Força Scolari

Portugal: 1 Itália: 2

Não precisei de esperar pela derrota para me indignar com Scolari, coerentemente, quero crer, fi-lo assim que saiu a ultrajante convocatória. Há quem defenda que nunca o poderemos insultar o suficiente. Outros dizem para nos calarmos; Scolari foi campeão mundial, ele sabe o que faz... Por feitio não sou de insultos, ainda assim quero falar. E bem podia referir-me à exibição de Ricardo, à ausência de Baía, à falta que fez Maniche naquele meio campo, à impensável exclusão da equipa titular de Ricardo Carvalho. Mas se assim fizesse, reconheço, estaria a dar largas a uma certa clubite ...

Portanto, serenamente, e sem pensar em jogadores do meu agrado, vou-me limitar a dizer que Portugal jogou uma merda, como vem sendo hábito... Scolari. Já leva algum tempo à frente dos destinos da selecção e, abismamos, não há fio de jogo que se veja, não há mecanismos tácticos, não há uma ideia de futebol de equipa que chegue ao campo, um espírito de grupo que se adivinhe... Custa-me esta selecção onde os jogadores vão e vêm das convocatórias quase sempre por critérios extra-futebolísticos. Custa-me, tem-me custado, (ainda?) não conseguir torcer por esta selecção. Acreditem que até tento. Talvez seja a tal clubite...

Voltando a ela (à clubite) deixo o meu singelo conselho: Scolari, sê humilde e aceita a ajuda de Mourinho. Só tinhas que trocar um ou dois jogadores e ficar bem quietinho. Força Scolari.

A solidão ou a domesticação da partilha

Sabemo-lo, há pessoas que gostam de estar sozinhas. Mas, na maioria dos casos, as mulheres e homens que afirmam o seu gosto pela solidão fazem-no com uma ténue convicção (quase sempre como forma de coping), em tudo semelhante à que encontramos numa passagem de Jorge Luis Borges:


"Disse-me que gostava de passear sozinha. Lembrei-me de uma piada de Schopenhauer e respondi:
─ Eu também. Podemos sair juntos os dois."

A mulher enquanto reflexo da glória do pénis

(Dou mais um poderoso um argumento ao JMF para não se usarem fotos nos blogs)

"São hoje esquecidas e atacadas as duas razões mais próprias da glória feminina, o encanto da virgindade e a grandeza da maternidade. "

Este é um pequeno cheirinho do texto de hoje João César das Neves. Suponho que para este senhor a miséria feminina seja constituída por aquelas mulheres que não são virgens nem mães. Curioso mesmo é o facto desta pérola de prosa surgir de mãos dadas com uma crítica da sociedade dos machos. Eu ia jurar que com a ênfase na virgindade e na maternidade João César das Neves reduz a mulher a referentes absolutamente falocêntricos (centrados no falo). Isso mesmo, segundo o cronista mais beato da democracia portuguesa, a glória singular da mulher deve ser entendida por referência a diferentes momentos históricos: a.p. (antes do pénis) e d.p. (depois do pénis) ou, alternativamente, a.f. (antes da fertilização) ou d.f. (depois da fertilização). Pois bem.

Humanitarismo de salto alto


Acho mal que se condene a Catarina Furtado pelas centenas de pares de sapatos que possui. Não nos podemos esquecer que ela é embaixadora da boa vontade da ONU, uma incumbência humanitária que certamente lhe gastará as solas a um ritmo assinalável.

Descubro pelo Paulo Gorjão que Noam Chomsky já tem um blog. Se eu o linkar será que ele me linka? Vou esperar que ele dê o primeiro passo.

A desgraça de Mercúrio em forma de SMS

Encontramo-la encostada uma desgostosa solidão, daquelas pouco dadas à fruição de danças a solo. Como explicar? Digamos que recebia muitas mensagens no telemóvel, mas quase todas ─ senão todas ─ tomavam a insólita forma de relatórios de envio. Podemos imaginar agora uma caixa mensagens cheia desses emissários perdidos. Estranho repositório de dor...

Se ao menos soubéssemos o seu número.

Cuidado com o teu blogue!

Já não é a primeira vez que me perguntam mais ou menos em jeito de brincadeira: "Não achas que o blogue e certas coisas que escreves podem pôr em causa a tua credibilidade?" Esta pergunta encanta-me. Acho infinitamente simpática a ideia que eu possa ter algo a perder em termos de credibilidade...

