The Dreamers


Afinal podem ser precisos três para um tango iniciático em Paris. Sugerirá Bertolucci. A genealogia com a obra de 72 fica representada na cena do elevador, filmada do mesmíssimo modo. No "Último Tango" Paul persegue Jeanne, três décadas depois são três jovens que brincam no ascensor. O Maio de 68 estava lá fora, nas ruas. Mas dentro da casa os desacatos à ordem davam-se doces, em beijos, carícias e banhos de imersão a três. Os motes, quais grafittis de cabeceira, são intimistas, pessoais, biográficos. E cinéfilos, pois. Entre um casal de gémeos e um convidado decorre uma insólita intimidade num enleio que transgride a norma. Transgride não como manifesto político, nem como livre curso de um desejo arrebatador que se cumpre libertário, insuflando o sexo de um fácil estatuto de verdade última, mas transgride, isso sim, como um romantismo sem nome, onde se mescla incestuoso o legado das cumplicidades infantis. Temos, pois, a inocência de uma transgressão que fracassa em reconhecer-se como tal. A revolução avant la lettre de quem não chega a incorporar a ordem.



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