Maradona e Foucault: "A solidão do acrobata"

De quando em quando sou convidado para palestras e conferências. Estou sempre a dizer que me devia cortar-me mais, mas, a bem ver, esses périplos pelo país são uma parte que dá sentido prático ao restante trabalho académico. Transformação social, pois. E depois há esse pormenor: gosto. Hoje lá fui, mais uma vez, a um auditório apinhado por alunos de uma escola superior de educação. É curioso, quando vou jogar à bola - por mais reles que seja o pavilhão - lembro sempre as jogadas do Maradona - obviamente não sai nada que se pareça. Do mesmo modo, quando me sento para uma comunicação com um auditório não resisto a lembrar uma deliciosa descrição de Michel Foucault strong sobre a inevitável solidão do acrobata> - bem escuso de dizer que não sai nada que se pareça. Dessa descrição resgato aqui aqui interessante um texto que o meu caro amigo João Nogueira nos oferta nos arquivos do saudoso Socioblogue:

"Quando Foucault entra na arena, rápido, dinâmico, como alguém que se lança na água, passa por cima dos corpos para atingir sua cátedra, repele os gravadores para colocar os seus papéis, retira o paletó, acende uma lâmpada e começa, a cem por hora. Voz forte, eficaz, retransmitida por alto-falantes, única concessão ao modernismo de uma sala mal iluminada por uma luz que sobe por arandelas de estuque. Há trezentos lugares e quinhentas pessoas apinhadas, tapando o menor espaço livre [...] Nenhum efeito oratório. É límpido e terrivelmente eficaz. Sem a menor concessão à improvisação. Foucault tem doze horas por ano para explicar, em curso público, a direcção de sua pesquisa durante o ano que acabou de findar. Então, comprime ao máximo e preenche as margens como os correspondentes que ainda têm muito o que dizer quando chegaram ao fim de sua folha. 19:45. Foucault pára. Os estudantes correm para a sua escrivaninha. Não para falar-lhe, mas para desligar os gravadores. Sem perguntas. Na confusão, Foucault está sozinho.. E Foucault comenta: .Seria preciso poder discutir o que propus. Algumas vezes, quando o curso não foi bom, seria preciso pouca coisa, uma pergunta, para reordenar tudo. Mas essa pergunta nunca vem. Na França, o efeito de grupo torna qualquer discussão real impossível. E, como não há canal de retorno, o curso fica teatral. Tenho uma relação de ator ou de acrobata com as pessoas que estão presentes. E, quando acabei de falar, uma sensação de solidão total..."



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