Mitologias

"O homem branco toma a sua própria mitologia, a mitologia Indo-Europeia, o seu próprio logos, isto é, o Mythos do seu idioma, pela forma universal daquilo que ainda deve desejar chamar Razão". (Jacques Derrida, citado por Robert Young em White Mythologies pag. 38)

Já o dizia Walter Benjamin, toda a história se arrisca a ser a mitologia dos poderosos e dos vencedores, e, por isso mesmo, teremos sempre histórias e contra-histórias fadadas a dissolverem-se. É esta a razão pela qual Gayatri Chakravorty Spivak questionava sonante: "Can the Subaltern Speak?" Aí está, a questão dilacerante: pode/consegue o Subalterno ser ouvido quando as opressões e os colonialismos tanto dependem dos epistemícidios e das mitologias legitimadoras da dominação? Ou da mitologia da História, se quisermos. Investidos por esta provocação, somos enviados para a finíssima asserção de Homi K. Bhabha. Numa discursividade crítica em tudo próxima à necessidade de um sistemático descentramento do Ocidente (Ernesto Laclau) ou do imperativo (ético, se quisermos ir até Levinas) de Aprender com o Sul (Boaventura Sousa Santos), Bhabha, o mais célebre pós-colonialista vivo desde a morte de Edward Said, diz-nos que:
"é daqueles que sofreram a sentença da história - subjugação, dominação, diáspora, desterro - que nós aprendemos as mais duradouras lições para viver e pensar" (Homi Bhaba em The Location of Culture).

Tudo isto são questões que Robert Young explora neste seu portentoso livro. Seguindo-o, a partir de uma critica à totalização etnocêntrica do conceito marxista de história, lá vamos, a par e passo com o talento e erudição de um mestre da recensão (Colonial Desire também o prova), calcorreando nomes incontornáveis da teoria ocidental. Somente quando a História consente em despir-se como uma mitologia do ocidente colonizador, como uma mitologia do homem branco (sim, homem, a voz das mulheres faz parte do espectro de silenciamentos), é que podemos aceder às mitologias plurais, às multiplas historicidades que tanto nos têm a ensinar. A conclusão não podia surpreender menos, mas o que interesssa neste livro-passeio - às vezes árduo - é mesmo o caminho.



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