Posse do Outrora

"Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las e que essas perdas são agora o que é meu. Sei que perdi o amarelo e o negro e penso nessas impossíveis cores como não pensam os que vêem. O meu pai morreu e está sempre ao meu lado. Quando quero escandir uns versos de Swinburne, faço-o, dizem-me, com a voz dele. Só o que morreu é nosso, só é nosso o que perdemos. Ílion passou, mas Ílion continua no hexêmetro que a lamenta. Israel existiu quando era uma antiga nostalgia. Qualquer poema, com o tempo, é uma elegia. Nossas são as mulheres que nos deixaram, já não submetidos à véspera, que é aflição, nem aos alvores e terrores da esperança. Não há outros paraísos senão os paraísos perdidos." (Posésion del Ayer)
J.L.Borges, Posse do Outrora, Os conjurados

Sempre tive um fascínio pelos estetas da perda. Na verdade, é uma expressão lastimável, "estetas da perda". E digo isto, apenas porque tais estetas, como eu os entendo, nunca serão, primeiro que tudo, estetas. São, isso sim, sujeitos que se viram impelidos a socorrer-se de narrativas capazes de tornar vivíveis (suportávies, sufferable para utilizar uma deliciosa expressão inglesa) as contingências e fugacidades da existência. A beleza ajuda a construir a posteriori as histórias com que podemos viver. Por isso, a estetização da perda é, por um lado, a sublime resistência ao espectro do fracasso e do infortúnio, e, por outro, a convicção informada de que não podemos passar sem as "perdições", assim ousemos ater-nos às coisas belas.



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