Fantasmas Amorosos: gostava de te ter conhecido antes...

Há pessoas que padecem nas relações amorosas de uma espécie muito particular de ciúmes. São os ciúmes dos fantamas, os cíumes do passado, ou, numa linguagem mais corriquiera, os ciúmes em relação ao(s) ex(s) (da pessoa amada). Na maior parte dos casos nem sequer está presente a ameaça da perigosa presença d@ ex nas redondezas, pesando sobretudo a ideia de que "alguém marcante" esteve num "lugar" semelhante ao que agora a própria pessoa ocupa (namorad@, espos@).

Creio que essa tão estranha forma de ciúme se exorciza com uma ideia simples: As pessoas (também) são as suas experiências. Se se ama alguém, não se ama alguém apesar das suas histórias, do seu passado, mas por causa dele, pelo modo como a densidade da experiência participou na "construção" do ente amado enquanto uma alma que nos é "amável". Quem vive com os fantasmas do passado d@s namorad@s, arrisca-se a só conseguir amar apesar, amar apesar é amar um fantasma..

É uma bela expressão de afecto quando se diz: "gostava de te ter conhecido antes...". Mas esta frase pode ser também expressão de um trágico tarde demais de alguém que vive rodeado por espectros.

Um abraço

Pelos dias que correm é frequente duas pessoas apertarem a mão e dizerem "um abraço!". O Esmeraldo chamou-me a atenção deste facto. Tento desconstruí-lo. Dantes o aperto de mão era frequentemente acompanhado do dito "passou-bem?", podendo inclusive designar-se o aperto de mão por "passó-bem". Dizer "um abraço" é uma forma de expressão menos cordial e mais afectiva. Mas não deixa de ser estranho alguém dar um passó-bem vociferando "um abraço!". Torna-se óbvio que a linguagem das sms´s, onde os jinhos e abraços fecham as mensagens, migrou para os encontros de co-presença, levando ao evento insólito de alguém que se despede com "um abraço!", mas não o dá. Está mal.

"o estado da arte" de um blogue.

Devo dizer algo; uma espécie de mea culpa. Nos últimos dias este blogue tem andado menos comunicativo. Não tenho feito alusões a outros escritos, não tenho dialogado competentemente com as simpáticas referências que me fazem, não tenho entrado em debates com outros blogues, não tenho actualizado a minha lista de links. A razão é simples, tenho tido menos possibilidades de ler no computador. Ou por outra, as minhas obrigações des-agrilhoaram-me por uns dias do ecrã e levaram-me às bibliotecas, aos amigos, à família e aos olhares encantatórios [não exactamente por esta ordem]. Ao mesmo tempo, e em sentido inverso, tenho percebido que este espaço ficou profundamente enriquecido com os comentários que sempre leio, frequentes vezes mais interessantes que os posts que são comentados, e onde a conversa ganha vida. [não, não é graxa]. Mas como eu acho que a grande virtualidade dos blogues é a partilha e a troca de ideias, próxima da tal comunidade ideal de comunicação de que falava Habermas, procurarei regressar a um registo mais dialogante, expondo-me ao contraditório, enunciando aos ditos que revoltam, ensinam e deslumbram. Agradeço aos/às leitor@s fiéis ou mais esporádicos por tornarem isto algo a que me dedico sem hesitação.

Tragicomédia televisiva

O carácter tablóide da informação da TVI leva a que esta estação seja frequentemente designada como o "24 horas" da televisão. Pelo que vamos vendo não me supreenderá que alguém do matutino venha a interpor uma acção em tribunal por considerar tal associação ofensiva e difamatória.

Há sorrisos que foram roubados às lágrimas. Percebemos. São belos. A um tempo, frágeis e portentosos. É a experiência que nos sorri sem pudor.

O génio da bola


FCP:2 Man United:1
O Futebol é dos poucos fenómenos de globalização de origem marcadamente europeia.
Nos tempos em que muitos perguntam cepticamente o que é que Portugal tem para oferecer ao mundo, Mourinho oferece uma hipótese de resposta: O Futebol do FCP. Na verdade, o gizar heróico de Mourinho é dos poucos fenómenos que não dá espaço para o fado das portugas lamentações. E é por isso que o País reage mal ao seu génio: ele desestrutura a identidade portuguesa choroso-melancólica. Mas o que realmente entra em conflito com o gosto pela coitadinhação é o facto de o homem ter a conciência dele - do génio claro. Ainda por cima é giro. Por certo as leitoras e as gentes pós-homofóbicas não terão problemas em concordar comigo.