Escândalo

Scolari deixou Maniche de fora da sua convocatória.

A dimensão deste escândalo é facilmente apreensível para quem tem acompanhado o papel fulcral que Maniche tem desempenhado na campanha europeia do futebol clube do Porto - recorde-se por exemplo o jogo de Manchester. Depois de Vítor Baía ser preterido por dois guarda-redes de classe mundial (Quim e Bruno Alves), Scolari deixa de fora aquele que tem sido o melhor meio-campista do mapa imperial de Mourinho. A anedota chamada Scolari deve andar por aí entretida a ver os treinos dos Caçadores das Taipas. Julgava ele que vinha como herói salvador para Portugal, desgraçadamente não se consegiu colar ao papel, para isso terá contribuído o facto de andar por terras lusas um tal de Mourinho que viria a ser aclamado pelo Europa do futebol. Algo que Scolari, apesar do título mundial, está longe de conseguir. Assim, Scolari tornou-se, ao invés, um homem amargurado com o sucesso de um treinador que para cúmulo tem a nacionalidade portuguesa. Já o sabíamos, quem usa o poder de modo despotista e aleatório sente-se sempre mais poderoso. Assim se tem feito. Scolari, não deixas de ser um triste.

Corpo Intimidade e Poder [Serviço Comunitário III]

Dia 27, sábado, às 17 horas, será lançada em Coimbra, no bar "A Capela", o 5º número da Revista Manifesto dedicado à temática "Corpo, Intimidade e Poder".

Petição [serviço comunitário II]

Petição - Empréstimo de livros em bibliotecas em risco!

Borlas da Sage: últimos dias [serviço comunitárioI]

Ainda não sabiam? A sage disponibilizou online o acesso aos artigos dos seus perídicos até dia 31 de Março. Muito material e muito bom. Só é preciso fazer uma inscrição e começar a sacar à ganância.

Ilsa


O amor romântico é uma invenção ocidental para preservar a monogamia. Esta é uma hipótese avançada alguns pós-traumatizados no estado cínico. Outros discordam, afirmam que o amor romântico tem em si o poder da transgressão, lembram a propósito os "amores que quebram as regras".
O que me parece interessante é que muitas vezes o quebrar da regra é, no fundo, um reformulação da regra; por exemplo, a Ilsa do Casablanca (Ingrid Bergman) não negava a monogamia, apenas queria trocar uma monogamia por outra.

No mesmo sentido, mesmo entre os defensores de "relações liberais", muitos/as há que se apegam a uma monogamia estatística (segundo o Sistema Internacional, 66% das vezes com a mesma pessoa) onde encontram a sua base emocional e vivencial (porventura um amor). A relação entre amor e uma concepção de monogamia é, entre nós, bastante resistente. O cíume é uma dos suas emanações. A pluralidade dos encantamentos é o pano de fundo -- uma espécie de ameaça permanente -- de qualquer construção afectivo-erótica com pretensões exclusivistas. Escolher um só chamamento pode ser uma radical transgressão. Não escolher também.

As trabalhadoras sexuais vendem ou alugam o corpo?

A partir da história de uma ousada antropóloga leio na conversa entre Miguel Vale de Almeida e o Boss interessantes considerações em torno da diferença entre prostituição e trabalho sexual. Conforme afirma MVA, "a noção de corpo e sexualidade prevalecente é baseada na ideia cristã-ocidental do corpo como templo de deus". (eu prefiro Deus, uma questão de fé...). É, pois, a partir dessa prevalência que descortino uma outra interessante subtileza linguística, aquela que refere a prática da prostituição como "vender o corpo". Se a nossa visão fosse estritamente mercantil, "alugar o corpo" seria a expressão mais precisa para descrever o que se passa na actividade de uma trabalhadora sexual/prostituta, mas isso faria supor uma reversibilidade que moralmente tendemos a não aceitar. Ou seja, "vender o corpo" é uma expressão íntima de "vender a alma", refere uma ideia de perda e perdição que o aluguer não contempla.

Os sobreviventes da psiquiatria

Escolher títulos para nomear trabalhos, livros, empresas, organizações..., pode ser aquela maçada que se deixa para fim quando as glândulas do trabalho, hipertrofiadas, já secaram as da criatividade. Mas há títulos que dizem tanto...
Descobri este absolutamente genial:
World Network of Users e Survivors of Psychiatry. Este é o nome de uma importante organização internacional, designação que em português fica qualquer coisa como Rede Internacional dos Utilizadores e Sobreviventes da Psiquiatria.

