A culpa é dela

Naquela noite, já ébria e chorosa, ela segredou-me: “Sabes, até não me importo de pensar que ele se foi. Mas assusta-me pensar que o deixei ir.”
Matutei no caminho para casa. Na verdade, deve ser bem mais fácil ser abandonado. Há mais poesia à mão. O fado triste serve-se em vários estilos musicais. Muito mais doloroso será para quem se sabe algoz do seu próprio destino. Muito mais doloroso será nas noites frias sentir a falta e a saber-se a causa dela. Aí, culpar uma dor do passado talvez seja a única saída, como quem dissesse: “não fui eu que o deixei partir, mas a dor que alguém me deixou”. Talvez este verso de Florbela Espanca tivesse servido à minha amiga, desconheço:
Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.



<< Home