Quem é você?

Eu sei quem sou. A afirmação é categórica. Podia bem ser uma expressão de arrogância esquecida das contradições, buscas e perdas que me definem. Mas não, é um agradecimento às palavras doces de um amigo. Sabem, com o Francisco o "xoxo da amizade" (ritual que esmiucei aqui) é, desde há muito, a expressão corpórea de uma letra. Falamos de muito. (Francisco espero que este post não te cause problemas)

Que eu quero me arder no seu fogo...

A figura de Pierrot vem da commedia dell’arte. No modo como nos ficou sugere a deliciosa incompletude do artista enquanto outro-de-si-mesmo, a tensão nunca resolvida entre a ocultação e a revelação.

Na "noite dos mascarados" Chico Buarque põe tudo ao barulho. E como põe... Desejo, amor e identidade. O rosto ou a máscara. A busca do efémero ou gosto pelas eternidades. A abrir a pergunta dilacerante: Quem é você? Engraçado, há quem nunca desista de perguntar.

Acredito que Romeu e Julieta são Colombina e o Pierrot quando a crise das identidades se instala e quando a certeza do amor deixa sobreviventes.


Quem é você?
Adivinhe, se gosta de mim
Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:
Quem é você, diga logo
Que eu quero saber o seu jogo
Que eu quero morrer no seu bloco
Que eu quero me arder no seu fogo
(...)

God knows how I adore life

É incrível como a linguagem científica colonizou o idioma dos amores.
Falamos de química,
de ferormonas,
de "Eurekas",
de combustões,
de ebulições,
de perdas e transferências de energia,
de entropia,
de equilíbrio,
de misturas,
de reacções,
de falta de oxigénio,
de corações por calibrar, ...
Creio que estaremos mais pós-modernos no caos metodológico da experimentação, mas permanecemos ironicamente modernos na intransigente busca de uma verdade.
I'll be there anytime...

Permanências

É uma cena absolutamente incontornável para o típico pai de família. Acorda por volta das 9. Veste o fato de treino encerado. Dirige-se à bomba de gasolina, enche os pneus, aspira os interiores e lava o carro. Feito. Passou a ir menos à missa, esse estereótipo do homem que se "libertou" sem ler Nietzsche, mas o gosto pelo ritual de domingo de manhã permanece nele estranhamente intocado.

Um Post do Exílio

Desgraçadamente, fiquei em casa a limar as arestas de um trabalho. Triste de mim. A pretexto de um amigo que após vários meses chega da Alemanha, foi tudo para a party (Em Coimbra a melhor noite é a de Quinta) Bem fizeram. Ainda por cima parece que havia aí uma festa monumental a pretexto de um carnaval antecipado. E eu que já não danço há tanto tempo a pretexto de um trabalho atrasado...[obviamente não me refiro a nenhum sentido mais nobre daquilo que seja dançar, falo sim, e citando Geertz, desses dramas plásticos em que as mulheres e homens alcançam a fé enquanto a representam]. Depois dizem que escrevo muitos posts e não tenho tempo para nada, como se isso fizesse algum sentido... Mas isto vai acabar (desejavelmente). Não os posts, claro.

Preliminares Blogosféricos?

Adoro teses audazes. A Marta reflecte sobre as réplicas da apresentação do Pipi no Porto e sobre os Posts perfumados, e conclui que com a aproximação da primavera a blogosfera está em plenos preliminares erótico-afectivos:
"há praí muitos casos e piscadelas de olho entre as gajas e os gajos dos blogues (...) ele era gajos a elogiarem o vestido preto nas curvas da Charlotte da Bomba, ele era um sem fim de apreciações sobre o penteado do homem a dias (...) Acho muito bem!Está tudo apaixonado mas ninguém se estica (...) existe uma pulsão sexual, ardente, desenfreada neste fenómeno dos blogues. E é uma pulsão que não traumatiza e que não expõe. E mais, está banhada do melhor umbiguismo (todos nós somos, amigos!)!" (post completo)

A tese é ambiciosa, mas podia ser mais. Será que ela vale só para os blogues de pendor mais intimista/umbiguista, ou poderíamos mesmo avançar uma leitura mais psicanalítica para o fervor politico que é a marca de água de alguns blogues?

