"You can't live trying to avoid pain..."


"I guess when you're young you just believe there'll be many people you'll connect with. Later in life you realize it only happens a few times."
Temi que a parte dois pusesse tudo a perder. Temi pela magia daqueloutra noite. Foi bem mais que um alívio.

A minha manifesta incapacidade para resistir à "viagem" deste filme pouco teve a ver com questões do foro estritamente cinematográfico. Coisa esperável. No reencontro de Jesse e Celine há um realismo tão "cru" que parece milagre o lirismo que foi perpassando e me seguiu, teimoso, para fora da sala. Realismo no modo como os diálogos se compõem (as hesitações, os sorrisos fora de tempo), nas histórias lembradas, nas arqueologias sentimentais, na catarse neurótica de Celine, no rosto envelhecido de Ethan Hawke, na ausência de banda sonora, nesse tempo quase real que se esvai passo a passo com a fita. Na verdade, percebi ali um tempo ambíguo. Um tempo que tanto nos é oferecido sucessivo e fugidio -- pela inevitabilidade do anoitecer-- (Cronos- o tempo mensurável do relógio), como nos é posto enquanto um concentrado emocional, qual Aleph de uma raríssima possibilidade romântica (Kairos- o tempo vivenciado pelos sujeitos), também ela ameaçadoramente fugaz, talvez porque o romantismo possa mesmo ficar refém de um encontro, de uma pessoa, de uma "perdição", de uma via não acontecida: "In a way, I put all my romanticism into that one night...". Mas há uma outra questão que inevitavelmente nos enreda, espectadores, numa insigne partilha ontológica com os amantes. É que, cínicos ou românticos, também para nós passaram 9 anos desde a noite de Viena. Também nós lembramos. Também nós olhamos para o lado.

Se quiserem emular os simbolismos da história, podem ver o filme sozinhos. Ou então em rara companhia, ao lado de alguém com quem valha a pena ousar a memória de uma valsa, ainda que ela se chame a Valsa do Adeus.



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