Mamas: devaneios

Diz-nos a Sara: "Há mamas grandes e pequenas. Há peitos descaídos, outros firmes. Uns assim, outros assado. Existem seios para todos os gostos. Acho também que todos os bustos têm a sua beleza, por aquilo que me é permitido observar no dia-a-dia, das mulheres que por mim passam." E acrescenta: "Tive complexos que a partir de certa idade ultrapassei e julgo que não voltarão. Há que relativizar e comprar roupa interior adequada."

Como poucos, o tema das mamas oferece-se a um proverbial relativismo. Isto assim é pela pluralidade de preferências estéticas e pelo importante papel de "tradução" que a roupa interior - quase sempre - realiza no modo como elas nos chegam os olhos. Eu, que sempre fui uma pessoa de contextos, acrescento um outro relativismo: não acredito nas análises solipsistas das mamas. Explico. As mamas fazem parte de um corpo, e o seu lugar só poderá ser compreendido por referência à barriga, à largura das costas, à altura, ao andar, etc. E depois há um outro "detalhe". Aqui começa a insólita raridade que une algumas irisis a alguns mamilos. O sintoma cimeiro desse detalhe substancia-se no facto do vislumbre das mamas se poder tornar uma "missão" difícil de cumprir. É verdade. Creiam-me. Tal acontece quando as mamas relevam (boa expressão) de alguém que nos olha e "fala", de tal modo cativando, que desconcerta qualquer pretensão, quer à contemplação estética, quer ao desejo erótico, nos seus sentidos mais "puros".

Desconcerta, não anula. Complexifica. Singulariza. Apenas porque destrói aquilo que Donna Haraway chama "o conquering gaze from nowhere", o tal olhar patriarcal vindo de nenhures. Temos pois que nessa destruição criativa as mamas passam a ser vistas de um "lugar" crescentemente situado, lembrando-nos de um relativismo bem mais portentoso que a própria roupa interior que aconchega as mamas e lhe molda as formas. Falo, claro, da sujectividade estético-afectiva de quem vê. Quando ela se decide a entrar em cena não mais há o olhar conquistador do masculino, assim posto, mas sim o olhar de um sujeito. Cativo e desconcertado.



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