Estranha noite, bonita noite


A noite de ontem foi cheia de tensos simbolismos. Ressalte-se o recontro dos protagonistas de uma recente memória épica no aplauso a Mourinho, um momento que juntou os heróis do passado, tornando belo um quadro assaz estranho. Estranho por dois motivos: primeiro, pelo facto da sobrevivência desportiva do Porto na Champions depender da vitória contra o homem que naquele mesmo estádio provou à saciedade ser o melhor treinador do mundo - arrisco: depois do Ronaldo de Barcelona, o mais cintilante génio em actividade no mundo do futebol -; e, segundo, pelo claro esfriar de relações entre Pinto da Costa e Mourinho, processo que teve como apogeu a cena lamentável no Estádio da Luz, em que a companheira de Pinto da Costa se sentou na luz ao lado do jovem que ameaçou Mourinho de morte e lhe cuspiu em Chelsea - as consequências só não foram piores porque Mourinho, numa sábia separação das águas, declarou à Uefa que o Porto-clube não merecia ser punido por um acto isolado de cariz pessoal (passional, acrescento). No fim, e se não chegassem tantos simbolismos e contradições de difícil resolução, o fantástico golo de McCarthy surge 30 segundos depois da saída de Pinto da Costa do Tribunal, como se a divindade futebol quisesse desde já sancionar uma inocência que espero vir a ser provada em sede própria.

Quanto ao futebol que se jogou e à vitória que me fez recuperar a a capacidade de dar pulos em espaços públicos, servem-me bem as palavras de José Manuel Ribeiro: "pagam-se alvíssaras a quem tiver certezas sobre os limites deste FC Porto. Os de baixo e os de cima" Uma coisa é certa, neste momento o futebol do Porto está a ficar tão dependente de McCarthy como noutras épocas dependeu de Timofte, Domingos, Jardel, Deco ou Derlei. O que em si, não é mau, mas convem ter dependências de contingência.



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