O Evangelho das bombas e dos direitos

O JCD, nos Jaquinzinhos - um blog-opositor de estimação -, defende que Roberta Gompertz devia ir pregar os direitos das mulheres para o Islão, para ver como elas lhe doíam. Caro JCD, para começar porque não esclarece a sua posição pessoal e liberal em relação às matérias de facto - a despenalização do aborto -, de que até desconfio, em vez de passar o tempo com a conversa - algo cínica, parece-me - de desqualificar tudo o que ousa mexer e atrai câmaras?

Mais, por esta altura já devia ser mais claro no seu espírito esta coisa simples: a tentiva de exportação dos valores progressistas ocidentais como a democracia e os direitos humanos deve ter o cuidado de se demarcar das lógicas imperiais e arrogantemente evangelistas com que a modernidade ocidental se relacionou com o mundo. Se assim não for, em vez de abertura e diálogo cultural teremos culturas cada vez mais fechadas nas suas certezas e, consequentemente, nas suas formas particulares de opressão. Face à história, para uma mulher islâmica tanto pode ser opressor o marido como uma mulher ocidental que venha apresentar sua superioridade emancipada para dizer como ela se deve libertar. Assim, se queremos confrontar lógicas como a excisão do clitóris e a negação de direitos às mulheres devemos, acima de tudo, capacitar aqueles que naquele quadro cultural lutam contra esses estados de coisas, muitas vezes não abdicando dos valores religiosos e locais, mas usando-os ou tentando resignificá-los. Isto dos ventos da mudança fora dos nossos quadros culturais tem algo mais que se lhe diga. Já sei, não pensam assim os defensores da democracia à bomba.



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