Hoje não está vento

Por sorte hoje não está vento. É estranho, de uma maneira ou de outra tem-se sempre a impressão de ter sorte, quando uma circunstância qualquer, mesmo infinitésima, nos retém à beira do desespero e nos concede viver.

Primo Levi, Se Isto é um Homem


Resisto à ideia que a verdadeira natureza humana se revela nas situações limite. A bem da verdade resisto à própria ideia de natureza humana - pelo menos aos usos redutores e deterministas que sociobiólogos e afins gostam de lhe dar. Mas histórias como as dos sobreviventes de Auschwitz não deixam de nos trazer algo de uma verdade mais profunda. Dizem que o passado é um país distante. Dizem que orfeu desceu aos infernos com a sua lira. As línguas que falamos e as músicas que dedilhamos na vivência do inóspito não são mais verdadeiras. São mais nossas. Porque no sofrimento está-se sempre só. O sofrimento é um universo de sentido em em que nos confrontamos com experiências incomensuráveis, irredutíveis a uma linguagem. Por isso, falar do sofrimento é falar do que jamais poderá ser dito. É bom que prestemos atenção a esses indizíveis, que ouçamos as línguas e as músicas de quem lá esteve. Para aprendermos como não se vai para lá, obviamente. Mas também porque o sofrimento às vezes pode ser apenas isto: a solidão de ter lá estado.



<< Home