenta ao sitemeter, OpinionDesmaker dedica-se a "dizer mal" do Avatares. Registo que o António é um confesso admirador deste blog desde a primera hora, por isso leio as suas críticas com particular esmero. António, és um querido, até a dizer mal és doce:
"(...) Dizer mal do que se gosta é um arriscado - e até eventualmente perturbante - exercício, mas vou fazer isso porque o Avatares tem esse talento de ir aí por fora à busca dos recônditos buracos do desejo e não o deve desbaratar. Só que ultimamente tem-se perdido um bocadinho em descodificações de fancaria... Bruno, tu não precisas de te “vender” ao estilo “produções-fictícias-do-antropologismo-erotificado”. Tu vais muito mais longe.(...)"

Conforme já tinha referido à Carolina nos comentários, espero brevemente vir a fazer as pazes com alguns/algumas dos leitores/as com um post intitulado "Decotes em Flor". Apenas procuro inspiração por essas áleas primaveris.

Olhares de Adeus*


Já aqui falei da minha pulsão passional por olhos tristes (não confundir com pessoas tristes). Mas trágico mesmo, é alguém que só se deixa cativar por "olhares de adeus". Esse estranho fado merece três hipóteses.

1-Há uma forte componente de masoquismo. Não é o desejo pelo outro que é activado pelos "olhares de adeus", mas sim o desejo pela auto-flagelação emocional.

2- Amar é querer. Logo é pressentir/temer um adeus, uma perda. Será esse presentimento interior a formular a tonalidade fugaz dos olhos amados. Assim, os "olhares de adeus" não serão uma patologia da relação amorosa, mas uma das suas essências: quem ama necessariamente convive com esse olhar, ainda que espectral.

3- A hipótese trágica de inspiração hindu-budista: Karma. O que se ama são as encarnações de um mesmo amor, aquele que uma e outra vez vem dizer que partiu. Mudam os olhos permanece o olhar, o único que o desejo consente. (Hipótese de algum modo presente no conto "Ligea", de Edgar Allan Poe)

* Glosado de Atrás da Porta (Francis Hime - Chico Buarque, 1972)

A morte blogosférica: o "síndrome Roque santeiro "

Reparo (aqui e aqui) que a pretexto do 1 de Abril houve quem não resistisse a simular uma despedida, o fim do blogue.
Como alguém dizia, é apelativa a ideia de podermos assistir ao nosso próprio funeral. Algumas vezes os blogues têm permitido isso. Será a elevada taxa de ressurreições o resultado do confronto com as exéquias? Ouvir o que de nós dizem após a morte terá sem dúvida algo de fascinante. Era essa improbabilidade que a novela "Roque Santeiro" evocava tão deliciosamente. Quem não se lembra?

"Era para toda a Vida...": Um Piropo dedicado à eternidade

André Bonirre, pegando em ditos bajulantes como "ainda dizem que a flores não andam!", desafia-me a um olhar sobre o "piropo camponês". Caro Bonirre, de facto é profusa a "imaginação camponesa" (se assim lhe podemos chamar) quando se põe ao serviço da adulação das mulheres. (Claramente, uma forma de coisificação do feminino). Mas devo confessar que, das centenas de piropos que tenho ouvido por essas terras afora, há um que sempre me intrigou pela singularidade:
"Era para toda a vida..."


Se repararmos esta declaração é insólita, perigosa e, sobretudo, rompe com a lógica platónica: sugere que é possível um homem entregar toda a sua vida às curvas de um corpo. Isto porque, nesse delicioso piropo, ao mesmo tempo que se afirma o efémero do desejo, como quem prescruta a solidez das mamas e a composição do rabo, reivindica-se um querer que, sem ser amor, se consagra ao porvir. Toda a vida...

Atenção! Este piropo, para deverá ser enunciado por uma voz suspirante, como aquela que muitas vezes ecoa do alto de um andaime: "Ai...Era para toda a vida..."
Para mim este é sem dúvida o mais ousado dos piropos que dimana da "imaginação componesa". Convenhamos, perante uma afirmação de tal espécie há muitas formas de imaginação que se retraem...

Bomba Inteligente [since 2003]. Consta que os vestidos lhe caem lindamente. Mas, entre o erudito e o mundano, são as suas palavras que apetecem. Parabéns Charlotte.

Abraços


Os abraços são bons para as despedidas. Está lá o calor dos corpos, o querer ainda fresco... Mas os olhares abraçados, eses, fitam já paisagens diversas, veredas que, adivinhadamente, não se voltarão a cruzar. Por isso, fechar os olhos nos abraços é uma forma antiga de prudência. Mas às vezes é também a loucura de quem não consegue dizer adeus.

Tiras da Paixão

(João 19:28): "Depois, sabendo Jesus que já todas as coisas estavam terminadas, para que a Escritura se cumprisse, disse: Tenho sede."
Um dia, olhando para a Bíblia, alguém dirá: "Já saiu o livro da Paixão de Cristo".