Como eles no sítio

Há expressões profundamente patriarcais que associam a capacidade e a força ao valor da masculinidade. Desde a utilização mais erudita do conceito "emasculação" enquanto sinónimo de fragilização, até à exaltação de um gajo com eles no sítio vai todo um espectro de subtis afirmações do sexo forte.

O uso feminista que se procura fazer destas expressões, assim como de algumas práticas tipicamente masculinas, de que a ostentação pública da capacidade de desejar é o melhor exemplo - falo da ancestralidade do "Eh, gaja boa, comia-te toda!" em relação ao "Vejam bem o rabo que aquele gajo tem!" -, esse uso feminista, dizia, representa uma mera inversão, algo que inverte sem subverter. Reproduzindo-se, assim, as práticas e os discursos patriarcais, mas, desta feita, numa lógica democratizada e não sexista. No entanto, há uma inversão que me parece deliciosa. É quando alguém se lembra de exaltar uma mulher e usa a expressão "ela é uma gaja com eles no sítio". A expressão original, raramente usada porque demasiado labrega, fala de alguém com os tomates no sítio. Poderiámos pensar o quão ridículo é exaltar a coragem de uma mulher por apelo aos testículos como símbolo de virilidade - a menos que se trate de uma paródia dis discursos sexistas-, no entanto, talvez por boa vontade, sempre que ouço essa expressão acredito que estamos perante uma progressista exaltação da anatomia feminina: com eles no sítio, claro, os ovários.



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