Noiva de Deus



Como no filme, era noiva de Deus,
confessou-me, ríspida, seu
perseguidor. Os Seios
ainda facilmente me oprimem
o fôlego, anos passados.
Eu tentava a pouca arte, a repetição,
mas ela e Deus promessi
sposi (foi isto em Itália).
Álibi, imaginei, sempre generoso.
Mas não: em Setembro abandonava
a roupa cívil, escondia os cabelos
pretos. Ia entregue. Não sei
como se passou: uma década quase,
nem o seu nome. Apenas
um poema como lápide, como
ironia, o volume ainda laico
do seu peito e a última vez
que concorri com Deus.

Pedro Mexia, Vida Oculta, Relógio D'Água

Segundo alguns autores, este poema de indelével recorte trágico, insere-se numa histórica demanda pela laicização do seio. É também uma prece que aqui lemos, uma prece pelos volumes laicos que Deus levou e o tempo fará descair. Longe dos seus devotos.



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