A Ordem d@s Psicólog@s

Psicologia... sem que alguma vez tenha entrado num consultório, tenho um longo itinerário afectivo com essa "área do saber". Após ouvir as declarações que, a pretexto da adopção, Luís Vilas Boas profere sobre a homessexualidade, fiquei a pensar para mim o quão importante seria que houvesse uma ordem dos psicólogos que pudesse vir a terreiro limpar a imagem da classe. Na verdade, só existe, por enquanto, uma associção pró-ordem dos psicólogos. Até aqui tudo bem, estranho mesmo foi saber que o tal Vilas Boas faz parte do Conselho consultivo dessa mesma associação. Delirante.
P.s. Vilas Boas responde a um mail da Sara. Não há dúvida o hemem acredita mesmo que veio estirpar o mal do mundo.

Enfim

Talvez seja paradoxal. Tenho, segundo me dizem, uma "personalidade forte" (um eufemismo para maniento, creio bem). Mas por outro lado sou bastante sugestionável. Confesso, a minha fraqueza são as utopias, não lhes resisto, facilmente me deixo embalar por músicas lamechas ou palavras cativantes ao encontro de uma formulação utópica. Pior: busco esses leitmotivs. Como alguém me acusava serei porventura um um lírico. Mais por teimosia do que por convicção. Mas sou. Não demasiado, acho.

P.s. Este post não tem nada a ver com o meu desejo de ver o Baía na selecção. Até porque o Scolari é um admirador da obra de Roberto Leal e isso a mim basta-me.

Ainda os perfumes cativantes

Leio argutas reacções à fragrância que aconselhei. Não acham curioso? Falamos de perfumes e penssamos logo em relações. Há duas razões:
1- Na maior parte das vezes os perfumes são oferecidos, logo, implicam relações de dádiva.
2- O odor de um perfume depressa se torna neutral para quem o usa, é na sensibilidade d@s outr@s que ele realmente faz sentido.

Para além dos comentários, Suhi com cólera, Eu é mais bolos, 10O nada e a Duende dedicam ao tema interessantes posts.
A Teresa vê nos perfumes uma oportunidade para novos aromas relacionais, atenção que ela não fala em novas relações!
A 100 nada é peremptória: "É um tema de sedução, esse dos perfumes... (o perfume dela é Angel)
A Duende é poderosamente sugestiva: "Eu só tenho a dizer que uma verdadeira girl se veste de Chanel nº 5 e maináda (literalmente)."
A Lili brinda-me com um post tão delicioso como hilariante. Desconcertante, ela adivinha uma namorada para as minhas bandas: "nota-se bem pelo blog dele que está mesmo na fase apaixonadíssimo".
Com a deixa da Lili, sinto-me impelido a discorrer sobre os fundamentos vivenciais da minha estética celibatária, mas, por uma vez, tento suster a minha pulsão confessional.

Mães, "putas" e filhos pródigos

Neptuno do Mar Salgado mostra-se preocupado com as consequências do fecho dos bares de alterne em Bragança. É por estas e por outras que se processa a desertificação/despopulação do interior. Na verdadee eu fico comovido, imagino essa cena linda das mães de Bragança a receberem os seus filhos pródigos com renovado empenho sexual.

A designação de "mães de Bragança" parte de uma dicotomia reguladora nas sociedades patriarcais entre as mulheres "casáveis", as mães, e as outras, as putas (as cabras para utilizar uma analogia vinda da pastorícia). Ao auto-designarem-se mães no sentido defensivo, as esposas des-eroticizaram-se, despiram-se de qualquer carga sexual. O incesto voltará agora a fazer todo o sentido.

Encalhadas, e outras metáforas sentimentais

Olho com ternura para as pessoas que definem a sua situação sentimental por alusão a uma metáfora marítima. Alguns auto-denominam-se pesarosamente encalhados. Outr@s declaram-se triunfalmente navegadores. Outr@s afirmam que encontraram o seu porto. (A paz que muitos encontram nestas metáforas é a prova que às vezes mais importante do que saber onde estar é saber estar onde se está.)

Mas, não duvidem, de onde eu vejo as metáforas diluem-se para outras realidades:
Tantas/os encalhadas/os num porto...
Tantas/as navegadores perdidos no mar aberto...

Conselho para as leitoras

Como já aqui contei, às vezes dá-me na telha e entro numa perfumaria como quem visita um museu. Tirando ilações da minha última visita, se tivesse que aconselhar algo às leitoras seria certamente esta fragrância:
Le Feu D'Issey Light

Vá, ao menos experimentem.