Nas décadas de 60-70-80 existiu um importante movimento denominado de anti-psiquiatria que entretanto foi perdendo expressão. Ressalvo que a minha simpatia com a anti-psiquiatria nunca foi para além do gosto da leitura de algumas coisas (na esteira de Michel Foucault) poderosamente radicais de David Cooper, como The Language of Madness. Em todo o caso parece-me genialmente provocativa a ideia de uma associação que é criada em nome dos sobreviventes de um ramo da medicina.

Nua, mas não no ecrã

Via Cruzes Canhoto (agora em Weblog) Leio as declarações bombásticas de Scarlett Johansson:

"Não estou interessada em aparecer completamente nua em nenhum filme. Acho que isso quebra o encanto/feitiço" (spell no original).

Percebo perfeitamente o que Scarllet Johansson pretende dizer. Mas para já a única resposta possível às suas afirmações é um sincero "depende..."

O vingador

Procura-se:

Por favor não se surpreendam se aparecer outra sondagem a dizer que o Estado de Israel encabeçado por Sharon é uma das maiores ameaças à paz no mundo.

Jack Straw, o ministro britânico dos negócios estrangeiros, condenava hoje a eliminação pelo governo israelita de Ahmed Yassin, o líder espiritual do hamas. Na sua resposta a um jornalista, Straw defendia que o assassinato de Ahmed Yassin jamais iria cumprir o objectivo com ele pretendido pelo governo israelita. Pois... Eu só tenho dúvidas que objectivo de Ariel Sharon seja de facto a paz, e que, portanto, este assassinato tenha sido um erro estratégico como denuncia Francisco José Viegas. Tenho as mais sérias dúvidas que a política actual do estado israelita veja nesta morte (ainda que erradamente) um caminho para o fim do terrorismo. Mais, acho que isso começa a ser uma ingenuidade. O ódio e o desejo de vingança emergem como valores protuberantes na política israelita, valores que não se compadecem com visões estratégicas conducentes à paz.

A possessão, o espectro da perda e... a paixão


Ontem à tarde ia pôr o lixo lá fora e lembrei-me de ir ao cinema. Assim fiz. Peguei no bilhete com destino para o lugar J-24 e abanquei para ver a Paixão de Cristo. Era uma daqueles filmes que eu queria ver sozinho e na grande tela... Foi pouco tempo após me ter sentado que reparei num interessante fenómeno. Ao meu lado sentaram-se dois casais; como sabem os casais costumam ter dois bilhetes para dois, e sentam-se aleatoriamente nos lugares designados pelos seus bilhetes. O fenómeno interessante foi o facto de eu ter notado uma curiosa movimentação dos homens no sentido de assegurar que as suas namoradas não ficavam, naquela fila quase deserta, em contacto próximo com um tipo, neste caso eu. Por isso sentaram-se eles ao pé de mim à esquerda e à direita, simetricamente. Foi portanto com uma certa lisonja que eu fiquei sentado, devidamente enquadrado pelos namorados previdentes, enquanto as moçoilas de ar casadoiro foram postas do lado de fora a uma distância de segurança. Estou certo que esta arrumação, que tende a acontecer nos cinemas quando a opção é possível, resulta de habitus inconsciente de protecção da mulher. O carácter relativo da ameaça que eu represento faz-me supor a possibilidade deste habitus ser generalizado.

Ao observar tais subtilezas iniciei a Paixão com um sorriso. E o filme? Bem... talvez noutro post. Mas sendo redutor sempre vos digo: fica a sensação que Mel Gibson hesitou na recolha das suas fontes entre os evangelhos e um prontuário de tortura e recolha de sangue.

Fingir de morto. Um homem com tomates

Engraçado, o Luís recorda-me uma argúcia que a minha infância também sonhou: "Sucede que sou cobarde. Sempre que ouvia os relatos das grandes batalhas da história e me imaginava em combate, era sempre caído no chão, de borco, a ouvir o tremendo clamor e a fingir de morto."

