The Village


Não há hipótese, é de facto um filme deslumbrante. Com a conhecida maestria de quem põe tudo no assador para erguer a arte do suspense, M. Night Shyamalan não deu tréguas a todos aqueles que pagaram o aluguer de duas horas das suas vidas. Muitos, como eu, estavam dispostos a não pagar o resgate para sair da sala.

Numa povoação isolada, regida por um conselho de anciãos, as vidas e vidinhas se vão meneando num quotidiano pré-moderno, onde labores, amores e desamores se entrelaçam com momentos de comunidade - relevam os rituais fúnebres e matrimoniais que juntam toda a povoação à volta de uma mesa. Paralelamente a essa regularidade possível, toda uma mitologia da origem se desenha, e é através dela que se vai desvelando a génese da vila e as razões da sua fatal incomunicabilidade com "as cidades". Tudo parece girar em torno de pureza territorial imposta por um acordo ancestral com "os seres de que não se fala", os que habitam o bosque: ninguém passa os limites da orla da floresta, "nem eles, nem nós".

Muito nos fica deste filme assombroso em que o idílio da aldeia encantada, qual conto de fadas, nos é ofertado por uma magistral fotografia - onde raramente entram vermelhos -, para logo ser desdito pelos violinos, eles sim, senhores de um enredo tenso e enigmaticamente sedutor. Temos um rol personagens e interpretações interessantíssimas. Joaquin Phoenix e Adrien Brody cintilam, mas incontornável é, sem dúvida, a construção soberba de Ivy Walker (Bryce Dallas Howard), mulher bela, maria-rapaz, temerária, que, por devoção, incorporará uma versão romântica do capuchinho vermelho. É revelador como a cegueira de Ivy é tratada de um modo raro, nobre, doce, surgindo-nos na "descrição" da personagem como um elemento mais no seio de tantas outras idiossincrasias. A questão de "ver ou não ver" não faz o argumento refém, não é mobilizada para pôr em causa o sentido da vida, nem tão pouco dá cobro ao exotismo metafísico da cega vidente. Adensando o mistério, é certo, a cegueira está lá, coexistindo de ponta a ponta com essa jornada pessoal em busca da felicidade, do amor, da pessoa única capaz de dar cor à vida - como a certa altura Ivy diz ao pai.
Acho que só com muito estreiteza de vontade se pode chamar a The Village um filme de suspense. Traz muito mais. Ele fala do tortuoso discorrer dos afectos quando tratamos com maior despeito aqueles que mais nos dizem: "muitas vezes não fazemos o que queremos por termos medo que os outros percebam o que queremos". Fala dessa necessidade de fechamento de sentido: todas as vidas, todas as culturas, carecem de ficções mitológicas que excluam outras mitologias, às mais antigas chamamos tradições e identidades, às mais recentes, damos o nome pouco nobre de invenções. A artificialidade/autenticidade é, pois, uma questão de escala e de prisma. The Village fala de não-lugares, de utopias - depurações e fortificações do real - que ora nos lembram as comunidades dos Amish, ora nos transportam para o imaginário da Macondo de Gabriel Garcia Marquez; e, nesse sentido, a aldeia surge-nos como um lugar incontaminado, não para a salvação das vidas futuras, como o sugere o puritanismo religioso, mas como uma ilha criada pela vontade de fazer face ao absurdo do sofrimento (curiosamente, saber viver esse absurdo é para Weber uma das chaves de toda a religiosidade): "Corremos para a esperança, e isso é lindo, mas a morte como o sofrimento faz parte das nossas vidas". Fala-nos também do quão imprevisível é o surgimento da maldade e da bondade entre os homens: haverá sempre um criminoso na mais harmoniosa das comunidades, um anjo pode sempre surgir nas terras desoladas: "tens bondade na tua voz. Não esperava isso".
Um filme que, para usar a expressão de um amigo, me deixou de rastos.



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