O Barnabé

De passagem, conheci ontem o Daniel Oliveira, personna cuja existência mediática se encontra ensombrada por um homónimo. Mas eu falo, claro, do Barnabé. A chegada dos Barnabés foi uma dádiva para a blogosfera. Acho que é também a escrita inteligente e vigilante deles que permite eu me dê ao luxo de ser, na maior parte do tempo, tranquilamente intimista - umbiguista se preferirem. É verdade que nisto de posições sócio-políticas não há delegação possível, sabemo-lo. Por isso, há um ano, milhares gritaram nas ruas de Lisboa contra a guerra. Vale a pena lembrar.

Afinidades labirínticas

Leio no Opiniondesmaker: «O Avatares e o Terras são dois blogues que constroem no seu fluxo uterino uma ponte entre uma esquerda vaidosa e uma direita reprimida. Esse religare tão peculiar faz também deles dois assumidos símbolos religiosos. Estar-me a meter com dois blogues é uma manifestação da arriscada exposição ao risco da indiferença. Ora esta situação também encerra um simbolismo. O do labirinto do amor-próprio».

Há frases que precisamos de exaurir como quem bebe um digestivo. Eis um caso.
Engraçado. Na vida pessoal quando alguém me fala da incerteza em relação ao seu amor por alguém, coisa não rara, concluo que não ama (mas não digo nada). Já quando alguém estetiza a volatilidade do seu amor-póprio adivinho que essa "fala" só é possível porque um tal amor não está em causa. Extrapolando em muito a deliciosa deixa do António, acho que a estética depressiva tende a emanar de almas para as quais o perigo não é real.

Até acredito que haja muita promiscuidade económica no mundo do futebol, mas não tenhamos ilusões, o sistema que realmente tira o sono ao Dr. Dias da cunha é o de José Mourinho: o híbrido entre um 4-4-2 e um 4-3-3. Mais não digo para não empurrar o olhar doce da Jennifer Connelly para as profundezas.

Os segredos globais


Arjun Appadurai designa as Mediascapes para referir as imagens disseminadas na cultura global. Tal como as paisagens (landscapes), as mediascapes guardam a possibilidade de serem acolhidas pelas culturas e pelos individuos de modo diverso. Há sempre espaço para "trazermos para casa" vislumbres únicos e singulares.
Às vezes penso que há uma divisão entre as belezas óbvias e as descobertas de beleza que nos comovem. Mas não é bem assim, há porosidades. Na trama global como na biblioteca da FEUC* existem aquelas formas de beleza que sendo óbvias se vocacionam para serem apreendidas como segredos. (Jennifer Connelly é para mim um exemplo)

*Uma biblioteca de Coimbra. Tenho para mim que as bibliotecas são frequentadas com interesses muito semelhantes aos enchem um qualquer lugar da noite. Isto é: ver gente e socializar. Por esta ordem.

Temas fracturantes

Se tenho lido bem, o assunto criou divisões internas no Barnabé e no Blog De esquerda. Por outro lado trouxe uma inédita sintonia entre o JCD e o JMF que concordaram em não ter uma opinião muito assertiva em relação à proibição de símbolos religiosos nas escolas francesas. Claro que não ia perder a oportunidade de discordar dos dois ao mesmo tempo. Sou contra a proibição. Mais que os princípios, procuro ler as consequências... símbolos, identidades, fracturas culturais, religiosas, civilizacionais, relações de género, negociações quotidianas da liberdade, fechamentos defensivos, exageramentos da diferença, argumentos para a reinvenção da opressão. Um outro post...

P.s. O Avatares errou. Recebo nota que os Barnabés que expressaram opinião estão todos contra a proibição.

"Subversão no dia 14? vai dizer isso à minha namorada!"

No limite todos as contruções culturais, mesmo aquelas a que chamamos tradições, são invenções sociais. Nesse sentido, no abstracto, o dia dos namorados é tanto uma invenção como outro marco qualquer. Só que, além do carácter construído do Dia dos Namorados ser muito notório pela rapidez com que se estabeleceu, ele surgiu no noso meio como um óbvio produto dos interesses económicos. Não tenhamos, dúvidas, o Dia dos Namorados é uma perversa forma de chantagem emocional, um terrível imperativo que funda o amor na dádiva (comprada previamente). Eu acredito num mundo sem amos com a mesma intensidade que acredito num dia dos namorados sem prendas. Chamem-me nomes, mas esta promiscuidade sexual entre amor e capitalismo...
Eu sei. É óbvio que falo de uma posição confortável, mas nem sempre terá sido assim... Creio que é preferível festejar com oferendas os 17 meses desde o primeiro beijo, a primeira discussão, a primeira declaração de amor, o primeiro banho juntos, a primeira viagem, a primeira vela gasta... Claro. Há sempre a possibilidade de apropriações criativas. De facto a indiferença deixou de ser uma opção. Enfim, safem-se como puderem, mas, por favor, ao menos não comprem um swatch desenhado de novo para o evento.
Por falar em Dia 14

Cannabis (actualização umbiguista)

O presidente do Instituto da Droga e Toxicodependência, Fernando Negrão, recusa a prescrição de cannabis para fins terapêuticos, por considerar que os efeitos desta substância são pouco conhecidos. Ó Dr. Negrão, não seja injusto, pouco conhecidos? Vai ver que é só uma questão de falar com as pessoas certas. Consultodoria, obviamente.