Poderia dizer que isto nos fala da coragem da sinceridade, mas aí estaria a labutar no mesmo regime de valor que preza a coragem per si. Algo que é caro a muitos belicistas inconsequentes que intentam chamar cobarde a Zapatero. Por muito que perorem a questão é que a retirada das tropas espanholas do Iraque nada tem a ver com aquele maravilhoso dito: "Dizem que fugir parece mal mas dá uma rica saúde ao corpo."

Prende-se, isso sim, com o reconhecimento de que o ataque ao Iraque constituiu um erro estratégico e um descentramento em relação àquela que deveria ter sido a prioridade na segurança internacional: O terrorismo da Al Quaeda. Utilizando em jeito de ironia o texto da coragem (um valor fundamentalmente masculinizado) que por aí se alardeia, poder-se-ia bem dizer que Zapatero mostrou ter tomates.

Será?

No artigo que escreve esta semana na Visão Mário Soares alude à “globalização depredatória” evocando um académico de Princeton chamado Richard Folk. Curioso, já li umas coisas bem interessantes de um tipo de Princeton, que alguém me deu a conhecer, e que tem como uma das suas obras mais influentes um excelente livro excelente chamado “Predatoty Globalization”. Só que esse chama-se Richard Falk. Ná, não deve ser o mesmo…

Primavera: sinais de fogo


Desconsigo. Não vou esperar pelos decotes nem pelas andorinhas (até porque ainda não dei por andorinhas que se vissem). As mulheres andam terrivelmente encantadoras e isso basta-me para gritar jubilante que a primavera começou. Não, não ando armado em conquistador (de pouco me serviria...). Acreditem, a minha alegria não anuncia dádivas, identifica dons: formas de ser encantatórias. Alguém mais afortunado do que eu saberá receber a fleuma primaveril dessas tochas mágicas. What is fair is fair...

Prazer: Coisa de Gay

As bocas machistas e sexistas que frequentemente ouvimos são absolutamente execráveis. Mas ontem ouvi uma adorável, a mais deliciosa que me lembro. Isto porque, desconfio, representa também uma paródia à própria lógica heterossexista:
"Homem que é homem não tem prazer, prazer é coisa de gay." Do melhor.

Inter-subjectividades

A inveja pode ser a mais genuína forma de admiração. Não há admiração portentosa sem um travo de inveja. Faço questão de invejar algo em todas as pessoas que admiro. Só admiramos sem invejar aqueles que se desgraçam com a coragem que nos faltou. A admiraçao erótica é de outro tipo, ali não há inveja, há querer:
querer o outro e não querer ser o outro.

SMS this Idea

TERRORISMO E GUERRA, BASTA YA! MANIF. DIA 20, ÀS 15H00, NO LRG. CAMÕES (LISBOA) E NA PR. BATALHA (PORTO).

Tropeçar em presidenciáveis

Vou ao "Coimbra Shoping" comprar umas sapatilhas para jogar à bola. Vejo uma enorme fila. Pelo perfil das pessoas que a compõem indago se estarão a distribuir o "Best of Roberto Leal". Avanço curioso pelo magote alinhavado e vejo um tipo sentado a assinar autógrafos à porta da Bertrand. Era Cavaco Silva a promover o seu novo livro. Já fui a feiras do livro em que reiteradamente assisto a uma cena triste: um autor que se presta a autografar o seu recente livro e ninguém para o comprar. Imaginei essa imagem como a metáfora para a ambição presidencial de Santana Lopes. Olhei para a fila até ao parque de estacionamento. Só me ocorreu um sorriso.

Compensas

Recebi um simpático email-convite da Sofia. Apesar da adivinhada ressaca, não hesitei, por isso no sábado lá fui a um almoço engendrado pela malta da Natureza do Mal. O sol de Coimbra acolheu-nos em graça. Era a primeira vez que os via, lá estava a doce Sofia, o charmoso Luís, o enigmático André Bonirre. Havia uma convidada vinda do Norte, uma certa insensatez cujos escritos há muito visito. Tod@s el@s já eram bloggers de afeição, escribas que agora perscruto com renovado enleio. Naquele repasto que se fez lanche conheci ainda o Castor de Mármore e o Mundo Imaginado. Entre o hilariante e o fantástico: cativantes. Os seus blogs só o vieram provar.

Em relação a estes eventos, ainda que informais, há quem tema a agonizante desilusão a advir do encontro com aqueles de quem apenas se conhecem os escritos. Até compreendo quem assim pense, mas não ser céptico pode ser deliciosamente compensador. E assim foi. Nesses dilemas, de algum modo expressivos de formas de estar na vida, sempre entendi que há que fazer apelo a uma tal de Fé Poética:

That willing suspension of disbelief for the moment, which constitutes poetic faith.

