Marcas do intimismo

Numa afirmação simplista, mas que só pretende ser provocativa, poderíamos definir o espaço público como o espaço em que mostramos as nossas virtudes, aquilo que nos fica bem. (eu por exemplo tenho uma camisa de flanela feia de morrer que só uso em casa).

Por isso, uma das marcas de água do dito registo intimista é a exposição de vulnerabilidades e a auto-depreciação. Por exemplo, grande parte do apelativo do Dicionário do Diabo devia-se à enunciação das "desgraças" "pessoais" do seu autor-personagem. A empatia que estabelecemos para com quem expressa (ou estetiza) as suas vulnerabilidades percebe-se bem. Todos as temos, como temos leitmotivs para nos depreciarmos, mas, por norma, não o fazemos no espaço público. Quando algém o faz em "canal aberto" aparece, nalguma medida, como a manifestação desse segredo que é de todos nós. Talvez por isso tantas vezes me perguntam: "não achas que te expões demasiado com o blog?" A repetição desta pergunta não tem tanto a ver com o resgate do privado para o público, mas com uma ficção cuidadosamente vigiada: em público devemos mostrar só o nosso melhor lado.



<< Home