P.s. Eu, que até não sou um menino de coro, tenho como uma "excentricidade biográfica" o facto de nunca ter fumado um charro. A razão é simples, não sei fumar e nunca me quis investir em aprender. Por isso, não é infrequente algumas das minhas amizades ouvirem-me dizer "passo". Já o vinho tinto... Ninguém duvide que o álcool é o lubrificante essencial da máquina social portuguesa

Os Vips relacionais

As promoções dos telemóveis que permitem escolher 3 ou 10 pessoas - aquelas para quem mais se fala - impõem um curiosa reflexão acerca das relações. A alteração dos números inseridos nesses packs também diz muito do que se vais passando na vida afectiva. Ah... a ritualização das hierarquias afectivas... Hoje, na idade adulta - segundo o BI- esses rituais são muito mais subtis (creio). Mas reparem, por exemplo, quando se dá boleia a duas pessoas, sem que nada se diga, a mais amiga é invariavelmente a que se senta no lugar da frente. Nota-se também que as relações amorosas têm precedência sobre as amizades: nunca a namorada vai atrás e o amigo à frente. Já se for ex-namorada/o tudo pode acontecer. Essas hierarquias são tacitamente partilhadas e ritualizadas por todos, raramente são verbalizadas. Mas há mais destas subtis representações da hierarquia dos afectos.

Quando eramos crianças nem sequer eram subtis.

Os dois melhores jogadores eram nomeados capitães de equipa e ficavam responsabilzados de escolher as duas formações; alternadamente, lá se ia separando as águas do magote de jogadores. Era a logística do futebol. Mas esse ritual aparentemente funcional era muito mais que isso. Era a representação de todo um grupo social. Explico.

A ordem das escolhas baseava-se em dois critérios, qualidade do jogador e o seu grau de amizade com os capitães de equipa. Por isso, o momento da escolha era afiinal a expressão da hierarquia social dentro da turma. Inevitavelmente, eram sempre os mesmos a serem escolhidos em último, o refugo. O último de todos, amargurado, muitas vezes já nem queria jogar. O jogo futebol não era só importante enquanto elemento na definição da hierarquia social, mas também era precedido pelo ritual onde essa hierarquia se representava e exibia perante todos. Era ali que a sociedade masculina da turma se pensava enquanto estrutura hierarquizada.

Os lábios de Anabela e não só...(act.)

Há uns dias escrevi o post "Os lábios de Anabela", reclamando o facto do Magazine 2 não ter intérprete de língua gestual. Hoje a Anabela abriu o Magazine a dizer boa noite em lingua gestual e a caixinha com o tradutor passou a figurar no canto. Quase que conjurei uma possível influência, mas como duvido que os critérios de programação da RTP passem por este blogue, resta-me dizer a crítica deixou hoje de ser pertinente. Ainda bem.

p.s. Pergunta académica: será que a Anabela namora? É que ela às vezes olha para o ecrã de uma maneira ... Já se impunha uma revista cor-de-rosa dirigida ao meio literarato. Quem não precisa é J.M. Carrilho, já deu o salto há muito.


Curiosamente o registo intimista tem sempre a ver com algo que é público. O intimismo é uma tentativa de fazer do público algo de mais íntimo ou então é uma expressão pública de algo que se suporia ser íntimo. A intimidade não é intimista, falta-lhe o público.

Jesus Reloaded

"O que é que Jesus faria no meu lugar?" Esta é uma das questões que o discurso religioso frequentemenete coloca à reflexão pessoal do crente. Curiosamente, este mero exercício, ao trazer a fé para os mundos da vida, coloca um abissal desafio de exegese e um esforço de tradução sócio-cultural que dá cabo de qualquer entendimento literalista/fundamentalista/integralista da Bíblia - aquele mesmo que vigia decisões tão absurdas como proibir o uso do preservativo porque o Santo Agostinho descobriu o pecado original como a chave interpretativva da queda no abismo. Siga.
Mas, ironicamente, a tal questão é mesmo acutilante. Sobretudo porque nos lembra que 90% das decisões tomadas no dia-a-dia dificilmente encontram resposta em credos, versículos específicos, posições eclesiásticas ou interpretações rigorosas do hebraico, do grego ou do aramaico. Ai as pessoas, sempre elas...