Coleridge

Brindes

O Minimalista oferece algumas designações para blogs da praça. A este designa de Blog intelectual. A clasificação é já em si surpreendente, mas delirante é mesmo a justificação achada.

Enquanto ajeitava o colar apanhou-me distraído a olhar para ela. Não, não era apenas o decote. Desviei os olhos, pedi um fino. O barman sentiu-se usado. Recusou-me o pedido.

Olé!

Um já foi arrumado.

Nunca me deito. Apenas procuro uma posição confortável para olhar o tecto. Se a luz me fere apago-a e deixo-me ficar. Todas as noites.

A desilusão da semana (act.)


Nunca o escondi, sou um profundo apreciador da verve de Miguel Sousa Tavares. Mas, acompanhando o que assinalam com pertinência Celso Martins e Miguel Vale de Almeida, achei absolutamente deplorável o texto que escreveu para debater as opiniões que Ana Drago enunciou em favor da despenalização do aborto. Aceito perfeitamente que é possível defender a mesma transformação legislativa - a despenalização do aborto - discordando dos argumentos de quem também a defende. Ok. Agora o que não me parece aceitável é que o tom e a argumentação de Miguel Sousa Tavares procure fundar uma forma de desqualificação tão pessoal e tão primária: «Entre os meus amigos, baptizámo-la de " Vírgula (...)". Não só era dispensável o machismo que subjaz todo o artigo de Sousa Tavares, como se deveria questionar o cronista da necessidade de fazer do corpo (e do seu "modo de apresentação") um argumento central no texto. Estranho sinceramente esta nostalgia pelos políticos cinzentos de pose austera e comedida, onde o sexo masculino tende a ser um garante de "neutralidade corpórea"*. Estranho-a em Miguel Sousa Tavares porque para mim isso corresponde a uma desilusão. Mais, ao assustador pressentimento de um sexismo militante.

*"(...)women who are constantly subjected to the ‘male gaze’ cannot experience the ‘privilege’ of bodily disappearance as much as the male gazer (the same could also be said of ‘race’ and ethnicity)" Williams, Simon (1998) in Body and Society, Vol 4, nº 2

A Lei e os Beijos

Desde que percebi que a lei pode servir desígnios emancipatórios têm-me surgido muitos projectos audazes. Mas conto-vos já uma utopia que frequentemente me assalta: Devia existir uma lei que nos autorizasse a beijar quem nos olha para os lábios mais de 5 segundos ou quem nos fala a menos de 3 dedos da boca! O regime seria opcional em função de quem nos olha ou fala. A natureza dos beijos também.

E se foi mesmo a Al-Quaeda a perpetar o atentado? Estará Portugal na lista por causa da fantochada dos Açores? É que apesar de Portugal não ter sido mais que um humilde apoiante na Guera do Iraque (não seria certamente por causa de uns quantos GNR's), não poderemos descurar o fortíssimo momento simbólico que constituiu a cimeira dos Açores para a visibilidade de uma coligação pró-guerra.

Eta ou Al quaeda?

A questão que a todos nos prende, cada hipótese requer leituras sócio-políticas diferentes. No entanto, importa lembrar que para as 192 pessoas que faleceram hoje a resposta a essa questão não fará a menor diferença. Jamais.

Um post sentido

Boa sorte Benfica.

Não, não é patriotismo, que até sou pouco dado a esses afloramentos. Não teria problemas em torcer pela Argentina de Maradona contra Portugal. Mas torço sempre pelas equipas portuguesas. Por familiaridade: conheço-as bem. Por estratégia: sei que o futebol que tenho à porta de casa ganha com as suas vitórias. Ok, talvez haja um pouco de patriotismo. Residual.

Sejamos Iberia na dor

Do nosso cantinho, é na partilha solidária dos despojos de dia um dia vil que a Ibéria na dor faz hoje todo o sentido. A condenação de todos nós deverá ser inequívoca.

