Ícaros que somos

Morreu Christopher Reeve

Nos tempos de míúdo era frequente que qualquer festa de anos tivesse um interlúdio, sempre esperado : aquela hora da tarde em que todos ficávamos a ver o vídeo de um dos filmes do super-homem. Enquanto incorporação emblemática do super-herói, Christopher Reeve tornou-se naturalmente a mais poderosa representação de um poder a toda a prova. Por isso, para o mundo, a sua paralisia surgiu como uma fortíssima expressão simbólica da vulnerabilidade que irmana as nossas humanas condições. Como afirma Arthur Kleinmam, a possibilidade do sofrimento é uma das bases incontornáveis da existência humana; social, psicologica e fisicamente todos sabemos o que é sofrer. Obviamente, importa lembrar que para além dessas contingências que a todos sujeitam, a possibilidade da miséria não está igualmente distribuída no mundo, nem tão pouco a possibilidade de fazer face ao desastre. No entanto, a morte de Christopher Reeve não é apenas a morte de um homem, a morte da sua luta e perseverança, é, creio bem, a queda de um ícaro. Por mais sábios que sejam os mundos criados pelo homem - e seria bom que o fossem - a familiaridade do abismo é insuperável. Fallhamos quando cremos ser possível extirpar de vez esse abismo, falhamos quando fracassamos em criar respostas para resgatar aqueles que lá caíram, falhamos quando nos escusamos a acompanhar afectivamente essas quedas, tantas vezes inevitáveis.



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