Há mais textos sobre textos do que sobre outra coisa qualquer, a mim sempre me deu a ideia que aquela história do amor ao próximo, se levada a sério, pouparia muitos dos labirintos teológicos, sempre mais preocupados com a palavra e com o resgate do sentido original.

A ironia é que o amor ao próximo supõe esse gesto prévio de fazer do outro próximo. Acho que aí o fundamentalismo textual às vezes atrapalha um bocadinho.

O que move um Blogger? (act.)

Não tenhamos dúvidas, para muitos, um dos atractivos centrais para se ter um blogue é o facto de essa simples posse insinuar uma intimidade com a fama. Na blogosfera esse possível desejo de fama/visibilidade mediática é sugerido por dois trilhos:
1- Um horizonte amplo de leitores
2- O facto do exercício das funções de blogger fazer supor a partilha de um espaço com pessoas de relativa notoriedade na opinião pública. Havendo ainda o aliciante de se poder estabelecer diálogos com elas.

Neste sentido, um blogue terá para muitos o aliciante similar a um Big Brother, sendo que neste caso a almejada notoriedade segue um itinerário que se demarca da cultura popular, para calcorrear, ao invés, os meandros literatos mais próximos da intelectualidade (o que quer que isso seja).

Para alguns o apelo da Blogosfera assemelha-se à ideia de um Big Brother dos literatos.

Como o programa original nos mostra, ninguém fica muito tempo na casa. Por isso tomo a longevidade de muitos espaços de visitação como uma prova daquilo que não move os seus autores.

P.s. (suscitado pelos comments) Obviamente o título deste post parte de um pretensisismo analítico que mais não quer do que ser provocativo. Na verdade não considero que essa aspiração à intimidade com a fama seja dominante na blogosfera que conhecemos. Na minha opinião o facto de essa aspiração se poder constituir como móbil primordial será, isso sim, a razão pela qual muitos blogues acabam ao fim de umas poucas semanas ou meses; seja pela frustação dos intentos, seja pela ideia de objectivo alcançado. Não havendo razões erradas nem certas, creio que a preponderância do desejo de visibilidade e afirmação pessoal tende a fazer do blogue um fenómeno efémero.


Mamas e os seus teóricos: O decote como espaço de adivinhação cultural

A América ficou chocada com a exibição do mamilo de Janet Jackson! A Charlotte abisma com a falta de bronze da mama, o Homem a Dias ficou ofendido por não ter visto a transmissão. As hipocrisias acerca do lugar do sexo na cultura pop e na sociedade americana são bem salientadas por M. Vale de Almeida. Às vezes dou por mim a teorizar sobre coisas que não interessam a ninguém, devo confessar que nada é mais reconfortante do que ver (literalmente) um tema da análise ganhar relevância. Incorrendo no mau gosto de me citar, deixo-vos com a transcrição integral de um post que escrevi a 7 de agosto. Este texto confirma a tese que o vislumbre de um decote é em si uma forma de profecia, uma forma de adivinhação Não tenhamos dúvidas, os seios vestidos ou semi-despidos são as conchas em que muitos procuram prescrutar mundos ocultos. As mamas que moram debaixo de um decote são apenas uma das modalidades possíveis das mamas construídas projectivamente.

"Tenho amadurecido uma instigante reflexão em torno da exposiçao pública de seios - não se trata de uma obsessão infantil, mas de um questionamento que, creio, se reveste da algum relevo (a palavra é contextual).

A questão pode-se sintetizar assim: Porque é que a catarina Furtado não apresenta a operação triunfo de topless?

O que eu quero por a nu com esta interrogação provocatória parte do que vamos assistindo nas nossas televisões: uma evocação dos decotes medievais.

Senão, obeserve-se a já referida apresentadora, a Alexandra Lencastre, a Figueiras, a Isabel Angelino e (pasme-se) a Serenela Andrade. Um olhar inspectivo logo se apercebe das complexas engenharias de costura que permitem algo surpreendente: que 94% do seio fique de fora. Perguntarão: será que isto significa que rompemos com um tabu social nesse tipo de programas, ainda mais com figuras cuja carreira depende de um relativo nível de contenção corporal (excepção feita à figueiras)?