Ouço, vejo e leio (e.g. o Caa no Blasfémias) a ideia que a luta é a mesma, em Madrid, Nova Iorque ou Jerusálem. Ou seja, a mesmidade do confronto com a vileza do terrorismo, uma desprezível forma de reivindicação política. Apoio. Mas tais afirmações também podem ser motes promotores de uma simplificação generalizadora, por isso mesmo passível de sugerir actuações padrão a partir de fórmulas fora do contexto. É que nem sempre a "guerra contra o terrorismo" se fará, firme e eficazmente, com guerra.

A verdade como escusa

"Não é nada contigo, sabes, o problema sou mesmo eu..."
Esta é provavelmente a desculpa mais usada para desenlaces amorosos (no sentido de cortar o laço). A verdadeira tragédia é saber o que dizer quando essa deixa não é apenas uma desculpa, mas a única coisa que se pode dizer com verdade.

P.s. A segunda no top deve ser "Como sabes, saí há pouco tempo de uma relação..."

A Ler

Naquele que se arrisca a ser um dos posts mais longos de sempre da blogosfera, Nuno Guerreiro produz um interessante texto sobre o anti-semitismo. Muito interessante. Ao contrário do Nuno creio que as acusações ao Estado de Israel são - na esmagadora maioria dos casos - separáveis de um anti-semitismo histórico. No entanto, o seu texto é relevante pela densidade das referências que oferece e por assinalar o perigo - não negligenciável - de se recapitular o "património anti-semita" na denúncia das posições opressivas do Estado Israelita. Sem que que se possa paralisar a crítica ao modo como o povo palestiniano vem sendo esmagado, entendo que deveremos, de facto, estar atentos a uma proclividade histórica para se resvalar para um ódio muito antigo: o anti-semitismo.


Man United 1 F.C.P. 1
Mesmo quando o querer de muitos vacilou eles nunca desacreditaram.
Foram lindos.

O teatro dos sonhos



Vítor Baía, Paulo Ferreira, Jorge Costa, Ricardo Carvalho, Nuno valente, Costinha, Maniche, Carlos Alberto, Alenitchev, Deco, Mcarthy.
Pela vossa arte possa o nosso sonho entar em cena.

Alongamentos

Ouço o relato da TSF. O comentador usa um ditado popular para descrever a situação do benfica: "Quanto maior a nau maior a tormenta". Poderia estar aqui um slogan para as empresas nos propõem um substancial aumento do tamanho do pénis. Digo isto porque a publicidade que chega ao meu mail é muito pouco persuasiva.

O tamanho do pénis enquanto elemento de afirmação da masculinidade é um óbvio legado de uma cultura patriarcal. Por isso, permitam-me, não posso deixar de lamentar ao ver determinada publicidade num site que propõe uma alternativa à lógica homofóbica e patriarcal.

Em busca de asilo

Lê-se sobre Gaugin: (...) a tese mística subjacente ao seu relato é que os homens podem já ter sido seduzidos ou escravizados pela civilização no Tahiti de finais do século XIX, mas "os deuses de outrora souberam manter um asilo na memória das mulheres".

Os pedidos de asilo adquirem novo sentido. A questão em relação a esta tese mística defendida por Gaugin será sempre o uso do plural (mulheres) ou do singular (mulher). Um asilo na memória das mulheres ou na memória de uma mulher?


Já em Bob Marley descortino uma questão similar, quando ele diz "No woman, no cry" fala de uma só mulher, e é por ela que ele não irá chorar. Ou seja, ele dá a essa mulher toda a importância precisamente no momento em que a procura negar.
Há quem prefira cantar uma versão menos hard core: "No women, No Cry... said... said ".

Utopia na Web

Há quem acredite e lute por utopias. Há quem não resista ao desejo, certamente ingénuo, de ver a blogosfera como uma E-topia. Uma espécie de não-lugar sonhado na web.

Palestina e o mito da simetria

Na sequência das trocas de argumentos entre Daniel Oliveira, Alberto Gonçalves e Francisco José Viegas acerca da polémica da Palestina (e das aspas), Vital Moreira toca num ponto que creio ser fulcral. Com simplicidade e maestria ele desfaz o ardiloso argumento da simetria, das ambições dos projectos expansionistas de Israel e a Palestina, para notar que há um elemento que faz toda a diferença, isto é, a assombrosa desproporção nas relações de poder. De facto existe uma tendência para se sustentarem leituras simétricas, aparentemente ingénuas, que frequentes vezes se mostram deliberadamente incapazes de captar como determinados discursos operam, em determinados momentos, ou como assunções de superioridade que têm o poder e as condições de possibilidade para reduzir o outro, ou como discursos afirmativos que mais não são do que resistências, lutas pela sobrevivência de um povo. Incomoda-me essa estratégia insidiosa por via da qual os discursos dos grupos oprimidos são chamados para o mito da simetria: "eu chamo-lhe preto, mas ele pode-me chamar branco", "há o dia da mulher e não o do homem porquê?", "há bares gays, porque é que não há bares hetero?".

Quanto às aspas da Palestina, sabemos que todas as identidades são historicamente contingentes e constituem-se por oposição a outras identidades, neste caso, outros povos. Assim acontece com a construção estratégica da identidade palestiniana, mais evidente pelo seu carácter recente. De facto, se considerarmos seriamente este carácter contingente da formação das nações podemos certamente chamar "Palestina" à Palestina. Mas como as "raízes históricas" nos conduzem sempre para uma diferença de grau e não de tipo, por coerência teríamos então que chamar "Portugal" a Portugal.

O ridículo après la lettre

Quem se deixou de grandes riscos afectivos, moderando os investimentos, precavendo as perdas, assume frequentes vezes uma atitude cínica em relação ao amor e às relações nele fundadas. Esse cinismo estratégico é, creio bem, a memória acesa do amor (e das suas consequências) e não a sua negação enquanto móbil do querer.
Há pois algo de ridículo nesse cinismo. Eu gosto desse ridículo, tem graça. É lindo! Ele está para o amor como o pós-modernismo está para as certezas da modernidade. A estetização do desgosto amoroso é, pois, um dos fundamentos da pós-modernidade.

A verdade é que hoje
As minhas memorias
D'essas cartas de amor
É que são
Ridiculas.


Álvaro de Campos

Posts não esquecidos: Tiago disserta sobre os ciúmes do passado. Pedro debate a estetização da auto-estima.

Parabéns

A Voz do Deserto faz um ano. A singular prosa do Tiago Oliveira consta das primeiríssimas linhas que conheci na blogosfera, aliás foi com ele que o troquei o primeiro mail por estas paragens. Eis que um ano depois "a voz" permanece com a mesma lustrosa verve. Parabéns Tiago.

Óscares, decotes e corpos

O meu silêncio em relação aos decotes dos Óscares recebeu uma merecida chamada de atenção da Isabel e da Xinha. Elas têm toda a razão. Como eu adormeci a meio da cerimónia tive que fazer um aturado trabalho de investigação nos sites da especialidade. Depois de ver e rever, não tenho dúvidas, Chalize Theron no seu vestido de alva cor, ancas exuberantes (conferir “Cider House Rules”), foi a mulher da noite. Não posso, no entanto, deixar de dirigir umas palavras de apreço para as mamas da Angelina Jolie.

Longe das incorruptíveis formas da Laetitia Casta, todos sabemos que as mamas de Jolie são instáveis e levemente caídas, fazendo lembrar, apenas nos seus melhores momentos, o deslumbrante peito da Mónica Belucci (Conferir “Gia”), ambos (os pares) um pouco menos seguros que o da sumptuosa Jennifer Connelly. No entanto, a ideia forte é que o declive das mamas da Angelina Jolie, orgulhosamente ostentado, é também a prova da sua veracidade estética (silicone-free), representado de modo portentoso a beleza sinuosa dos corpos que realmente existem. O desenvolvimento sustentado e o pensamento ecológico conhecem no peito de Angelina dois dos seus mais poderosos ícones. Mais, no seu belo declive, os mamilos da Tom Raider apontam para baixo, imitando o movimento angular dos olhos que observam o seu peito de cima, imagino, sem sobranceria, dobrando-se sobre a deliciosa humildade das formas da vida. É nessa inclinação que a irmandade entre olhares e mamas é finalmente reificada, enquanto realidades que reciprocamente se convocam e respeitam. No fundo falamos de uma vénia à exuberância da existência enquanto ecologia de diferenças, uma ecologia de cumplicidades entre irises e mamilos.

P.s.1 Tornou-se claro nesta cerimónia que o culto da alta-costura muitas vezes torna o vestido como um fim em si mesmo, molestando os corpos que os vestem. Penso que a esmagadora maioria dos corpos ─ e dos seios em particular ─ merecia mais respeito. Uma negligência das formas da vida. A rever.
P.s.2 Percebo pouco de costura, mas achei este vestido, com motivos nipónicos e indianos um deslumbre.