Creio que não!

A norma social que desvelo parece ser bastante clara: Pode-se mostrar a quase totalidade do seio desde que a auréola do mamilo permaneça oculta.


A forma estrita como assisto a esta prescrição ser cumprida leva-me a colocar 3 hipóteses:
1- O que se encontra no interior da aueréola do mamilo representa a mama como um todo, epitomiza-a de tal modo que, ao ser posta debaixo do tecido, equivale a que toda a mama esteja simbolicamente oculta.
2- A área cincunscrita pela auréola do mamilo detém o estatuto de segredo pessoal. Corresponde a uma espécie de bilhete de identidade da mama, cuja revelação conduz ao perigo da fuga de informação.
3- Trata-se de uma demarcação entre o espaço privado e o espaço público. Na arena pública torna-se possível capitalizar a sensualidade da mama sem que com isso se ponha em causa o decoro e o recato dos campos da vida íntima. Neste caso a aueréola constitui um limite singular, um espaço liminar que, qual charneira, actua como limite simbólico entre dois mundos."

Janet trangrediu a fronteira que a auréola do mamilo insiste em constituir nas representações públicas da mama.

Os lábios da Anabela

Lavei os dentes e sentei-me no escritório - onde também durmo, leio, vejo televisão e como as refeições menores. Há quem lhe chame quarto. Antes de ligar o computador onde Word sempre me espera impaciente decidi fazer um Zapping. O comando ia andando, "mas que...não posso crer..." Restringi o Zapping a uma movimento pendular entre a 2 e a TVI. Não queria acreditar. "Como é que é possível...?" Dediquei-me a um comparativo insólito. Na TVI dava o programa da tarde do carlos Ribeiro: "A vida é Bela". Na dois dava a repetição do Magazine, o tal que é apresentado pela Anabela Mota Ribeiro (não sei se ponha o link). Reparei neste pormenor que me deixou estupefacto:

Na TVI, uma televisão privada, num programa popular, existe uma intérprete de linguagem gestual (e muito bem). No Magazine, uma televisão pública, num programa cultural, quem é surdo acompanha os lábios da locutora, se quiser. Será para isso o baton carregado? Sinceramente, há zappings que me partem todo! Será que niguém se indigna?

Engana-me que eu gosto

Às armas, às armas...

Oportunamente, Durão Barroso foi chamado ao parlamento para nos dizer porque é que Portugal apoiou a Guerra. Diz o Paulo Gorjão: Independentemente de ter ou não visto provas, tratava-se de uma questão de palavra e de boa fé. Durão Barroso acreditava, ou não, na palavra de George W. Bush e Tony Blair. Coitados de Bush e Blair, primeiro foram enganados pelas suas inteligências, depois, involuntariamente, induziram em erro Durão Barroso.

Mas eu até acredito na boa fé da nosso primeiro. A sério! Aliás, no encontro dos Açores ele era o único que não fingia convicção. Provavelmente ele era única alma em toda a ilha a acreditar que Saddam estava maciçamente armado. Hesito entre a ingenuidade política levada a um limite histórico e a operacionalidade do dito tão usado na linguagem dos amores: "engana-me que eu gosto". Somos governados por um ingénuo ou por um mentiroso. Há quem aposte nos dois cavalos. Há quem justifique dizendo simplesmente que o realismo das relações internacionais tem muito pouco a ver valores e convicções. Uma tal tese tem aqui um estudo de caso.

Para mim, os melhores de sempre

Enquanto alguns se entretinham a ler a Odisseia no original eu debatia-me com a angústia do porvir encenada em Bel e Sebastião. Um enredo que, não obstante a ausência da deusa Calipso - lembro em sobressalto uma encarnação cinematográfica - pouco deverá ao épico.

Para mim a década de 80 é marcada por dois eventos:
1- A queda do muro de Berlim
2- A adaptação para televisão de Belle et Sebastien, um livro infantil escrito pelo autor francês Cecile Aubrey.
Mas se acompanharmos os simbólicos, aqueles para quem a queda do muro de Berlim marca o início dos anos 90, então sou coagido a considerar Bel e Sebastião - tradução lusa, logo se vê - como o evento mais relevante da década de 80.
Só posso lamentar por aqueles que ouvindo falar em Belle and Sebastian apenas conseguem evocar uma certa banda escocesa.