Singelo mas deslumbrante. Olha quem é ela!


Tachos e cordeirinhos

Direi que sou contra o aborto, recuso um discurso facilitista que às vezes se esgrime, mas sou a favor da despenalização e sou a favor da sua realização em estabelecimento público de saúde. Se os deputados do PSD seguirem hoje a ordem partidária, negando, muitos deles, a sua consciência em nome de uma concordata politica com Paulo Portas, a coligação que está no poder conhecerá o seu mais profundo descrédito desde o início da legislatura. Ninguém, seja a favor ou contra a penalização do aborto, poderá ficar contente com este modo grotesco de de deliberação política. Estou a acompanhar o debate na Assembleia da República. Djamila Madeira, arguta, tentou falar ao íntimo dos deputados. Leonor Beleza, altiva e nasalada, desgraçadamente defende o indefensável. Nota-se que não acredita no que diz. Justifica o acordo partidário, lembra as situações em que o aborto é legal, re-invoca a importância da educação sexual, do planeamento falimiliar... O cinismo devia ter limites.

O caso Avelino Ferreira Torres faz a ponte entre a desobdiência civíl e a problemática da inimputabilidade. Alguns estudiosos defendem uma estreita ligação entre o sexo oral e a higiene íntima. Num caso e no outro o Estado abstém-se de opinar.

Idalina

Enquanto me dediquei a uma espécie de trabalho comunitário, havia uma pessoa que frequentemente me chamava enunciado a frase: “Bruno, pelos teus lindos olhos…”. Não creio que os meus olhos sejam particularmente bonitos. Não são. Pouco importa. Na verdade, para Idalina, a pessoa que assim me invocava, isso não era demasiado relevante. Idalina ─ mãe babada, profissional competente e pessoa bastante “desenrascada” nos “mundos da vida” ─ nunca viu. Sempre foi cega. (Uma cega bem feliz, acrescentaria). Assim, quando Idalina apelava aos meus lindos olhos, substanciava afinal uma humorada forma de pedir o meu apoio para alguma tarefa em que um par de olhos pudesse ser de alguma valia. Acreditem, a suave ironia de Idalina nunca ter visto os meus olhos apenas reforça a poética com que lembro esse doce chamamento.

Boleias perpétuas

Foi há poucos dias. Fui levar uma amiga a casa. Depois de dissertarmos ao som da solfagem sobre os temas da actualidade afectiva, despedimo-nos. Quando a porta dela se fechou tentei ligar o carro. Rodei a chave. Nada. Repeti. Nada. Certifiquei-me que o estacionamento não era tão precário quanto isso, peguei nas minhas coisas e vim para minha casa a pé. Senti-me nobre ao padecer tal insólito. No dia seguinte fui lá com um amigo tentar carregar a bateria. Nada. Fiquei a saber que a Assistência em viagem da Tranquilidade é bastante eficiente. Fiquei a saber que não percebo nada de carros. Fiquei a saber que os meus amigos também não. Fiquei a saber que as revisões devem ser feitas. No fim o senhor do reboque deu-me uma boleia. Agradeci-lhe com uma ternura recém-descoberta: é que nunca saberei se chegou a casa.

O propalado esmorecimento

Megafusão na Blogosfera: Mata Mouros, Cataláxia, e Cidadão Livre congregam-se no Blasfémias. Este novo espaço será em dúvida será um esteio para a malta liberal. Ademais, acrescentei novos links à lista, coisas, boas, dêem uma volta por lá...
Conforme muitos defenderam (e.g. aqui, aqui) acredito que há um enviesamento ideológico em quem assinala o esmorecimento da blogosfera, estou convencido que essa ilação pressente sobretudo a perda de hegemonia da direita. Mas há também aí o sintoma de algo que podendo ser ideologia política surge com maior premência enquanto uma forma de estar na vida: o conservadorismo. Só uma atitude profundamente conservadora e um gosto quase patológico pela revisitação nostálgica justifica falta de atenção, de abertura e de desejo de descoberta em relação aos muitos e bons espaços que aparecem. Na verdade, a qualidade e diversidade é demasiado vasta para as veredas que eu consigo percorrer nas minhas peregrinações. No entanto, no entanto... (e esta é a minha fraqueza) fico contente quando a luz se acende, certificando-me que a casa não está abandonada.