Experiências de inspiração maciça


Quando se preparava para ir em trabalho de campo para a Zâmbia o antropólogo Victor Turner recebeu um telegrama de última hora de Max Gluckman, o seu orientador: "Sugiro que mude para a tribo Ndembu na Província Noroeste muita malária febre amarela imenso ritual".
Ele foi. A sua influente obra ficaria claramente marcada pela propensão ritualista dos Ndembu.
Viria a morrer muito depois, em 1983, deixando à Antropologia novas possibilidades interpretativas sobre os rituais, os dramas sociais e a etnografia da experiência. Aventurou-se sempre com a mulher e os filhos por perto. Nesse sentido Victor Turner poderá representar a alternativa à construção solitária da empresa antropológica. A romântica.

Subtilezas

Reparo, não sem uma certa estranheza, que é quando falamos de futebol que somos mais frequentemente elogiados. Quer dizer... não será bem um elogio, mas uma subtileza retórica. Quase sempre começa assim: "Tu, que até és um tipo inteligente..."

Por falar em futebol, a coisa segue aqui e aqui, aqui e aqui.

Ainda dizem que escrever blogues é para gente desocupada!

Em tempos aludi aqui às investigações insólitas que aparecem revestidas de grande solenidade e seriedade académica. O meu caro João Nogueira descobriu esta pérola nos estudos históricos em torno do corpo: On Farting: Bodily Wind in the Middle Ages, de Valerie Allen. Não traduziram mal, é mesmo um livro em que se veicula uma exaustiva investigação sobre o tema da flatulência na idade média. Diz-se na apresentação da obra: "A multifarious typology of the fart will permit a better understanding of the phenomenon's protean
wealth of meaning.
". Pois.

Novas tendências no mundo dos Amores

Engrossam as fileiras dos aderentes uma tipologia amorosa que vai fazendo escola: Não querem assumir uma relação, mas também não querem estar sozinhos/as. Este tipo emocional é perigoso porque cria dependência sem nunca suprir os efeitos da carência que provoca. Um tal grupo deverá caminhar para a endogamia (ou seja, deverá encontrar pares entre os adeptos da mesma lógica) como forma de respeito pelos sentimentos de quem se entrega por vocação.

Miséria II (act.)


Leio os comentários de quem não percebe a razão de tanta indignação. Pois bem, voltámos a ver as imagens e não podiam ser mais claras. O Jorge Costa depois de ter estado precupado com a lesão de João Pinto está a um metro de Rui Jorge e faz-lhe sinal para o deixar voltar ao jogo. Rui Jorge viu o Liedson sozinho e, indiferente, atirou a bola por cima do Jorge Costa que ainda correu. O mais que conseguem dizer é que o golo foi legal porque o árbitro tinha dado sinal para começar o jogo?! Muitos se tornaram aduladores da legalidade quando mais se sentiram vazios de legitimidade. É assim tão difícil de reconhecer que o Rui Jorge teve uma atitude inqualificável numa semana em que a precupação com o estado de saúde de um adversário deveria ser valorizada como nunca?

Parece que José Bettencourt terá que provar a sua novela como réu de um processo-crime. Queiram aguardar os apedrejadores de serviço. A José Mourinho já o vimos perder, e apesar de não ter muita prática, sempre soube dar os parabéns ao adversário. Perdoem, muita haveria a dizer do Sporting de ontem, da exibição de Barbosa, de Ricardo, mas Rui Jorge sufocou esse espaço de enunciação. Lembro quando o Carlos Alberto Silva pôs um miúdo, defesa esquerdo, a jogar contra o Milão. Eu adorava-o. Era um tal de Rui Jorge. Tinha um autocolande dele colado na minha escrivaninha. É com tristeza acrescida que o vejo manchar uma carreira exemplar.

P.s. Qual processo-crime? O J.C.D já sentenciou: Está visto que a culpa é toda dele, afinal Mourinho é um mau carácter e um pobre de espírito. Sempre abismei com esta capacidade para emitir juízos por preconceito de carácter das figuras televisivas. Uma coisa é certa, teríamos uma justiça mais célere.

Miséria

Preferia que o Porto tivesse perdido a saber o que se passou hoje no estádio. Receoso, com a memória fresca, alguém do FCP preocupou-se com a lesão do adversário. O jogo seguiu para asco de todos nós. Deu golo, ainda bem. A cruel vileza de que se pode vestir a ânsia de vencer merece ficar simbolicamente registada. Rui Jorge, disseram-me que lançaste os dados. A esta hora saberás que uma carreira nobre vale bem mais que um mísero ponto num campeonato que já não vencerás, ainda que a tua equipa seja campeã.